08/11/2007

Great Scott

É sempre legal comparar previsões futurísticas com o que de fato aconteceu. Por exemplo: a tecnologia ainda não nos proporcionou um HAL 9000 como o de 2001, mas de acordo com De Volta Para o Futuro II, daqui a oito anos teremos skates voadores. Tenho uma Super Interessante aqui em casa que traz previsões até 2100. É uma revista legal de guardar, se eu um dia achá-la no meio da bagunça.

O recente "Future Files - A History of the Next 50 Years", livro que (acho) ainda não tem versão em português, traça e esmiúça previsões para o mundo e a humanidade nas próximas cinco décadas. A linha do tempo abaixo, que anda circulando pela internet, é um resumão dessa bola de cristal e mostra a data de extinção (ou o momento em que a existência se torna insignificante) de diversas coisas que hoje fazem parte da nossa vida, como Windows, Google, recepcionistas, rádio FM e dor.



Segundo o gráfico, estamos pertos da queda de George Bush II e do desuso das cartas manuscritas. Na década que vem, testemunharemos o fim do e-mail, da assinatura de jornais, dos aparelhos de fax, do mouse, da aposentadoria e do conceito de ficar perdido.

As previsões para os anos seguintes são ainda mais curiosas.

Em 2023, não teremos WEB 2.0 nem fins-de-semana sem trabalho.

Em 2030, tchau para a infância, as chaves e a Grande Barreira de Corais.

Em 2035 desaparecem a Microsoft, o Mar Aral, a classe média e a cultura aborígene.

Em 2040, paz e tranqüilidade já são parte do passado, assim como as emissões de carbono, a surdez, as carteiras e, finalmente, as gravatas (já era hora!).

Em 2050 morrem os últimos sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, pouco após o Google e os jornais não-virtuais.

A linha do tempo cobre até a década de 2050, onde veremos os inusitados fins da feiúra, da morte e das listas de previsões. O próprio gráfico nos avisa para não levar as datas muito a sério, mas dá vontade de pregar num quadro e ir acompanhando ano a ano, marcando se os anúncios estáticos realmente sumiram em 2019 ou se o parto normal é mesmo fora de moda em 2037.

Quanto à segunda metade do século XXI, não é difícil imaginar alguns acontecimentos marcantes:

2073: Primeiro ser humano nascido em Marte
2080: Primeira estação de teletransporte em Belo Horizonte
2084: Fim da construção da Sagrada Família
2091: Último capítulo de Malhação
2097: Morte de Dercy Gonçalves

06/11/2007

Do Rio até Belô



Dez horas, tá na hora. Cadê os italianos? A gente precisa deixar algum contato com eles. (Os caras eram peças raras pra caramba e ainda estarão em Buenos Aires em dezembro, quando o Thales também estará.) Não tão no terraço, não tão no quarto deles. Vamos deixar um bilhete aqui na recepção. Ah, olha o Umberto aí. A gente passa os e-mails, despedimos com ciao e adiós, mochila nas costas e bora pra estação do metrô. Dez e quinze. O Thales bota a mão no bolso e: velho, acho que perdi a carteira. (E isso que ele já tinha perdido o celular no mesmo dia.) Fico na estação com as mochilas enquanto ele corre no albergue pra tentar achar. Dez e vinte e cinco, ele volta, com a carteira. Tava com os suecos do bar, que tinham encontrado em cima do balcão. Passamos a roleta do metrô, apressamos o passo sobre a esteira rolante, aguardamos o trem. Dez e trinta e cinco e nada. Chega o bichão, subimos a bordo, e na primeira parada (Ixtação Flamengo) as portas abrem e não se fecham. Fecha, porta, fecha, porta. Quinze minutos depois (nas nossas cabeças, na verdade foram no máximo dois) o troço volta a andar. Dez e quarenta e cinco, saímos da estação e rumamos ao ponto de ônibus para esperar o integração que nos levaria à rodoviária. Dez e cinqüenta, nada de ônibus. Se bobear a gente vai ter que pegar táxi, velho. É, vamos esperar mais uns cinco minutos e a gente vê. Cinco minutos depois, nada de ônibus. Cara, mesmo se esse ônibus chegar, não vamos conseguir chegar a tempo na rodoviária. Beleza, vamos de táxi. Os quatro primeiros que aparecem estão cheios. O quinto pára e nos deixa na rodoviária. O tempo que ele gasta nos faz perceber que realmente não conseguiríamos nunca, domingo, à noite, de ônibus, chegar a tempo. Na ida para a plataforma, ajudo uma senhora portuguesa a carregar sua mala rampa abaixo. Ela lá falando: sou portuguesa, mas tem quinze anos que moro no Brasil, tô indo hoje pra Belo Horizonte, e eu só pensava: não é possível, essa mulher tá levando chumbo na mala. Onze e doze, entramos no ônibus que sairia às onze e quinze e a tensão dos últimos sessenta minutos enfim se alivia. O Dramin me faz dormir um pouco mas a cadeira da frente não permite espaço algum às minhas pernas, o que torna as próximas sete horas um tanto desconfortáveis, mas sem maiores percalços.

