24/09/2010

Coisas chinesas

 

Ganhei um livro muito legal chamado “ Chinese Stuff ”. 

Ao longo de suas páginas, somos apresentados a objetos, produtos ou simplesmente “coisas” utilizados cotidianamente em solo chinês. O prefácio traz aquele discurso habitual sobre a globalização, a sociedade consumista moderna, a Coca-Cola, o iPod, e de como há um grande número de objetos aparentemente banais que refletem muito mais as características de uma nação. 

São 125 itens divididos em várias seções - “em casa”, “comidas e bebidas”, etc. Por exemplo: 

Escritório e sala de aula 

Nenhum estudante chinês que se preze vai pra escola sem seu Dicionário Xinhua . É o Aurélio do Oriente: qualquer livraria vende e todo mundo tem. Mais de 400 milhões de cópias desse dicionário já foram vendidas na China. Só pra comparar, é mais ou menos o que os sete Harry Potters venderam no mundo inteiro. Um motorista de riquixá na província de Henan chegou a decorar todos os 9 mil caracteres do livro: ele consegue falar a página, a linha e a explicação de cada ideograma. Maluco. 

 

Outras figurinhas fáceis da seção “Escritório e sala de aula”: 

Dicionário eletrônico. Imprescindível pra estrangeiros aprendendo chinês. Procurar um caractere na pressa, com a professora te olhando torto, é muito mais fácil quando se tem a tecnologia ao seu dispor. Em todas as salas onde estudei, era batata: mais da metade dos colegas tinham um dicionário eletrônico a tira-colo. 
Ábaco. Já foi mais popular. Mas ainda hoje, principalmente em farmácias, dá pra encontrar chineses que não usam maquininha, só calculam no ábaco. Algum de vocês sabe usar esse negócio, aliás? 
Caderno para praticar caligrafia. Pra decorar milhares de caracteres não tem outro jeito: é praticar, praticar, praticar. Existem cadernos para estudantes e crianças que são quase um livrinho pra colorir: vêm só com o contorno, pra você preencher e enfiar na cachola de uma vez por todas com quantos paus se faz um ideograma. 

    

Comidas e bebidas 

Nessa seção eles nem se alongam tanto, porque dá pra escrever umas oito enciclopédias sobre a alimentação chinesa, e o negócio aqui é ser mais objetivo. Permaneceram os itens mais típicos do dia-a-dia. Como deixar de fora, por exemplo, o onipresente jiaozi ? Talvez você o conheça pelo nome japonês, “guioza”. É basicamente um pastelzinho cozido no vapor, com recheio de carne moída e/ou legumes. Lembra um raviolizinho. Em qualquer esquina chinesa você encontra uma “jiaozeria” cozinhando pilhas e pilhas de caixotes de madeira com jiaozis e baozis (um primo próximo do jiaozi, só que com massa de pão). Dá até pra comprar congelado no supermercado e fazer em casa. 

 
E não esqueça do potinho com vinagre! 

Também estão na seção de comidas e bebidas o potente erguotou , bebida destilada com graduação alcóolica de incríveis 56%; o bolinho da lua , sobremesa tradicional do Festival da Lua (que este ano caiu na última quarta, 22 de setembro) com dúzias de sabores diferentes; e o famigerado ovo de mil anos , um ovo normal que é embalado numa mistureba de argila, cinzas, sal, cal e amido de arroz por meses a fio, adquirindo uma coloração verde-esquisita e um “aroma acentuado”, nas palavras de quem já encarou. 

   

Em casa 

Qual é o item mais comum nas cozinhas chinesas? Essa é fácil: os famosos pauzinhos , aqui chamados de “kuai zi”. Usá-los com destreza é visto com admiração por olhos brasileiros, mas é das habilidades mais corriqueiras na China. Garfo e faca é que é difícil. Uma vez fui jantar num restaurante ocidental com vários amigos, incluindo um belga e sua namorada chinesa. Ele teve que partir a carne dela toda, porque ela não tinha muito a manha de usar talheres. Para os chineses, lugar de faca é na cozinha, onde você corta os alimentos e já deixa os pedacinhos preparados para a fácil captura com os palitinhos. 

A seção “em casa” é extensa e inclui também a esteira de bambu (que tem o efeito milagroso de refrescar o ambiente, porque absorve suor e umidade); o leque de folha de palma , usado indistintamente por homens e mulheres, para espantar calor e mosquitos; e a sacola vermelho-azul-e-branca , apelidada de “pele de cobra”, muito utilizada por migrantes para carregar a tralha na hora de enfrentar 30 horas dentro do trem lotado. 

