02/09/2006

The Sixth Nonsense



Cinefilamente falando, Dois Mil e Seis não vem sendo dos melhores pra mim. Minha média de filmes assistidos despenca mês a mês, e se nos anos passados já era ínfima comparada à de quem realmente vê filme a rodo, agora beira o risível.

Fazendo um rápido estudo em minhas reminiscências, posso apontar algumas razões para essa queda. Entre elas: a quantidade de jogos da Copa em horário assistível; a ausência de tardes livres nas minhas férias de julho; o aumento de cinqüenta centavos na locação do DVD lá perdicasa; e os oito devedês de Lost vistos em aproximadamente um mês, que representaram mais de 30 horas de ilha deserta, ocupando o espaço de pelo menos uns quinze filmes iranianos de vanguarda.

A inauguração de um cinema bacana no meu bairro deveria ter aumentado um pouco a média, mas sei lá o que houve, que nem Piratas do Caribe 2 eu vi ainda. E o Indie ainda coincidiu com a semana mais caótica (até agora...) do meu curso inteiro.

Em dezembro de 2005, publiquei por essas bandas um top 10 particular dos longas mais aguardados para 2006. Foram eles:

10. Carros
09. A Dama na Água
08. Piratas do Caribe 2
07. X-Men 3
06. Os Três Patetas
05. O Código Da Vinci
04. Superman Returns
03. V de Vingança
02. Sin City 2
01. Os 300 de Esparta

Seis já foram. E o saldo, felizmente, tem sido positivo. Carros carecia de história e personagens mais carismáticos (carrismáticos?), mas visualmente é supimpa à beça. X-Men 3 tem seus poréns, mas foi bem-sucedido em cruzar tramas paralelas e juntar aquele mundaréu de mutantes, além da coragem de assassinar protagonistas como nunca feito antes em filmes de heróis. V de Vingança superou expectativas e não se curvou ao roliudianismo. Superman Returns gerou controvérsias e deve muito aos filmes originais (Marlon Brando, John Williams), mas ainda é entretenimento de primeira. (Sem contar que ainda vi de graça numa pré-estréia, antes de todo mundo, embora tenha ganhado um supertorcicolo de brinde por sentar na fileira da frente.) Só Código Da Vinci foi o fiascão que a gente já esperava, mas quem se importa?

Esse fim-de-semana estréia mais um da lista, A Dama na Água. Dizem que é do bom, dizem que não presta, o que é de praxe sempre que se lança um longa shyamalânico. Excelente, no sentido cinco estrelas da palavra, não imagino que seja. Acho que a auto-indulgência do cara vai atrapalhar como atrapalhou no desconjuntado A Vila. Mas que o mundo politicorreto de hoje precisa de umas coisas assim meio nonsense de vez em quando, isso precisa.

Top 1 filme mais aguardado para o fim-de-semana:

01. Vôo United 93

22/08/2006

Aniversariante do dia

E os nossos parabéns de hoje vão para o cozinheiro, pintor, tocador de cavaquinho, orquidófilo e pescador André Paio.

Meu comparsa de bagunças, bebedeiras, pescarias, jogos de tênis, aulas de italiano, sushis, Star Treks, futebóis de botão, viagens, idéias, divagações sobre a origem do universo.

A quem devo inspirações e aspirações
e meus futuros cabelos brancos
(não por preocupações ou excesso de stress,
mas porque a danada da genética é implacável!)

Congratulazioni, grande vecchio!

09/08/2006

Morcegando



O próximo filme do Batman vai se chamar "The Dark Knight". Christian Bale, atual encarnação do orelhudo, recentemente comentou a respeito: "Eu simplesmente adoro esse título. Vocês sabem, nada está confirmado ainda, mas eu gosto muito do fato de que não há ‘Batman’ escrito nele."

Devo dizer que concordo inteiramente com Bale. Mas tenho a triste convicção de que, para os distribuidores brasileiros, não bastará uma tradução literal como "O Cavaleiro das Trevas". Vão tratar de preceder o nome do filme com o "Batman" de praxe, sumindo com o ineditismo e tornando a película homônima da clássica HQ "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (que no original é "Batman: The Dark Knight Returns"). E enganando muito bobo por aí, já que a trama do tio Frankie não deve servir nem de inspiração distante para a história do novo longa.

Top 3 melhores títulos de filme de todos os tempos:

> "Enchente: Quem Salvará Nossos Filhos?"
> "Matou a Família e Foi ao Cinema"
> "Meu Primeiro Amor 2"

08/08/2006

Bye bye Brasil



Conversando pelo msn com uma das suecas que conheci em Salvador, resolvo pedir pra ela umas músicas em sua língua materna. Ela me manda um samba. Em sueco. Diz que é dos anos 70 ou 80, e que o cara canta sobre Copacabana. Especifica mais: a canção é sobre Deidre, "uma prostituta ou algo assim". E ainda me traduz um trecho: "se tiver tempo e dinheiro, você vai comprar meu samba". Vá lá, penso eu, esses carnavais não devem mesmo passar uma boa imagem nossa lá fora. Mas eis que a música começa, uma coisa latina pouco sambada, e ouço o cantor entoar uma melodia um tanto familiar. Poucos versos bastam pra que caia a ficha: a música em sueco é uma versão cara-de-pau de "Quem Te Viu, Quem Te Vê" do Chico Buarque!