Já em Beagá, minha avó me liga e descubro, chocado, o que aconteceu com o ônibus da Util que partiu logo após o nosso.

04/11/2007

Minha alma canta



Demorou um café da manhã, um açaí, um prato de comida e um mergulho no mar para que meu corpo pudesse novamente suportar uma cerveja. À noite consegui agüentar até uma caipirinha no Clandestino's Bar, que fica aqui do lado do albergue, assistindo a um DJ tocar. Isso aí, um DJ tocando. Normalmente tenho uma certa preguiça de música eletrônica e dos muitos que se dizem DJs mas só apertam plays e arranham vinis. Mas esse cara era foda. Fazia a mixagem na hora, tocando teclado e dedilhando suas geringonças modernas. Estava ainda acompanhado de umas moças cantando e um VJ que juntava imagens bizarras previamente selecionadas com vídeos ao vivo, do próprio bar, culminando num remix audiovisual malucão dos diálogos de "Tropa de Elite".

O fim-de-semana também tem sido cultural. Visitamos o Museu da República, que funciona no Palácio do Catete e conta com as escadarias onde os presidentes desciam acenando, as mesas onde davam seus banquetes e o quarto onde Getúlio se matou, inclusive com o pijama perfurado e o revólver com que rumou à eternidade. Também demos um pulo ao Maracanã vazio, com direito a visita (ainda que restrita) aos vestiários, à tribuna de honra e ao verde tapete da realeza. Agora, enquanto o Thales assiste em algum barzinho aqui perto o jogo do Botafogo, eu volto à Babel que está esse albergue, com italianos falando espanhol, israelenses falando inglês e criancinhas peraltas que só falam "ça va". Au revoir.

03/11/2007

O Rio de Janeiro Fevereiro Março



Achamos que seria fácil assistir à estréia do Brasil na Copa do Mundo de Beach Soccer, que acontece na areia de Copacabana e tem entrada franca. Afinal, quantos animariam ver o Brasil jogando contra as Ilhas Salomão? Muita gente, na verdade. Milhares estavam sob o sol escaldante, berrando os gritos de torcida, e a fila do lado de fora atingia meio quilômetro. Preferimos evitar a muvuca e fomos tomar um chopp sob a sombra, num restaurante que tinha um cardápio fantástico. "Contra-filé" estava traduzido como "against-filet". A versão em inglês de "Camarão à Paulista" era "shrimp to the inhabitants from São Paulo".

Depois de uma tarde dedicada a petiscos, chopps e andanças pela orla, cruzamos com um bando de jovens zumbis na Avenida Atlântica, ali perto do Copacabana Palace. Um grupo enorme de pessoas com estacas cravadas no peito, cicatrizes horrendas e sangue por todo lado. Ficou o mistério: seria comemoração de Finados? Protesto contra a precariedade da saúde pública? Fui encontrar a resposta só no orkut mesmo. Na volta para o albergue, o calor desértico e os pastéis de siri e de camarão que eu havia comido mais cedo começaram a fazer efeito. Resultado: enquanto a galera do albergue se divertir num barbecue noturno com a gringaida, passei mal a noite inteira.

02/11/2007

Scream for me Rio



Dia de Los Muertos, 8h40.