   

Há um outro item que curiosamente está na lista dos objetos “de casa”, mas cujo habitat natural são as ruas. É o triciclo motorizado encontrado nas cidades grandes e nos vilarejos, com capacidade para uns dois ou três passageiros (tem que apertar bastante) e capaz de entrar nos becos mais estreitos que aparecerem no caminho. 

 

Lazer e recreação 

O que a chinesada faz nas horas vagas? Pingue-pongue é um bom chute (embora eu veja mais gente jogando basquete do que rebatendo bolinha numa mesa). Ainda mais comum de se ver é chinês jogando peteca – não com a mão como a gente faz, mas com os pés. É mania antiga: imagens gravadas em pedras de 2 mil anos de idade já mostravam pessoas chutando petequinhas na China. 

Jogos de tabuleiro fazem bastante sucesso, principalmente entre a turminha da terceira idade. Qualquer domingão ensolarado traz nas ruas um bando de senhores debruçados sobre uma mesa de xadrez chinês (um parente da versão ocidental) ou mahjong , que, com seus 4 jogadores e 152 pedrinhas, lembra uma mistura de baralho com dominó. “Onde há chineses, há mahjong”, disse Liang Shih-chiu, renomado educador, escritor, tradutor, teórico literário e lexicógrafo. Eu é que não vou discordar. 

   

Vestuário 

Sabe aquele chapéu pontudo tipicamente chinês, igual o do Raiden do “Mortal Kombat” ou dos capangas de Lo Pan em “Os Aventureiros do Bairro Proibido”? É, esse mesmo que eu tô usando na foto lá de cima. Pois é, ninguém usa isso nas ruas. Aquele é um adereço pra quem trabalha no campo, equivalente ao chapéu de palha das nossas festas juninas. Na vida urbana, outros itens do vestuário são mais importantes. A máscara de rosto é bem comum no inverno e quando a poluição está mais braba. Proteje do vento frio, das impurezas do ar, da gripe suína. Talvez com medo de parecer doente, muita gente usa máscaras decoradas. Já vi máscara com smiley e até a linguona dos Rolling Stones. 

Outra vestimenta muito comum são as calças partidas de bebês . Partidas onde? Na bunda, claro. Neném chinês não usa fralda: tem um buraco na calça, deixando o traseiro ventilado e pronto para qualquer emergência. Como isso funciona na prática, não me perguntem. Nunca presenciei nenhum número dois em plena ação. Mas a mãe levantando a criança num canto da rua para aquela aliviada na bexiga, aí já é mais comum. 

  

Decoração 

34 anos após a morte de Mao Tsé-tung (e 32 depois da reabertura da China para o mundo), retratos com a cara do líder comunista ainda são bem populares. A página do livro “Chinese Stuff” que fala dos amuletos com retratos do Presidente Mao e do Premier Zhou soa um tanto controversa: “De certa forma, os dois fundadores da Nova China têm sido idolatrados como deuses e talvez mais poderosos que deuses. Enquanto deuses trazem apenas certo conforto espiritual, os dois líderes da China realmente trouxeram uma vida feliz às pessoas”. Tiremos dessa conta os milhares de presos políticos e os milhões que morreram de fome nos tempos do Mao, mas tudo bem. Apesar dos pesares, Mao continua popular e é figurinha fácil nas lojinhas de souvenir. 

Um item decorativo ainda mais comum, e que estranhamente não se encontra no livro, é o ideograma “fu” , geralmente escrito em papel vermelho e pendurado nas portas de cabeça pra baixo durante o ano-novo chinês. O caractere 福 significa “sorte” e existem várias lendas de porquê ele é colocado de ponta-cabeça. A explicação mais comum é que “fu invertido”, em mandarim, soa exatamente como a frase “a sorte chega”. 

  

E se fizessem uma versão brasileira? Um “Brazilian Stuff” pra mostrar pros gringos, um livro reunindo os objetos mais típicos do cotidiano tupiniquim? Mantendo as mesmas seções do original chinês - “escritório e sala de aula”, “comidas e bebidas”, “em casa”, “lazer e recreação”, “vestuário”, “remédios e cosméticos” e “decoração” - o que, na sua opinião, não poderia faltar num livro de “Coisas Brasileiras”? 