Não crê? Pois escute a Rádio Biselho ali do lado, é a primeira da lista. E pra você que é fluente no idioma de Greta Garbo, um pedaço da pérola cantada por Cornelis Vreeswijk:

"Mellan Praia de Flamengo
och det fagra Ipanema
finns de rikas heta stränder.
Men dom fattiga i Rio
bor högt över alla andra,
högsta berget bor jag på.
Vinden svalkar, solen bränns.
Där finns sorg som inte känns
- dansa samba med mej.
Ay ay ay ay.
"

06/08/2006

12/07/2006

Os Três Porquinhos de Liverpool



Depois do musical da Chapeuzinho Vermelho usando clássicos da música popular tupiniquim, resolvi partir para projetos broadwayanos mais temáticos. Acho que seria interessante, por exemplo, uma versão de João e Maria com canções dos Titãs. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, diria João à velha bruxa, como desculpa por se alimentar das belas e suculentas paredes de sua casa.

Ou um Romeu e Julieta apenas com composições de Chico Buarque. “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, declararia o jovem Montéquio ao pai de sua amada. “Acorda, amor”, suplicaria Julieta ao ver o corpo inerte de Romeu.

Ou então, se McCartney, Starr e Jackson permitissem, uma releitura da fábula dos Três Porquinhos só com músicas dos Beatles. Lobão reprisaria seu papel de antagonista, como no musical da Chapeuzinho. João Gordo seria um dos suínos, talvez. Para o título, pensei em algo como “Os Três Porquinhos de Liverpool”. Ou simplesmente “Piggies”.

O roteiro poderia ser assim:

Palhaço, o porquinho preguiçoso, descansa tranqüilo em sua casa de palha.

Palhaço: Everybody seems to think I’m lazy. I don’t mind… think they’re crazy! Nothing’s gonna change my world…

Surge o Lobo, caminhando por perto, feliz e bonachão. Quando passa ao lado da casa de palha, fareja no ar um delicioso cheiro de carne de porco.

Palhaço percebe a misteriosa sombra que ronda as redondezas.

Palhaço: Very strange.

O Lobo olha pela janela e abre um largo sorriso.

Lobo: Ah. Look at all the lonely people!

O primeiro impulso de Palhaço, assustado, é levantar correndo.

Palhaço: Help! I need somebody’s help!
Lobo: Cry, baby, cry. Make your mother sigh.

Mas ele nota que gritar não vai adiantar muito, e então tenta demonstrar segurança.

Palhaço (próximo à porta): Listen. Do you want to know a secret? When I’m home, everything seems to be right!
Lobo: Oh yeah? I’ll tell you something. I think you’ll understand.

E, com um mero sopro, o Lobo põe abaixo a casa de palha.

Palhaço: I should have realized a lot of things before. The way things are going, they’re gonna crucify me.

O porquinho só vê um meio de escapar da fúria glutona do Lobo: correr até a casa de seu irmão Palito, mais segura e confiável por ser feita de madeira.

Mas, para seu desespero, ninguém atende quando ele esmurra a porta.

Palhaço (triste): I call your name… but you’re not there…

Ele tenta de novo. Nada.

Palhaço (suplicante): Won’t you please, please help me?

Silêncio. Lucas Paio 2006

Palhaço: Tell me, tell me, tell me the answer!
Lobo (sorrindo enquanto se aproxima): There will be an answer: let it be!

O Lobo está prestes a alcançar Palhaço quando a porta se abre e de dentro da casa surge Palito, que logo coloca o irmão pra dentro. Palhaço ainda tem tempo de olhar pra trás e mostrar a língua pro Lobo.

Palhaço: I get by with a little help from my friends!

O Lobo nem se irrita. Afinal, agora são dois porquinhos em vez de apenas um.

Lobo: It’s getting better all the time...

O instante de sossego na casa de madeira só dura até que o Lobo bata à porta novamente.

Lobo (voz mansa): Believe me when I tell you: I’ll never do you no harm!
Palito: Get back! Get back! Get back to where you once belonged!
Lobo: I said something wrong?

O sopro do Lobo, desta vez, não surte efeito na primeira tentativa. Mas é só ele caprichar no fôlego que a casa de madeira construída por Palito vai ao chão.

Lobo: This happened once before, when I came to your door.
Palito: Such a dirty old man!
Palhaço: With every mistake we must surely be learning…

Sem a proteção das paredes de madeira, a única alternativa para Palito e Palhaço é fugir às pressas.

Palito: You’d better run for your life if you can!
Palhaço: Life is very short and there’s no time!
Lobo (correndo atrás): See how they run!

Movidos pelo desespero, os porquinhos conseguem alguns minutos de vantagem sobre o Lobo. Correr sem rumo, no entanto, não é suficiente.

Palito (irônico): Oh, that magic feeling. Nowhere to go!
Palhaço (tendo uma idéia): There are places I remember.

Momento flashback: Palhaço se divertindo à beça na lama e na sujeira, enquanto Pedrito, envolvido na construção de sua casa, carrega pedras e tijolos.

Palhaço: Won’t you come out to play?
Pedrito: It’s been a hard day’s night, and I’ve been working like a dog.
Palhaço (olhando para as pedras): Boy, you’re gonna carry that weight a long time…
Pedrito: Try to see it my way: only time will tell if I am right or I am wrong.