Depois de seis horas maldormidas da rodoviária belo-horizontina à carioca, desci do ônibus da Util com um certo frio, mas era só o ar-condicionado. O tempo lá fora estava como está agora: abafado, com chuvas poucas, sol querendo aparecer. Segui o guia prático que o Thales postou no blog dele e cheguei ao albergue com relativa facilidade, vendo da janela a sórdida Zona Portuária, a imponência dos prédios do centro, o Cristo lá de cima escondendo a cara entre as nuvens. Fiz o check-in, tomei um banho, liguei pra casa, andei a esmo pela rua, desviei dos pombos na areia de Copacabana e o Thales continua dormindo. O café da manhã só começa daqui a uns quinze minutos, mas acho que vou lá acordar ele.

25/10/2007

Filma eu Galvão

Então o Brasil vai mesmo sediar a Copa de 2014. Preparem-se para uma horda de hooligans enraivecidos depredando a Savassi. O que é o menor dos nossos problemas: primeiro tem que ver se a gente consegue acertar a segurança, os estádios, os hospitais, as estradas, os aeroportos, o atendimento nos botecos.

A lista de exigências da Fifa é imensa. Vai desde o número de hotéis que abrigarão as dinamarquesas loiras com tara especial pelos belo-horizontinos até o preparo para emergências do porte do grande cataclisma da Praça da Liberdade. O Canadá já tá como suplente para o caso de dar merda. Mas boto fé que a coisa anda. Se existe uma motivação para fazer as coisas direito por essas bandas, é o futebol. E, embora seja improvável que implantem o teletransporte a preços populares em seis ou sete anos, só de ter estradas menos vergonhosas já faz alguma diferença.

Interessante é notar que a sede da Mundial, de uns tempos pra cá, tem se alternado entre países com certa tradição em Copas do Mundo (Itália, França, Alemanha, Brasil) com outros que geralmente são meio pífios (Estados Unidos, Coréia do Sul, Japão, África do Sul). Se for esse o critério, torço ferrenhamente por um Trinidad e Tobago 2018.


Só essa logo que não precisava ser tão feia.

24/10/2007

minusculamente

ultimamente tem me agradado a escrita sem maiúsculas. põe-se o ponto e a frase à frente, que de praxe começaria com letra grande e ostentatória, traz no lugar a caixa-baixa característica do miolo de um texto. tudo tem o mesmo peso, ninguém se sobressai. a vantagem principal é atrapalhar a vida do leitor. mas não se trata de escrita escrota por sadismo puro e simples. a intenção é nobre: fazer com que o leitor preste atenção ao texto e suas minúcias, evitando o hábito pós-moderno de escanear visualmente as informações e montar um panorama desmembrado e esquecível do que leu. ele pode ficar seriamente tentado a abandonar o barco antes do final, mas paciência. nos blocos de letrinhas de igual tamanho as datas vêm por extenso, as siglas surgem pequenas, os gritos soam mais brandos. é o socialismo alfabético.

23/10/2007

A Saga de Tião



Eu tava esperando juntar um número bão de capítulos antes de divulgar, e agora, que já tem uns oito ou nove, me parece um bom momento.

Então divulgo. Meu comparsa Daniel de Pinho e eu estamos escrevendo uma história seriada chamada A Saga de Tião. As regras são:

1) Cada capítulo deve terminar com uma frase avulsa, desconexa, que deve ser encaixada de alguma forma no capítulo seguinte (sim, igual ao concurso literário da piauí).

2) Os capítulo deverão conter o nome de alguma celebridade, para alavancar a visita de internautas perdidos que encontrem o blog pelo Google.

Alguns estranharão que uma história chamada "A Saga de Tião" se passe na Ucrânia com um protagonista chamado Vladimir, mas a gente chega lá. Ainda tem muita vodka pra rolar.

22/10/2007

Mirela



A revista piauí tem um concurso literário que consiste numa frase avulsa, sem sentido, que deve ser encaixada num texto com pé, cabeça, tronco e membros. A frase deste mês era: "Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio". Eis o meu texto, que também está aqui:

Mirela

Seu azar foi nascer em família de instrumentistas. Não é que ela odiasse música. Gostava, assim como se gosta de algodão doce no parque, de vez em quando. Mas não tinha jeito nenhum pra tocar. O violão que exalava melodia nos dedos da irmã virava giz em quadro negro se ela punha a mão. A gaita que o pai tocava com classe fazia o cachorro avançar nas visitas quando ela bafejava nas palhetas. “Você não precisa tocar um instrumento só porque a gente toca”, diziam os parentes, sinceros. Mirela encarava como provocação e seguia surrando canções.