20/09/2010

Aqui jaz o Bla-Bla-Bar

Beijing é uma constante metamorfose.

Qualquer um que já morou na capital chinesa sabe: se você fica algumas semanas sem passar por um lugar, é grande o risco de encontrar outra paisagem quando retornar. Construções são demolidas, restaurantes passam por reformas a jato, prédios enormes são erguidos num pulo. A lojinha de DVDs perto do metrô Wudaokou ficava nos fundos de uma loja de esportes; conseguiram pôr abaixo a loja de esportes e transformá-la num restaurantezinho em pouco mais de uma semana. A equipe do "Lar, Doce Lar" morreria de inveja.

Passei o último mês no Brasil, visitando amigos e familiares depois de um ano morando na China. Ainda em BH, fiquei sabendo que queriam fechar o Bla-Bla-Bar.

Ele foi o quartel-general da minha turma por muito tempo: convenientemente localizado dentro do campus da BLCU (Beijing Language and Culture University), no primeiro andar do prédio da cantina, com chopp barato (meio litro por R$ 1,20), música de qualidade duvidosa geralmente escolhida por uma samoana, uma mesa de totó onde perdi incontáveis partidas e até ganhei algumas, tábua de dardos na parede, troféus de um time de futebol local orgulhosamente expostos na prateleira (e uma foto da equipe autografada por todos os jogadores), bandeiras de várias nações, banheiro de espelho constantemente quebrado por clientes alcoolizados, camisetas à venda com a logomarca do bar, quadros com notas e moedas de todo o planeta (tinha até uma verdinha de 1 real dando sopa), funcionários que nos conheciam pelo nome.

Foi no Bla-Bla-Bar que comemorei meu aniversário de 25 anos, com direito a dancinha em cima da mesa quando as cervejas e as tequilas subiram à cabeça. Foi lá que bati o meu recorde de dias consecutivos indo ao mesmo boteco (15 dias seguidos, sem pular um). Lá eu conheci espanhóis, mexicanos, italianos, brasileiros, russos, joguei drinking games, esqueci minha mochila com todos os meus livros de mandarim (estava lá no dia seguinte), presenciei samoanos dançando em cima da mesa (e um paulista tentando fazer o mesmo e despencando de cabeça), acompanhei a Copa do Mundo, treinei o chinês com as garçonetes e briguei com o dono por causa do meu pão árabe quentinho 

 
O Bla-Bla-Bar, em outubro de 2009. 

O e-mail que me mandaram sobre o Bla-Bla-Bar não transmitia muito otimismo: 

"Desconto de 50%! Porque a BLCU quer que o Bla-Bla-Bar feche! A partir de 11 de setembro, todos os drinques (cerveja, coquetéis etc) estarão pela metade do preço! Agradecemos nossos velhos e animados clientes desde 1999 até 2010. Foi um prazer servir a todos!". 

 

Por isso, logo no dia em que voltei, liguei para alguns amigos e marcamos uma cerveja no Bla-Bla-Bar, antes que fechassem o negócio pra sempre. Quando cheguei lá, tarde demais: o estabelecimento já estava na chon . Da atmosfera vibrante e os retratos na parede, só restaram escombros e uma mancha na parede revelando onde ficava a escada para o segundo andar. Na parede, um aviso triste, dizendo em letras garrafais: "ELES QUEREM FECHAR O BLA-BLA-BAR" e terminando com um encarecido " por favor, gente, por favor, não sejam tão simplórios ". Por mais que o dono fosse um babaca, é de cortar o coração. 

 
O Bla-Bla-Bar, em setembro de 2010. 

 
R.I.P. Bla-Bla-Bar 1999-2010 

 
Tauba de tiro ao álvaro, não tem mais onde pendurar. 

O fim do Bla-Bla-Bar, no entanto, era só o começo da tragédia. O prédio inteiro da cantina estava entregue às moscas: o primeiro andar, onde serviam o bandejão; o segundo, onde vendiam refeições fartas a 2 reais; e todos os restaurantes que ficavam no mesmo edifício, incluindo o japonês, o coreano, o chinês (onde faziam os jantares de final de semestre com as turmas e os professores) e o Diamond Restaurant. Até o restaurante muçulmano, onde faziam o pão árabe e a carne de boi com curry e a carne moída com iogurte e os espetinhos de cordeiro, virara pó. 

 
É aqui que faziam o pão árabe quentinho. 

 
O bandejão da cantina já era... 

 
...e o Diamond Restaurant não existe mais. 