Termina o flashback. Os porquinhos chegam à casa de Pedrito, essa sim grande e segura, forte e resistente. Pedrito vem atender à porta, solícito.

Pedrito: If there’s anything that you want, if there’s anything I can do…
Palito: Take a good look around you.

E Pedrito vê, no fim do horizonte, o sorridente Lobo que se aproxima.

Pedrito: Yesterday all my troubles seemed so far away…
Palhaço (apreensivo): Would you lock the door?

O Lobo esbanja empolgação.

Lobo: Have you seen the little piggies crawling in the dirt? And for all the little piggies life is getting worse!

Trancados na casa de Pedrito, uns têm medo, outros demonstram confiança.

Palhaço: I’m so tired, I don’t know what to do.
Pedrito: All you can tell you is: brother, you have to wait.
Palhaço: But every now and then I feel so insecure! I’ve got a feeling…
Palito: Don’t you know it’s gonna be alright?
Palhaço: Oh yeah. Alright.

Feliz, embora um pouco cansado da corrida, o Lobo finalmente chega à casa de pedra.

Lobo: The long and winding road that leads to your door...

Ofegante, tenta um sopro poderoso e não acontece nada. Puxa mais ar, infla as bochechas, sopra com toda a força que seus pulmões podem agüentar, e a casa nem treme. Desapontado, ele põe-se a pensar.

Lobo: How can I even try? I can never win…

É aí que ele observa a chaminé que enfeita o telhado da casa de Pedrito, e uma solução tão simples quanto genial desenha-se em sua mente.

Lobo: It took me so long to find out. And I found out.

Pedrito, o mais sagaz dos três, logo percebe o que o Lobo está tentando fazer, e tem uma idéia para surpreendê-lo. Sai da sala e volta pouco depois, arrastando um enorme caldeirão com água fervendo.

Pedrito (sorrindo): Let me tell you how it will be.

Enquanto isso, o Lobo se esgueira pela diminuta chaminé.

Lobo (resmungando sozinho): It’s wonderful to be here. It’s certainly a thrill.

Pedrito pede ajuda aos irmãos para que consigam colocar o caldeirão no lugar da lareira.

Pedrito: All together now! One and one and one is three!

Palito aproveita o momento pra provocar o Lobo.

Palito: Come together, right now, over me!

Não dá outra: o Lobo termina de descer, com raiva, e desaba sobre o caldeirão de água fervente. O fogo que sobe e o calor escaldante queimam-lhe todo, enquanto os porquinhos comemoram às gargalhadas.

Lobo: I can see them laugh at me...

Coberto de queimaduras, o Lobo foge pela porta da frente pra nunca mais voltar, fazendo a alegria dos porquinhos.

Palhaço: I feel fine!
Palito: I feel good, in a special way!
Pedrito: The smiles returning to their faces...

A última visão que eles têm do Lobo é de um animal correndo em disparada, urrando de dor e gritando:

Lobo: I’ve got blisters on my fingers!
Lucas Paio 2006

04/07/2006

02/07/2006

Constantes cosmológicas

Esqueçam o Parreira e sua trupe de celebridades apáticas. A grande e triste questão que importa agora é que, momentaneamente, perdemos nossa fé. Não a fé na ridícula seleção brasileira: essa já tinha ido pras cucuias nos instantes iniciais do jogo contra a Croácia. Falo da fé na profecia da pirâmide. Aquela que previu a vitória brasileira em 2002 e dava como certo o hexa em 2006, mas que, a partir de ontem, provou-se equivocada. Já abordei o assunto num post antigo, mas volto a reproduzir aqui uma imagem ilustrativa:



Tendo como topo o campeonato vencido pela Itália em 1982, a pirâmide funcionava bem para 4 copas, e os campeões de 1986, 1990, 1994 e 2002 correspondiam exatamente aos vencedores em 1978, 1974, 1970 e 1962, respectivamente. A única exceção era a Inglaterra, que ganhou em 1966 e supostamente deveria ter vencido em 1998, quando foi a vez da França. Mas esse "erro" era justificado por uma série de coincidências: Inglaterra e França levantaram o caneco apenas uma vez, jogando em casa, na Europa, numa copa em que uma seleção estreante terminou em terceiro lugar e com o artilheiro do torneio (Eusébio de Portugal em 66, Suker da Croácia em 98).

Agora, no entanto, não há coincidência ou desculpa esfarrapada que relacione o Brasil de 58 com uma seleção diferente. E isso invalida a teoria da pirâmide, certo? Mas é aí que surge a importante pergunta que abre novas e intrigantes possibilidades: e se não for uma pirâmide?

Vamos aos fatos: Deus não joga dados, como disse Einstein. E ciência é assim mesmo, alguém desenvolve um modelo, depois a realidade impõe pequenas modificações, e o modelo vai se alterando e tomando formas cada vez mais próximas de uma versão definitiva.

Pois bem. Sem mais preâmbulos, cá está o meu primeiro modelo pós-pirâmide.


Trata-se de um "M" composto de quatro retas e três vértices (ou pontas). O funcionamento é simples: os países campeões são sempre os mesmos numa mesma linha, exceto quando ocupam os vértices. Assim, eliminamos a uma suposta correspondência entre França e Inglaterra na pirâmide original, que estava mais pra uma falha disfarçada. A Itália de 1982 ocupa o primeiro vértice, a França de 1998 o segundo, e o terceiro (2014) permaneceria como um elemento surpresa, que pode tanto ser a própria Itália quanto uma seleção avulsa emergente.