Um dia ela se encheu.

Declarou-se vencida e não tardou a tomar birra de qualquer um que tivesse a petulância de produzir som na sua frente. Mais ou menos como aquela tia encalhada que passa a ter raiva dos casais apaixonados. Foi morar sozinha numa casa silenciosa, com caixas de ovo nas paredes servindo de isolamento acústico, de modo que nem a cantoria matinal do amolador de facas a incomodava mais.

Nas festas de família, ainda sofria. Tinha que aturar os sobrinhos batucando Villa-Lobos nas louças do jantar, o tio arrotando o bolero de Ravel, o papagaio imitando o vozeirão do Sílvio Caldas. Às vezes ela explodia numa raiva seca sem fundamento, como no dia em que interrompeu o parabéns de seu próprio aniversário berrando impropérios para os convidados.

O tempo transformou a ojeriza em fobia e Mirela virou uma moça amarga, que desprezava serenatas de amor e punha cera no ouvido durante o Carnaval. Chegou à maturidade solteira, sozinha e, para seu desespero, com o dever moral de abrigar a mãe recém-enviuvada. Foi a sua ruína. Dona Lalá passava o dia dedilhando cravos, soprando fagotes, martelando xilofones, praticando acordes e glissandos. Se a filha resmungava, devolvia: “Me recuso a renunciar da arte por causa de uma cisma estúpida”.

Foi ouvindo a mãe tocar pela décima terceira vez uma mesma fuga de Paganini numa mesma terça-feira chuvosa que Mirela tomou a decisão. O bilhete de despedida foi rabiscado no canto de uma partitura: “Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio. Cheia de colcheias, ponho fim a essa existência diminuta”. Amarrou no ventilador de teto a corda do violoncelo de dona Lalá, laçou o pescoço e saltou do banquinho do piano. No instante seguinte ouviu a vibração primorosa que escapuliu da corda e para sua própria surpresa pensou, maravilhada: um mi bemol perfeito, e eu mesma produzi. Mas aí já nem adiantava.

10/10/2007

No traço de outrém

Aproveitando que tô com um scanner aqui em casa (e funcionando!), inicio uma sessão nostalgia com papéis, desenhos, fotos, quadrinhos e oitras cousas do meu passado.

O primeiro post é dedicado à coletânea de desenhos feitos por amigos e colegas com base em minha pessoa.



Wanted dead or alive: Thiago Tartaglia, que estudou comigo nos idos da sétima série, foi o autor deste desenho em algum momento de 1998.



Cabeludo na sala de aula, fevereiro ou março de 2005. Quem fez foi o Edson Jr, então colega de classe, que é desenhista do Hoje em Dia.



Mostramos com gosto. Esse é do Bernardo Silveira, que desenhou todos os nove integrantes da Língua, saudosa agência experimental que montamos no segundo semestre de 2006.



Pensando em nada no trabalho, no traço do Filipe Souza (a.k.a. Souza da Firma), que lavora comigo atualmente. Ele tá prometendo a versão colorida desde junho de 2007, quando me retratou nesse momento meditativo, mas cansei da enrolação e pus aqui em P&B.

09/10/2007

Mãe, tô na internet!

>> A crítica do Pablo Villaça para Resident Evil 3 traz, em seu primeiro parágrafo, uma frase infame de minha autoria.

>> Uma outra frase que enviei pro Conversas Furtadas foi publicada hoje, embora neste caso o crédito seja todo da minha prima Natália, que proferiu a inocente pérola uns bons onze anos atrás.

06/10/2007

Momento consumidor revoltado

Serviço de Utilidade Pública

Não comprem na Americanas.com. Encomendei um monitor novo pro computador e eles enrolaram tanto com a entrega que preferi cancelar e comprar ao vivo mesmo, em outra loja. Isso foi em maio. Até hoje continuam mandando, mês a mês, a cobrança do monitor cancelado.