É claro que uma universidade com milhares de estudantes não pode ficar sem lugar pra comer. Desde o ano passado vinham construindo um prédio enorme no coração da BLCU, cuja finalidade era um mistério. Especulavam-se novas salas de aula, karaokê e até pista de boliche. Nem uma coisa nem outra: virou simplesmente a nova localização da cantina. O bandejão e os pratos a 2 reais foram transferidos para o prédio novo, que cheira a tinta fresca e tem até escadas rolantes. 

Ao topar com o escritório da administração, perguntei o que tinha acontecido com o Bla-Bla-Bar. 
- Fechou – disse a mulher. 
E o restaurante japonês? 
- Fechou. 
E o muçulmano? 
- Mudou para este prédio. Saia pela porta principal e vire à esquerda. 
Alívio: nem tudo está perdido. Atrás de uma fachada apropriadamente arábica, o Muslim Restaurant ganhou gás extra com sua nova decoração, novo cardápio, novos uniformes e novas toalhas de mesa. Se bobear, está até virado pra Meca. 

 
Se 
pelo menos restaurante muçulmano servisse cerveja... 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

10/09/2010

Leia o blog, compre o livro, complete o álbum de figurinhas

Internet é aquela coisa. Taí a revolução digital, centenas de milhares de pessoas publicando seus pensamentos em blogs e tweets, até que puf. O servidor dá pau, vai à falência e aquele blog que você lia diariamente some sem deixar vestígios. Um dia o Grande Cataclisma Digital vai apagar os dados de todos os computadores do mundo e restarão apenas os livros de papel, os textos impressos em átomos.

Foi pensando nesse futuro apocalíptico que transformei algumas de minhas incursões internéticas em livros de verdade, com capa, orelhas, cheiro de tinta. Ainda não chegou a vez do Boca de Gafanhoto - tem muita água chinesa pra rolar. Mas você já pode acessar o Clube de Autores , comprar pela internet e receber em casa em até 5 dias úteis os seguintes lançamentos:



BISELHO - Antologia 2004-2009 
Contos e crônicas publicados originalmente no blog Biselho , que escrevo desde 2004. Você vai conferir os bastidores de um campeonato de aviõezinhos de papel, encontrar revelações sobre o passado da bala Chita e o futuro da Turma da Mônica, descobrir qual é o pior refrigerante do mundo e qual a pior batata frita, e desvendar de onde raios vem a palavra "biselho".
Por R$ 29,00. Para comprar, clique aqui. 



A Saga de Tião (Primeira e Segunda Temporadas) 
Uma história em pedaços, que escrevo em parceria com Daniel de Pinho no blog A Saga de Tião . Cada um escreve um capítulo e ainda deixa uma frase avulsa e desconexa que deve ser encaixada no capítulo seguinte, fazendo sentido. O volume contém as duas primeiras temporadas, publicadas entre 2007 e 2010, e traz ilustrações inéditas de Bernardo Silveira.
Por R$ 29,00. Para comprar, clique aqui. 



Uma Copa, Dois Mundos 
Um relato da Copa do Mundo 2010 na visão de dois amigos brasileiros: eu, assistindo tudo da China, e Thales Machado, assistindo à Copa in loco , na África do Sul. O livro veio do blog Uma Copa, Dois Mundos , escrito a quatro mãos durante a competição, e também traz crônicas inéditas.
Por R$ 29,90. Para comprar, clique aqui. 

 
Natal? Aniversário? Amigo oculto da firma? Você já tem os seus presentes. 

01/09/2010

Já comeu um gafanhoto hoje?

Deu na Istoé desta semana: "A ONU recomenda: coma insetos". É sério, clica aí que tem até vídeo. Um estudo feito por um holandês e com o aval das Nações Unidas explica que alguns desses bichinhos de seis patas e exoesqueleto quitinoso possuem o dobro de proteínas encontrados em carnes de boi, porco e frango. E o custo com ração para criar besouros e gafanhotos em cativeiro seria, pelo menos, quatro vezes menor do que o de criar gado. A reportagem conta ainda que existem mil e quinhentas espécies de artrópodes comestíveis no mundo, e que a entomofagia - nome bonito para o hábito de comer insetos - é comum em mais de 120 países. Tá ouvindo, vovó?

 
Se a ONU falou, tá falado... 