Ainda de acordo com o "M", a Alemanha vence em casa no domingo que vem. E alguém ainda duvidava disso?

Claro que falo de um modelo em constante desenvolvimento. Inclusive sei de outros pesquisadores que, neste momento, estão trabalhando numa Teoria de Todas as Copas que explique discrepâncias e alinhe cada campeão numa fileira única. Só poderemos tirar a prova aos poucos, a cada quatro anos. Se alguém tiver um Sports Almanac em casa, por favor avise, ajudaria bastante. Enquanto isso, continuamos nos divertindo com nossas constantes cosmológicas.

Considerações finais sobre a derrota patética do Brasil:

1) Melhor que continue como está. "Rumo ao hexa" é feio pra diabo, mas convenhamos: "rumo ao hepta" é pior ainda.
2) O pior de tudo é que não tive tempo de zoar nenhum argentino.
3) Certa mesma estava minha avó, que me ligou ontem antes do jogo e disse ter apostado num bolão que a França venceria por 1 a 0. Uma ligeira intuição, segundo ela...

15/06/2006

ESPECIAL: Copa do Mundo das Terras Imaginárias



Marmelada de banana

O Sítio do Pica-Pau Amarelo, declarado país independente há quase vinte anos, não vem fazendo boa campanha em sua primeira Copa. Depois de amargar uma derrota para a seleção de Thundera, a equipe do Sítio sofreu um desfalque logo nos minutos iniciais da partida contra o País das Maravilhas, quando o atacante Sabugosa, debaixo de sol quente, começou a virar pipoca e precisou ser retirado às pressas do campo.

Em seu lugar entrou o Saci-Pererê. Embora competente nos saltos e cabeceios, o Saci não mostrou a mesma eficácia no ataque, levando tombos homéricos ao tentar seus chutes a gol. O País das Maravilhas acabou vencendo por 3 a 0.

A seleção do Sítio precisa vencer a Latvéria, no domingo, se não quiser voltar pra roça mais cedo.

É o bicho, é o bicho

O capitão da equipe da Terra do Nunca, James Hook, se assustou com a presença da Cuca, mascote do Sítio do Pica-Pau Amarelo, na cerimônia de abertura da Copa. "Pensei que fosse o velho inimigo que me levou a mão”, declarou, recuperando a compostura após sair correndo em desespero pelo gramado. Corre o boato de que "Nana nenê, que a Cuca vem pegar" tornou-se a música favorita de seus companheiros de time.

Quero ser grande

Passam bem os dezoito liliputianos que acabaram no hospital depois da partida Liliput 2 X 1 Ilha Nublar, pisoteados por um chiuaua distraído.

E lá vamos nós!

A Acme Corporation lança hoje mais um comercial da série "Seja multi, seja Acme". Depois do Agente Smith e dos clones de Jango Fett, quem protagoniza o vídeo agora é Multi-Homem, da banda Os Impossíveis. O VT aproveita a Copa do Mundo para divulgar as novas chuteiras da Acme, mostrando um campeonato de futebol em que cada time é formado por 11 cópias do guitarrista.

O comercial foi criado pela Extraordinária Comunicação e estréia em horário nobre, no intervalo de "Comichão e Coçadinha".


"I´m not sheep dog no..."

13/06/2006

ESPECIAL: Copa do Mundo das Terras Imaginárias



Amistoso entre Krypton e Terra do Nunca gera polêmica interplanetária

por Lucas Paio

Falta de organização, fiscalização e espírito esportivo marcaram o amistoso de ontem, quando a seleção anfitriã da Terra do Nunca enfrentou o time do planeta Krypton num jogo vergonhoso e desonesto.

A partida inaugurava o Skull Rock Stadium, especialmente construído para a Copa do Mundo das Terras Imaginárias, e seguia uma certa tradição do mundial: o primeiro amistoso antes do início do torneio é sempre entre o time da casa e um planeta convidado. Na edição passada, por exemplo, os amalucados jogadores de Pepperland perderam de goleada para os frios e racionais alienígenas de Vulcano.

O jogo de ontem começou após o show de abertura da banda Mermaids, que hipnotizou, literalmente, grande parte dos presentes. A seleção da Terra do Nunca entrou logo depois, ovacionada pela torcida. Formada exclusivamente por piratas, a equipe tem sido duramente criticada pelo rigoroso treinamento a que supostamente tem submetido seus atletas. Afogamentos, ataques de tubarões e enforcamentos acidentais vêm sistematicamente eliminando os jogadores que vão mal nos treinos, e, embora a comissão técnica negue qualquer relação entre as mortes e a qualidade futebolística de sua equipe, nem a equipe nem os torcedores negam uma certa satisfação quanto à expressiva melhora nos resultados.

Porém, a imbatível superioridade do time de Krypton se fez notar assim que a partida teve início. Quiliocampeões da Liga Interplanetária, os kryptonianos demonstraram velocidade e habilidade logo no começo do jogo, quando marcaram seu primeiro gol aos três segundos e meio. Embora tecnicamente competentes, os piratas tiveram sérios problemas com a aparente invulnerabilidade dos kryptonianos. Além disso, acredita-se que vários lances importantes foram prejudicados pela visão limitada que proporcionavam os tapa-olhos de alguns dos atletas. Ao fim do primeiro tempo, o desespero tomava conta da seleção da Terra do Nunca: a equipe adversária contabilizava nada menos que incríveis 39 gols no placar.