Não assinem a Net. Meu pai cancelou TV e internet no começo de julho e o sinal foi interrompido imediatamente. Marcaram de buscar o modem e o decodificador no final de julho mas "o sistema" deles resolveu ficar adiando a data indefinidamente. Acabei enchendo o saco e fui pessoalmente no cudujudas que fica a Net em Beagá pra entregar os equipamentos. Isso foi no meio de agosto. Eis que agora estão cobrando pelo período de um mês e meio que o modem e o decodificador ficaram na casa do meu pai, esperando alguém buscar, com o sinal interrompido.

Adendo final: atendentes de call center são realmente a escória da humanidade.

05/10/2007

Muchos años después



Há tempos eu vinha querendo comprar o Cem Anos de Solidão, mas ficava naquela: já li o livro duas vezes, se eu comprasse agora ia acabar deixando encostado, mas ao mesmo tempo como é que eu o elejo um dos meus prediletos e nem mesmo tenho em casa pra reler uns trechos quando dá na telha?, etc. O dilema se resolveu com a idéia de adquirir o texto no original. Assim, aproveito os 40 anos do Cem Anos para melhorar meus precários conhecimentos da língua de Gabo, que não vão muito além de putamadre e cueca-cuela. Embora eu ainda continue com a convicção de que castelhano é português com sotaque andino, e que qualquer brasileiro minimamente alfabetizado compreende fácil fácil uns 80% de um texto em espanhol. O que acaba gerando uma certa preguiça na hora de aprender de verdade, porque é tudo muito igual, mas ao mesmo tempo diferente, sacumé? Mas com essa nova leitura da extensa e tresloucada saga dos Buendía (junto com um mini-dicionário que comprei por R$ 3,90 hoje na hora do almoço), logo vou poder xingar um argentino com muito mais propriedade.

Outras descobertas idiomáticas recentes:

Ninjawords. Dicionário inglês-inglês que vai direto ao ponto. A proposta é ser rápido como um ninja. Cowabunga!

Foreign Language Lesson Podcast Collection
. Reunião de podcasts com lições de inglês, francês, árabe, espanhol e até português. Afinal, não basta saber tailandês: se não treinar um bom sotaque, vai passar por caipira.

18/09/2007

Mais um conto atípico


O palavroso discurso publicado no blog há dois anos findava com um compromisso: um dia, os lipogramas das outras quatro vogais dariam as caras por aqui. Alguns acharam pura dissimulação, claro. Mas juro: a fala foi franca. Todavia, a publicação dos posts análogos a cada tantos dias acabou dando lugar a obras inacabadas variadas: o conto da Turma da Mônica do futuro ganhou vida, o trio dos porquinhos protagonizou um musical, a lista da lagartixa já já vira um curta.

Os mais tranqüilos continuam com a bunda no banquinho, aguardando vir o dia no qual o autor do lipograma introdutório concluirá sua continuação. Os afoitos largaram pra lá, mas não os culpo, assumo o atraso. O obstáculo-mor, contudo, nunca foi o cansaço, a fadiga, a falta do ânimo. Foi notar o quanto trabalho a mais daria compor um similar suprimindo o quinto símbolo do ABC.

Vogais são bichos ariscos, obstinados. Jamais admitirão sumir do mapa assim, na maciota. O assassinato das vogais, sua ruína total, sua absoluta aniquilação são atos vagarosos. Obrigam-nos a tirar um David dum bloco frasal, cortando as sobras fora numa labuta contínua, a passos custosos. Pior: o fantasma da vogal vizinha do A assombra uma porção colossal do idioma usado por Drummond, Saramago, Suassuna. Fica a lição: quando o lipogramatista não dá valor a uma vogal tão ubíqua (dúvidas, consultar o dicionário), a vida logo torna clara sua mancada.

Jogos com palavras são práticas fabulosas. Vão da harmonia dos palíndromos à voluntária privação típica dos lipogramas, passando por lipogramas univocálicos (utilizam só uma vogal na construção toda, como, digamos, “A barata acanhada arranha a casca da batata amarga”) ou pangramas, os quais disponibilizam, num parágrafo curto, todos os sinais vocálicos ou consonantais. Os curiosos bastam vasculhar as obras-primas do grupo OuLiPo, formado na França, para saciar a ânsia por outras diabruras imaginativas.

Quanto a mim, fico por aqui.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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