Aproveito a notícia pra desmistificar um negócio. Não é todo chinês que come insetos. Na capital Beijing, com seus 20 milhões de habitantes, só vi um lugar em toda a cidade vendendo os espetinhos. Não por acaso, era a Wangfujing, a rua mais turística de Beijing. Você pede um escorpiãozinho, come e só dá chinês olhando espantado, com aquela cara de "ele tá mesmo comendo isso?!". 

Mas o mesmo não pode ser dito em relação a outras províncias, especialmente no sul, onde os entomófagos são mais abundantes e o pessoal é adepto da filosofia Hakuna Matata. 

 
Os seus nojinhos... você deve esquecer... 

26/08/2010

Numa folha qualquer, eu desenho...

 

E aí eu estava andando com meu pai no 798 Art District , antigo conjunto de fábricas transformado em reduto artístico pequinês, e passamos por aquele tradicional cartaz estampado com desenhos e caricaturas. 

Homens-estátua e caricaturistas costumam ser os tipos mais comuns de artistas de rua no exterior (no Brasil, malabaristas monopolizam o mercado). Mas embora eu já tenha sido retratado por amigos e conhecidos, geralmente em traços pouco camaradas, nunca submetera minha monocelha e meu nariz libanês ao lápis de um desenhista de rua. 

Preço e tempo: 10 kuai (R$ 2,50) por uma caricatura feita em 5 minutos. O artista, de sandália e meia e rabo-de-cavalo escorrendo do boné branco, era do tipo caladão. Quando viu que ambos queríamos um registro em celulose, rascunhou dois bonecos de palitinho sem dizer nada e escreveu ao lado o preço, 20 kuai. Cinco reais por duas caricaturas. Tá difícil viver de arte no Brasil? Imagine na China. 

Munido de prancheta e um punhado de gizes de cera, nosso artista começou a desenhar pai e filho. Observava a cara de um, o focinho de outro, pedia novas cores à ajudante (ele tinha até ajudante!) e trabalhava concentrado, com as pernas abertas em A como um goleiro mal treinado. Atrás do desenhista, uma pequena platéia começou a se formar. Eles olhavam pra gente, para a prancheta e soltavam risadinhas cáusticas. Meu pai notou que o giz de cera cinza era uma constante: estava retratando seus fios grisalhos. Já as ondulações exageradas feitas com giz preto certamente representavam a saudade que meus cabelos sentiam de uma boa tesoura. 

 

Ao fim de dez minutos, o silencioso artista assinou o trabalho e exibiu o resultado. Meu pai ganhou uma túnica amarronzada e um leque amarelo nas mãos. Eu fui transformado num bebê gigante, segurando um balão azul e vestindo apenas uma bandeirola com o fú (福), popular ideograma que significa felicidade ou sorte. Da próxima vez, vou ver se adiciono uma gorjeta: quem sabe, assim, me vistam ao menos uma roupa decente. 

 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

16/08/2010

Ridiculamente complexo

Qual palavra dá mais trabalho pra escrever?

Eu tenho algumas que não curto. Quando escrevo a mão, em letras cursivas, dois Cs em seguida são sempre um pé no saco. “Facção”, por exemplo: eu vou no embalo e quando vi, coloquei três Cs em vez de dois, e tenho que fazer uma gambiarra pra transformar o último num A. É por isso que não uso com freqüência termos como “occipúcio” e “ecceidade”.

Já no celular, a mais trabalhosa é “babaca”. Todas as letras ficam na tecla 2, e você não pode digitar muito rápido, senão a mesma letra fica alternando entre A, B, C e suas variações acentuadas e cedilhadas. Na hora de xingar alguém por SMS, prefira “escroto”, “idiota” ou “calhorda”.

A língua chinesa, à primeira vista, parece ser feita exclusivamente de palavras difíceis de escrever. Tome-se uma frase simples, como “不关你的事 ” (“Isso não é da sua conta”). Nossos olhos ocidentais enxergam um emaranhado de rabiscos aparentemente impenetráveis. Com a prática, porém, você vai se acostumando e vendo sentido em todos esses “deseinhos”, como diria a minha avó. Sem falar que alguns caracteres são simples mesmo: 一,二,三, 个, 十.

Mas tudo tem limite.