Depois do intervalo, no entanto, o que se viu foi outra partida. O time de Krypton retornou ao campo completamente apático, fraco, sem energias. Os atacantes Born-El e Leon-El, destaques no primeiro tempo, não conseguiam sequer passar pelo mais franzino dos zagueiros da Terra do Nunca, enquanto o goleiro Taphar-El chegou ao cúmulo de dormir em campo, causando profunda indignação nos torcedores. Placar final: 39 para Krypton, 213 para a Terra do Nunca.

O time convidado só foi salvo de um linchamento graças à perspicácia do árbitro da partida. Desconfiado da inesperada virada da seleção anfitriã, o juiz Joseph Dredd pediu à comissão de arbitragem uma rápida busca pelo estádio, que resultou na descoberta de uma enigmática pedra verde escondida atrás do vaso sanitário do vestiário de Krypton. Suspeita de ser a causa da apatia dos kryptonianos, a pedra foi levada a um laboratório para exames. Espera-se que ainda esta semana o estranho caso de dopping às avessas seja solucionado.

Numa entrevista concedida à imprensa logo após a partida, o capitão da equipe, James Hook, falou sobre a polêmica: “Não, eu não sei nada sobre essa tal pedrinha que acharam na privada dos etês. E mesmo que eu soubesse, qual é o problema? Os caras chegam esbanjando confiança, estufando o peito, chamando a gente de cara-de-pau. Só que ninguém lembra que eles têm visão de raio X, superaudição, essas coisas. E com certeza deviam estar escutando e prestando atenção enquanto a gente repassava nossas táticas antes da partida. Eles podem roubar e a gente não, é isso? Bom, o placar só fez jus à competência de cada time. E quer saber? Quero mais é que se explodam, eles e o planeta deles.

A Ilha da Caveira enfrenta hoje à noite o combinado de Springfield, no último amistoso antes do início da Copa.


O capitão James Hook: orgulho de ser perna-de-pau.

06/06/2006

ESPECIAL: Copa do Mundo das Terras Imaginárias



Seleções começam a chegar à Terra do Nunca

por Lucas Paio

Várias equipes desembarcaram hoje na longínqua e imutável Terra do Nunca, onde tem início em poucos dias a Copa do Mundo das Terras Imaginárias. Será a centésima nona edição da competição, que traz esse ano 32 seleções, oito a mais que o último torneio, sediado em Pepperland.

Milhares de torcedores dos cantos mais insólitos do planeta são esperados na ilha. O local recebeu consideráveis melhorias em sua infra-estrutura, incluindo a construção de um moderno estádio no alto da Pedra da Caveira e um reforço no policiamento para conter um possível aumento no tráfico ilegal de pó-de-pirlimpimpim.

O retorno dos reis
A equipe da Terra-média, atual campeã do mundo, foi recebida hoje de manhã por uma torcida fanática e fervorosa. O elfo Círdan Linwëlin, atacante do Rivendell e principal estrela da seleção, foi o maior alvo das câmeras e microfones e demonstrou confiança quanto aos jogos da primeira fase. “Estamos tranqüilos. Shadaloo e Nárnia podem oferecer algum desafio, mas nossas mentes estão voltadas mesmo às oitavas-de-finais, quando podemos enfrentar o perigoso time do País das Maravilhas”.

Em meio aos elfos, anões, humanos e hobbits que habitualmente integram a seleção da Terra-média, uma novidade: esta Copa marca a primeira participação de um orc em mundiais. O zagueiro Gazat-matûrz, do Mordor Maniacs, representa um importante passo na luta contra o preconceito e o racismo, apontados como a principal causa de guerras internas em seu país. Gazat-matûrz parece contente com a atenção que vem recebendo da imprensa. “Orghgh rrgahahr roghharrgh”, declarou hoje, em entrevista coletiva.

A série de amistosos que precede a Copa começa nesta quarta-feira, quando a anfitriã Terra do Nunca enfrenta os alienígenas do planeta Krypton. Na quinta a Terra-média poderá mostrar um pouco de seu tão falado futebol no amistoso contra o combinado de Patópolis.


Segunda estrela à direita e reto até o amanhecer: Pedra da Caveira é
palco do Skull Rock Stadium, mais moderno estádio da Terra do Nunca.


04/06/2006

De gol em gol, com direito a replay



Resolvi comprar um guia da Copa, daqueles que nos abastecem com utilíssimas tabelas de jogos, insólitas curiosidades dos torneios anteriores e os tradicionais comentários e expectativas sobre cada seleção. Afinal, como dizer que faltarei ao trabalho porque tenho cidadania de Trinidad e Tobago e preciso porque preciso assistir também aos jogos da grande potência caribenha, se não sei nem que seu maior destaque é Dwight Yorke e joga no time australiano de Sydney?

A diversidade na seção de revistas da livraria impressionava. Os preços iam de R$3,50 a R$11,90, e o conteúdo acompanhava a variação: enquanto o guia oficial da Fifa, o guia da Placar e o especial da Veja eram repletos de entrevistas, notícias e diagramação arrojada, a revistinha de R$3,50 parecia visar mais o público de uma Contigo, com o Kaká na capa e as várias páginas dedicadas aos adesivos do Brasil.