Perambulando por Xi'an, notei uma quantidade grande de restaurantes que estampavam na fachada um caractere ridiculamente complexo:

 

É claro que achei que estavam de zoeira. A internet está cheia de ideogramas falsos – misturebas aleatórias tidas como caracteres chineses em uso corrente, mas que são apenas um amontoado de tracinhos reunidos para impressionar os leigos. Mas daí resolvi pesquisar, e acabei descobrindo que o caractere visto em Xi'an existe mesmo e atende pelo onomatopeico nome de “biáng”. Ele se refere ao macarrão “biang biang”, especialidade da província de Shaanxi cujo comprimento e textura deram-lhe a fama de ser que nem um cinto. 

A origem da palavra provavelmente vem do som que se faz ao mastigar a iguaria. Experimente dizer “biang biang mian” (“miàn” é a palavra chinesa para macarrão). É praticamente igual a “nham nham nham”. 


Nham nham nham 

Já o caractere em si tem origens mais controversas. Uma versão diz que ele foi criado por um proeminente premiê da dinastia Qin, uns bons duzentos anos antes de Cristo. Em 2007, um programa de TV exibiu um documentário no qual diversos professores universitários são entrevistados em busca da origem do caractere biáng, mas ninguém conseguiu constatar a veracidade da versão mais antiga. Acabaram concluindo que ele foi inventado por uma loja de macarrão, ávida por um atrativo a mais para seu produto. Pelo visto, funcionou: inicialmente tido como “prato de pobre” em áreas rurais, o prato tem se tornando cada vez mais popular em restaurantes da moda, justamente por causa do ideograma bizarro. 

 
 

Para escrever o caractere biáng, são necessários 57 traços. Dependendo da sua caligrafia, é mais do que escrever a maior palavra da língua portuguesa, “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”, ou a frase palindrômica “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”. No computador, é impossível usá-lo como fonte, apenas como imagem. 

E como se faz pra decorar essa maçaroca visual? Aí é que nem decorar fórmulas para uma prova de Física. Existem truques mnemônicos, como esse poeminha psicodélico porcamente traduzido por mim: 

Um ponto sobe ao céu 
E o Rio Amarelo faz duas curvas 
Um "oito" ( 八 ) abre sua boca 
E uma "fala" ( 言 ) entra também 
Você gira, eu giro 
Você cresce, eu cresço 
E colocamos um rei-cavalo no meio 
Um "coração" ( 心 ) forma a base 
Uma "lua" ( 月 ) fica ao lado 
Um gancho na direita para pendurar doces de gergelim 
E pegamos a carruagem para ver as ruas de Xianyang 

Agora ficou fácil, hein? 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

12/08/2010

Pérolas do Google

 

O Google continua trazendo para cá visitantes que procuram pelas mais variadas e inusitadas coisas. Em fevereiro , listei algumas buscas bizarras. Aqui vai um apanhadão de março a agosto: 

"quais os prossedimentos pra tirar um passaporte pra china" 
O primeiro passo é aprender a diferença entre passaporte e visto. 

"me mostra a foto do gafanhoto" 
Faltou usar a palavra mágica. 

"notas musicais para violão de iniciantes a musica da coca cola para inprimir eu quero só as notas não quero ter aula" 
Preguiçoso! 

"frases q lemos no dia a dia tipo nao pise na grama vendem se casas" 

Compro ouro e prata, faço carreto, homens trabalhando, dê a preferência, promoção de hoje, o gerente pirou. 

"quando chego em casa tem um gafanhoto perto da minha porta de entrada a dois dias" 
Se eu fosse você, rezava. 

"aquele que nunca escalou a muralha não é homem" 
Falou e disse! Posso provar minha masculinidade aqui aqui 

"4 pratos que se pode fazer com um gafanhoto" 
Assim, de cabeça? Bruschetta de gafanhoto, acarajé de gafanhoto com larvinhas, farofa de gafanhoto com torresmo de gato, Duplo McGafanhoto com Queijo. Esses são meus prediletos. 

"adivinhe qual o animal marinho que sem uma sílaba manda todo mundo ler" 
Adivinhe o animal que precisa usar o Google pra responder a uma charada velha? 

"cantar com o microfone perto da boca é correto?" 
Não. O ideal é enfiar no &%$#%& 

"como falo estou cansada em mandarim" 
"Wo hen lei". "Estou com dor de cabeça" é "wo touteng", e "estou naqueles dias" é "wo zai wode yuejing". 

"cor cafe com leite claro fica bom para corredor estreito?" 
Melhor pintar de gelo, fica mais clean, dá um look contemporâneo. 

"da utima ves que mandaran um foquete para alua" 
...as pessoas sabiam escrever melhor. 

"de onde vem a frase: por increça que parível?" 
De um trocadalho do carilho. 

"gosto de family guy simpsons comercio exterior linguas idiomas" 
Entendi, você tem bom gosto. Agora quer parar de paquerar o Google? 

"lançar saliva com a boca" 
Seis letras? Cuspir. Cruzadinhas Coquetel é o que há! 

"o que é o que é tem 8 letras, não tem a, 4 silabas, pode ser de verdade ou brinquedo,pode pendurar no pescoço" 
Coleira! Não, essa tem A. Estilete! Não, não dá pra pendurar no pescoço. Pé de coelho! Muito longa. Corrente! Poucas sílabas. Poxa, difícil essa, hein. 

"o que os jogadores brasileiros que estão na copa do mundo comem no café-da-manhã,almoço,café-da-tarde e jantar?" 
Não sei, mas que faltou angu, faltou. 

"o vegetal é comido pelo gafanhoto que é comido pelo sapo e qual come os três" 
Que suruba, hein. 

"qual seria o significado da frase: você é uma mulher ou um pé de couve." 
Algo me diz que você é um pé de couve. 

"que os dinossauros velociraptors costumam comer" 
Você diz, hoje em dia? 

"tem tres pessoas num bar bebendo a conta deu trinta reais ai ele deixou por vinte e cinco ai deu desconto de cinco por cento quanto deu o resutado" 
Deixa uma gorjetinha pro garçom e esquece isso, vai. 

"um aluno fala que o professor está com um mau cheiro na boca" 
E aí? Vai me deixar sem o fim da piada? 

"bob esponja se exercitando" 
Os fetiches desse pessoal continuam me surpreendendo. 

"assistir sexo bizarro mulher animais cavalo cachorro de tudo" 
Tá vendo? 

"filmes de homen fazendo sexo com cachorro ,porca ,egua,vaca" 
Em favor da minha saúde mental, vou considerar que você é apenas pouco gentil com as garotas. 

"estico o pescoço pra cima e um gosto ruim vem na minha boca" 
Sério, galera. 

"fotos de cuecas sujas de mulheres da china" 
Parei de brincar. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

09/08/2010

O Biselho não morreu



Ué. Mas então, por que este blog não ganhou uma atualização sequer nos últimos 11 meses?

Alternativas:

a) Por preguiça.
b) Por falta de assunto.
c) Porque Lucas Paio está na China e só consegue acessar o Blogger muito de vez em quando, graças à censura internética do governo chinês.

Se você assinalou a) ou b), está completamente eeeeeeeeeerrado. Tanto é que, desde setembro - de quando data o último post deste blog até agora - venho postando com freqüência no Boca de Gafanhoto, blog-irmão do Biselho que trata exclusivamente de minhas experiências aqui na terra dos espetinhos de escorpião.

Se você não acompanha o Boca de Gafanhoto, comece agora: o endereço oficial é www.bocadegafanhoto.com, mas você também pode acessar por aqui e conferir, por exemplo, como é uma universidade na China, o dia-a-dia de um estudante de mandarim, os asquerosos (ou nem tanto) banheiros chineses, a Muralha da China, as comidas que você nem sabia que existiam, os gramados e os desertos da Mongólia Interior, os guerreiros de terracota de Xi'an, além de quilos de fotos, vídeos e podcasts.

Além disso, venho contribuindo ativamente com dois outros blogs. A Saga de Tião, história parcialmente nonsense que escrevo com Daniel de Pinho desde 2007, está em sua terceira e última temporada; e o já finalizado Uma Copa, Dois Mundos, escrito durante a Copa 2010 em parceria com Thales Machado.

Agora, a grande novidade que você não sabia: o Biselho, a Saga de Tião e o Uma Copa, Dois Mundos virarão livros dentro das próximas semanas. Livros de verdade, impressos em átomos, com capa, contracapa, orelhas e quiçá até prefácio.

A Saga de Tião reunirá as duas primeiras temporadas, devidamente revisadas - a terceira você pode acompanhar pelo blog e deixar aquele comentário jóia.

Uma Copa, Dois Mundos trará textos e fotos sobre a última Copa do Mundo na visão de quem assistiu da China e da África do Sul. A maioria você pode ler no blog, mas textos inéditos também farão parte do pacote.

E o Biselho ganhará uma antologia de seus melhores textos entre 2004 e 2009. 90% do conteúdo do blog ficou de fora por um motivo ou vários, mas os 10% restantes estão sendo atualizados, emendados, melhorados, picotados, recauchutados e diligentemente revisados.