Escolhi o melhor custo/benefício: por R$4,50 não pude ter acesso a notícias de última hora ou designs fora do usual, mas levei pra casa informações preciosas como o ranking da Fifa (205 seleções, do Brasil à Samoa Estadounidense) e o resultado de todos os jogos de todas as competições anteriores, ao melhor estilo Sports Almanac. Onde mais eu poderia encontrar a lista com todas as partidas de Copas do Mundo que Belo Horizonte já sediou?

(Não é lá uma lista muito extensa:

25/06/1950 (Independência) – Iugoslávia 3 x 0 Suíça
29/06/1950 (Mineirão) – Estados Unidos 1 x 0 Inglaterra
02/07/1950 (Mineirão) – Uruguai 8 x 0 Bolívia)

Os comentários sobre cada time também são de grande valia e dão uma idéia do que podemos esperar de alguns de nossos temíveis adversários. Por exemplo:


Austrália
A maior motivação para o mundial de 2006 para os australianos é marcarem o primeiro gol do país na competição – pois em 1974 o ataque passou em branco.


Togo
Pelo que vem demonstrando em campo, a equipe deverá ir a passeio para a Alemanha, com um elenco fraco e raros destaques.


Trinidad e TobagoA seleção, estreante em mundiais, vai à Copa para aprender e não tem maiores pretensões – sequer de passar para as oitavas-de-final.

É. Talvez seja melhor mudar minha dupla cidadania. Quem sabe Gana?

03/06/2006

Taça na raça


Finalmente consegui minha camisa do tetra.

Não que fosse um sonho de consumo: o objetivo que tinha ao sair de casa hoje era trocar minhas cinco tampinhas de Guaraná (junto com uma quantia irrisória de apenas nove e noventa!) não pela celebração da mira sofrível de Baggio, mas pela saudosa camisa da copa de 70, com suas três estrelinhas flutuando sobre o escudo da CBD. Só não imaginava que a promoção fosse bombar tanto assim.

Pros alheios aos trocentos panfletos e propagandas de tevê, funciona assim: você compra um punhado de guaranás, empurra o troça goela abaixo da família toda, mesmo que queiram coca, e depois troca as tampinhas e a nota de dez por uma das cinco camisas disponíveis nos postos de troca, cada qual homenageando uma das Copas do Mundo em que a seleção canarinho sagrou-se campeã.

Assim, temos a camisa branca com gola pólo azul de 58, a camisa verde com gola amarela de 62, a supracitada amarelinha do tri, a supramostrada azulzinha do tetra, e a de 2002, a mais sem graça, já que é a atual e se acha em qualquer shopping oi. Geralmente, é a que vem em maior quantidade, e sempre sobra no final.

Ontem passei no Super Nosso munido das tampinhas, mas já era noite e tava tudo esgotado. Tudo bem, planejei, amanhã chego cedo e garanto a minha. Eis que chego hoje com minha mãe e me deparo com uma fila aterradora de quase trinta pessoas, algumas marcando presença na fila desde as oito da manhã, e isso que já eram 11h.

Tinha de tudo: senhores que lembravam vividamente de 58, pais de família atendendo aos pedidos dos filhos, ex-alunos da minha mãe (qualquer lugar que vai ela encontra um ex-aluno) e até um sargento de polícia, que disse uma coisa bem provável: além da incompetência da Antarctica, que não faz camisetas suficientes para suprir a demanda, muito desse esgotamento rápido se deve às pessoas que pegam um monte de camisas pra vender depois que a promoção acabar. A quantidade de gente pegando cinco, seis, dez camisas era enorme e fez o estoque acabar em uma hora, e quem se beneficia é só o mercado negro-verde-amarelo.

Vá lá, a promoção ainda dura mais uns dias, quem sabe consigo lembrancinhas de 70, quiçá de 58 e 62. (2002 está fora de cogitação, eita treco besta.)

A copa de 94 foi a que mais curti. Tinha nove anos de idade e da anterior, além de ser um fiasco para os brasileiros, só me restou um flash na memória. Já de USA 94 lembro dos jogos, de onde assisti cada jogo, dos placares, do soco de Leonardo em Tab Ramos que lhe valeu um cartão vermelho, da promoção do Faustão durante o show do intervalo, das inúmeras tabelas que eu mantinha e atualizava a cada partida, do dopping do Maradona, do cabelo do Valderrama. Não só faço parte da comunidade "Eu tinha o álbum da copa de 94" como ainda tenho o dito cujo cá em casa, completo (admito, pedi as que faltavam pelo correio), rabiscado e gordo, já que o álbum foi um dos últimos remanescentes da era pré-auto-colantes, e precisávamos gastar nossas Pritts e Cascolares lambuzando figurinha por figurinha.