Todos os três estarão à venda pela internet. Sim, você poderá gastar seu suado dinheirinho e adquirir seus exemplares para ler no ônibus, antes de dormir, no meio da aula, durante uma reunião ou até dar de presente no amigo oculto da firma. Aguarde e verá!

08/08/2010

Xi'an, parte 6 e final - A raspa do tacho

 

Depois de um bairro muçulmano, uma muralha circundando a cidade e milhares de guerreiros de terracota, fecho a série sobre Xi'an com um punhado de fotos que sobraram.


 
No bairro muçulmano tem nozes, amêndoas, amendoins e todos os tipos de "nuts" que você imaginar. 

 
Outro lanchinho muito típico é esse potinho com pedaços de melancia. Apenas R$ 0,25! 

 
Saúde é o que interessa... isssssaaa!! 

 
Volta no tempo I: estátuas romanescas no meio das ruas de Xi'an. 

 
Volta no tempo II: no caminho para o Exército de Terracota, vejo uma pirâmide e uma esfinge deslocadas no tempo e no espaço. 

 
Volta no tempo III: enquanto a chinesinha faz pose pra foto, o cinema exibe... "Pearl Harbor"?! 

 
Olha o nome da marca de vestidos de noiva. Dá até pra imaginar a propaganda: "Quer casar comigo?..." 

 
Cachorro chinês sabe das coisas: se for simpático, escapa de virar churrasco. 

 
Não podia faltar a tradicional plaquinha em "chinglish". Essa aí, em "portuchinês", seria algo como: "A Proibição De Descer Uma Bicicleta Em Declive". 

 
Pintor que se preza pinta com texugo. 

04/08/2010

Xi'an, parte 5 – A muralha da cidade

 

Quem conhece Belo Horizonte fatalmente já passou pela Avenida do Contorno. O nome é auto-explicativo: ao longo dos seus 12 quilômetros (valeu, Google Maps), a Contorno circunda toda a região central de BH, dividindo o trecho cuidadosamente desenhado e planejado da parte caótica e imensamente maior, que cresceu desordenada depois da fundação da cidade. 

A muralha que separa a Xi'an histórica da metrópole erguida ao seu redor nem imagina a semelhança que guarda com a avenida belo-horizontina. Mas, assim como andarilhos bem dispostos podem sair e chegar ao mesmo ponto da Contorno apenas seguindo em frente, a muralha de Xi'an permite um passeio ao longo de seus 14 quilômetros partindo e terminando no mesmo local de origem. 

 

A Contorno é uma pirralha baixinha perto de sua prima distante chinesa: a muralha de Xi'an foi construída em 1370, durante a dinastia Ming, e tem uma altura de 12 metros. É a mais bem preservada muralha urbana da China. (Não confundir com a Grande Muralha da China, que é outra coisa.) Antigamente feita para proteger os habitantes e escorraçar os invasores, hoje é óbvia e exclusivamente turística. Pode-se subir a partir de um dos vários portões espalhados pela cidade, mas o mais imponente é o Portão Sul, convenientemente localizado a poucos metros do albergue onde fiquei. 

 
A muralha de Xi'an: é, literalmente, de perder de vista. 

Os animados podem caminhar todos os quatorze quilômetros ou alugar uma bicicleta. Preguiçosos com dinheiro no bolso têm a opção de um carrinho de golfe, que leva os turistas por uma volta completa. Quem quiser só passear pode subir, observar o constraste entre as construções antigas do lado de cá e os prédios modernosos do lado de lá, andar um pouco e descer. Admirar o pôr-do-sol é outra possibilidade, mas só para os sortudos – todo entardecer que passei em Xi'an estava nublado ou chovendo. 

De toda forma, lugar alto é sempre bom pra observar a vida passando lá embaixo: a confusão no trânsito, os velhinhos se exercitando de forma amalucada no parque ou até aquela gatinha nua tomando banho de sol, como captado pela indiscreta câmera do Boca de Gafanhoto. 

 

 

Essa barraquinha só vende os itens indispensáveis: chá, café, chá com leite, macarrão com carne, lenço, sombrinha, capa de chuva e... pipa! 


 

Opções para os preguiçosos: carrinho motorizado... 

 

...ou mini-carruagem puxada por chinês. 

 

Casalzinho feliz na bicicleta dupla. 

 

Vai caminhar, vagabundo! 

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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