Da época em que Dahlin e Klinsmann eram os craques do momento e a comemoração que bombava era o nana-nenê do Bebeto

23/05/2006

Salve Salvador! Parte II

Fitas & fittas - Faz o primeiro pedido. Pronto? Agora faz o segundo. Pronto? Agora o terceiro. Era vapt vupt, zás-trás, sem chance de recusar. Mal pusemos os pés nas pedregosas ruas do Pelourinho, debaixo do pé d´água já esperado, e imediatamente fomos abordados por quatro vendedores de penduricalhos. Todo lugar era a mesma marcação cerrada, amigo, amigo, um colar de presente pra você, agora leva esse aqui baratinho, mas no Pelourinho viramos alvo preferido da galera, com essa nossa cara de tudo menos de baiano. E assim, sem que sequer pudéssemos matutar melhor acerca dos famosos três pedidos, vimos nossos pulsos receberem coloridas fitinhas do Senhor do Bonfim. Duas semanas depois, a minha permanece atada ao meu braço. Decidi deixar pra ver quando é que apodrece. As perspectivas não são animadoras: andei fuçando orkut afora em comunidades como “eu uso fitinha do Bonfim!”, e, pelo que pude averiguar, a vida média desses pedaços de pano costuma ultrapassar dois anos. Bom, pelo menos foi de graça... (como se doesse o bolso levar 14 por um real) ¡Ola amigos! Constatação da viagem: mineiros são gringos em terra de baianos. Tudo bem, era óbvio que por baiano a gente não ia conseguir passar mesmo, branquelos daquele jeito, curtindo praia na chuva, entrando no mar aos pulos desengonçados. Agora... espanhóis? Sim, eles achavam que éramos espanhóis. De início achamos que fosse apenas por causa do Leandro, de cabelo arrepiado e usando a camisa do Barcelona. “Ronaldinho, cuando vienes rogar aqui en el Brassil?”, zoavam os moleques. Mas quando, sozinho, recebi um “Buenas tardes” de um vendedor, é que percebi o quanto parecíamos deslocados. Às vezes a gente entrava no clima: - Amigo! Tienes un cigarete? - No tengo, no tengo! Noutras, principalmente na hora de pechinchar, fazíamos questão de afirmar nossa brasilidade. Dependendo do choro, o preço pra brasileiro podia chegar a um quarto do valor pros gringos. Teve um vendedor engraçado que nos viu de longe e já veio portunholizando pra cima da gente. - Pó falar português, aqui é tudo brasileiro – esclarecemos. - Cariocas? - Não, mineiros. - Ah, então desculpa a ofensa. Um velho calção de banho... É bom Passar uma tarde em Itapoã Nadar no mar de Itapoã Cheio de pedra em Itapoã Pisar na lama em Itapoã Passar uma tarde em Itapoã Tomando chuva em Itapoã Roupa enxarcada em Itapoã Pneumonia em Itapoã ? Estou como? Conhecemos duas suecas na nossa última manhã em Salvador, durante o café da manhã no albergue. Mochilavam pelo nosso Brasil varonil: já tinham visitado o Rio de Janeiro, agora passavam pela Bahia e depois continuariam pelo nordeste, subindo para Recife, Natal, aqueles lados. Talvez devessem apenas ter pesquisado mais sobre as estações do ano: andavam injuriadas com aquela chuva toda, ainda mais depois de uma jornada de 29 horas num ônibus da capital carioca à baiana. (Isso de ônibus, pensa o Frejat que declarou que “iria a pé do Rio a Salvador”...) Chamavam-se Sara e Pernilla. Pernilla era sueca típica, loira branquela, mas Sara tinha pele morena e poderia facilmente se fazer passar por baiana, como bem disse um ambulante que tentou nos vender suas quinquilharias. “Bota um colar e dois brincos de côco que ela vira uma baiana big beautiful!”, apontou. Durante as poucas horas em que andamos com elas a pé pelos arredores, visitamos feirinha de artesanato, Museu Náutico da Bahia, praia, aprendemos palavrões, ensinamos outros tantos, e acabamos indo parar num site sueco de viajantes pelo mundo, onde, horas depois, as duas publicaram fotos e relatos da manhã passada com os quatro brasileiros insanos. Você aí que sabe ler sueco, por favor, traduza pra gente. Tá aqui. Tá premiado Algumas premiações que poderiam ter sido distribuídas durante nossa viagem: >> Nome de Rua Mais Adequado: Em todos os nossos trajetos de ônibus pela cidade, mesmo sob os torós torrenciais que já previam os meteorologistas, pegamos engarrafamento uma vez apenas, a caminho do Pelourinho. O nome do lugar: Rua da Paciência. >> Meio de Transporte Mais Barato: Sem dúvida o Elevador Lacerda, notória construção que liga o Pelô à Cidade Baixa, e que custa a módica bagatela de 5 centavos. Agora, vai arranjar 5 centavos trocadim assim... >> Situação Mais Improvável: Uma sueca passando frio em Salvador. Tudo bem, estava chovendo e ela tinha acabado de sair do morno mar direto pro vento gelado, mas ainda assim, pensa só: é uma sueca passando frio em Salvador. Não é avulso? >> Prêmio “Não Entendi”. Eu e Leandro no Aeroclube, numa barraquinha de comida baiana: “Moça, tem cuscus?” Seguem-se gargalhadas, dela e dos dois que a acompanhavam. “Por que a risada?”, queremos saber. “Aqui é só comida baiana, gente...”, respondem. Ficamos sem entender. Afinal, não era a música dos Novos Baianos que dizia: “Vai entrar no cuscus, acarajé e abará”? >> Prêmio Poliglota Troglodita: Vai para um dos nossos amigos, confundindo os idiomas e comentando alto perto das suecas: “I want to fuck her”. >> Preço de Cardápio Mais Sem Nexo: Uma barraquinha na Praia de Jaguaribe, na qual a vodka Natasha custava dois reais e a Smirnoff dois e cinqüenta. Uma Smirnoff de Assunção, provavelmente. >> Top 3 Formatos de Orelhão 3 - Côco verde (com canudinho). 2 - Farol da Barra. 1 - Berimbau.

11/05/2006

Salve Salvador! Parte I



Fim de semana em Salvadô, assim de bobeira, sem motivo aparente. Na verdade, a força que me impulsionou pra lá com mais três amigos foi aquela promoção da Gol: passagem aérea por 50 reais. Só pra constar, a passagem de ônibus pra Salvador custa o triplo (e indubitavelmente demanda mais tempo de transporte que uma hora e vinte). Resolvemos então passar uns 3 dias por lá, saindo sexta à noite e voltando na segunda à tarde, enforcando um dia de estudo e trabalho.

Muita coisa havia pra dar errado: reservamos um albergue às escuras, pela internet; não sabíamos qual seria nosso meio de transporte por lá; não conhecíamos lhufas da cidade; e a previsão climática, tanto nos weather channels quanto nos guias turísticos, era de chuva sem trégua.

No final das contas, o albergue era bacana e tinha até café da manhã, locomovemo-nos tranqüilos pela rede ônibus da cidade (mesmo que às vezes demorássemos uma hora e meia pra chegar à praia) e conseguimos nos guiar tão-somente pelas indicações dos nativos.

Já a chuva...

Causos do aeroporto

Aeroporto de Confins. Dezenas de adolescentes vestidos com uma camisa escrito "I Love Marina" urram e batem palmas pra qualquer passageiro que sai da área de desembarque, aguardando a hora de saudarem a amiga que vai chegar. Um desses festeiros aparece perto da gente com apitos na boca e poodle na mão, e nos explica que a tal Marina passou 8 meses no Canadá. Um comentário surge no ar: normalmente esse pessoal que faz intercâmbio volta meio acima do peso, né? Estamos nessa quando uma garota ultra-gorda desembarca e nosso amigo Fabel comenta com o cara: "Putz, essa aí deve ter ficado é oito anos no Canadá!"... Ele ri meio triste: "Essa é a Marina...", e vai embora cumprimentar a amiga.

Apertem os cintos...

Passagem de avião, 50 reais. Taxa de embarque, 20 reais. Sentar do lado do Adriano, que nunca tinha viajado de avião comercial na vida: não tem preço.

Começou com a negação: “Não, tô com medo não, quê isso”, muito embora tremesse um pouco e tivesse as mãos geladas. Depois veio a crise de risos nervosos, quando o avião começou a andar. O ápice foi na breve parada antes da decolagem: ele bateu no peito estufado repetidas vezes como um king kong e bradou aos céus e a todos que por ventura estivessem ouvindo (e todos no avião estavam realmente ouvindo): “Vem! Vem que eu não tenho medo! Pode vir! Vem!”. Logo que o bichão saiu do chão, ele calou-se e permaneceu imóvel e boquiaberto como uma criança assustada, até que sentisse estabilidade sob seus pés.

Depois pediu pra aeromoça pra visitar a cabine do piloto. E eu ainda fui com ele.

Top 5 alimentação na Bahia

>> Pititinga. Pequeno peixinho servido em porções, presença constante nos quiosques e bares. Era no preço dele que nos baseávamos na hora de escolher entre uma barraca e outra, quando a cerveja em ambas custava a mesma coisa.

>> Suco de umbu. Tinha sempre no café da manhã do albergue, cheguei a tomar três copos no último dia. Já dizia o ditado: como pode umbu ser tão gostoso?

>> Sorvete de jenipapo. Tenho a filosofia de sempre experimentar os mais exóticos sabores nas sorveterias. Incontáveis eram as opções no Aeroclube: mangaba, umbu, jenipapo. Resolvemos por um pedaço de jenipapo, mas não ficamos engasgados, nem com dor no papo.

>> Acarajé. Famoso bolinho frito de feijão fradinho, com vatapá (camarão em formato cremoso), salada (leia-se: tomate verde), camarão seco e pimenta (danger alert!!). Comemos um na porta do Mercado Modelo e outro no aeroporto, mas nesse último esqueci de especificar a quantidade de pimenta. Nem consegui terminar o diabo. Nosso amigo Léo, traumatizado com as alterações intestinais que lhe foram provocadas pelo primeiro, preferiu evitar essa segunda rodada.

>> Goiabinha do avião. Pelo preço da passagem, eu imaginava que fôssemos remando no porão da nave. E quando vi de longe, achei que a aeromoça nos trazia barrinhas de cereal sem-graça. Portanto, tive as expectativas duplamente superadas, o que torna a goiabinha digna de figurar nesse top 5.

Top 5 erros grotescos em cardápios ou placas

>> Baycon (ou sua variação: baicon).

>> Strogonoft.

>> Chatrobian.

>> Feijão furadinho.

>> Calças infantins.

Top 3 trocadilhos em peças publicitárias

>> Campanha na rua: “Acidente de moto? Não caia nessa.”

>> Cartaz de restaurante: “Quem tem boca vai ao Ramma”.

>> Outdoor de gráfica: “A melhor CÓPIA DO MUNDO É NOSSA” (cores verdes e amarelas pra ressaltar a sacada genial).

Confira em breve a parte II, com as chuvosas aventuras no Pelourinho, nossa não menos chuvosa tarde em Itapoã e a certeza de que mineiros são gringos numa terra de baianos.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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