22/02/2010

Fogos de artifício, massagistas cegos e obras

O ano do tigre já chegou há mais de uma semana e até hoje tem gente soltando fogos de artifício. Sério. Se você se impressiona com os vinte ou trinta minutos de fogos na virada do ano em Copacabana, não faz idéia do que rola no reveillón chinês. O foguetório começou alguns dias antes, e toda noite se escutava um bum aqui, um tatatatá ali. Tão logo o sol se pôs no dia treze, a pirotecnia se intensificou e em qualquer direção já se viam explosivos em combustão lançando luzes coloridas no horizonte. E não é que nem no Rio, onde barquinhos ancorados lá longe se encarregam da tarefa para evitar desastres. Em Beijing, cada família compra seus fogos em qualquer esquina e acende o pavio da janela de casa, que é pra espantar os maus espíritos dentro da residência. Pra andar na rua há que se ter cuidado, porque quando você assusta lá está uma criancinha com um foguete na mão, pronto para disparar – e não dá pra saber se o projétil se transformará em belas luzinhas enfeitando o ar ou virá em sua direção. Em locais mais afamados como o lago de Houhai, os fogos de artíficios queimaram ininterruptamente por horas e horas, antes e depois da meia-noite. É muito bonito, coisa e tal, mas uma semana disso, noite após noite, definitivamente cansa. Já os chineses não compartilham da mesma opinião e soltarão mais fogos daqui a pouco.

 
E quem limpa tudo depois? 

Beijing é tão deserta no ano-novo quanto Beagá no Carnaval. Foi muito estranho passar dias inteiros sem dificuldades para atravessar a rua nem empurra-empurra no metrô. Mas a debandada da população atinge também os estabelecimentos comerciais, e não só as lojas e restaurantes chineses não funcionaram, como até redes ocidentais – Starbucks, Subway – fecharam as portas por alguns dias. Você marca um jantar, todo mundo chega na hora certa e cadê o restaurante? Fechado até semana que vem. Pior é quando aproveitam o feriado pra reformar tudo: você entra em um café onde esteve há menos de quinze dias e tudo que encontra são escombros pós-apocalípticos. Ontem mesmo resolvi continuar as aventuras gastronômico-brasileiras em Beijing e almoçar no premiado Alameda, em Sanlitun. Chegando lá, mas que lasqueira: só tinha poeira. Depois a cidade ganha o apelido carinhoso de “canteiro de obras” e o pessoal reclama. 

 

Eu já tinha visto plaquinhas por aí e sempre me perguntava: é isso mesmo? Pois é sim: onde tem escrito “Blindman Massage”, é porque realmente todos os massagistas do lugar são deficientes visuais. O princípio é simples: desprovidos de um dos sentidos, eles se concentram muito mais no tato, guiando-se intuitivamente pelos pontos do corpo que carecem de uns apertões. Experimentei uma blind-massage esta semana pra ver (ops) como era, e foi satisfatório. É bem verdade que o meu massagista não era cego totalmente: aproximando o objeto bem perto dos olhos, conseguia checar a hora no celular e distinguir as cores das notas. Os outros todos eram cegos mesmo, atendendo às exigências. O preço é bem mais em conta que outros centros de massagem: 50 minutos saíram por 60 yuans (R$ 16). Mas é melhor preparar o mandarim: apontar o ombro ou o pescoço e dizer “é aqui que dói” não vai adiantar muito. 

 
Que “cdmforpble” é “comfortable” é fácil deduzir, mas custei a sacar que “bund massage” não tinha nada a ver com os fundilhos, e sim com a “blind massage” aplicada pelos ceguinhos. Será que foi um dos massagistas quem escreveu?

11/02/2010

Tiger Robocop

Domingo começa o Ano do Tigre. 

Como você sabe, a China utiliza o calendário lunar e por aqui o dia do ano-novo muda todo ano, caindo sempre entre o final de janeiro e o meio de fevereiro. O ano que termina neste sábado, 13 de fevereiro, começou em 26 de janeiro de 2009 e foi dedicado ao Boi. Agora é a vez de Haroldo e Jângal Khan destronarem o posto ocupado pelas vaquinhas e mostrarem quem é que manda no horóscopo chinês. 

Se você é como Tom Cruise, Demi Moore, Stevie Wonder e a Rainha Elizabeth II e nasceu em um Ano do Tigre, é hora de preparar cuecas ou calcinhas vermelhas pra usar o ano inteiro: segundo a tradição, é assim que você vai ter mais sorte nos meses vindouros. 

É o Tigre quem manda em seu destino se você nasceu em: 

• 28 de janeiro de 1998 a 15 de fevereiro de 1999 
• 9 de fevereiro de 1986 a 28 de janeiro de 1987 
• 23 de janeiro de 1974 a 10 de fevereiro de 1975 
• 5 de fevereiro de 1962 a 24 de janeiro de 1963 
• 17 de fevereiro de 1950 a 5 de fevereiro de 1951 
• 31 de janeiro de 1938 a 18 de fevereiro de 1939 

Com a proximidade do ano-novo, há uma previsível overdose de tigres em Beijing. O comércio aproveita o potencial, por assim dizer, “fofístico” do felino – coisa mais difícil em anos como o da Serpente e do Dragão – e dá-lhe tigrinho de pelúcia nas prateleiras do supermercado, adesivos de tigrinho colados nos veículos, modelos abraçadas a tigrinhos nas capas de revistas. 

Um apanhado do que vi por aí nas últimas semanas: 

 

Tigres-penduricalhos aos montes, pra pendurar no carro, no celular, na maçaneta, no pescoço... 

 

O Walmart tem uma seção dedicada somente aos felinos. A coleção vai de fiéis reproduções de pelúcia da Panthera tigris... 

 

... a dúzias de Tigrões da Disney, desacompanhados (grazadeus!) do mala daquele ursinho... 

 

... até pantufas com olhos e focinhos por apenas ¥ 29,90 (R$ 8,00) o par. 

 

Pode acreditar: esse amálgama de gato vermelho, espantalho e Gremlin representa um tigre - muito mais tradicional e chinês, aliás, que as versões mostradas anteriormente. 

 

Lavar e consertar é besteira: caminhão que se preze tem que ter é adesivo de tigre novinho em folha. 

 

Ainda bem que é o ano do tigre. Fosse em outros anos, essa brincadeira de manequim com cabeça de bicho não resultaria em sensuais e libidinosas "tigresas", mas em vacas, dragões, cobras, galinhas, cadelas, porcas, éguas... 

08/02/2010

Me dá me dá me dá um dinheiro aí

 

O povo brasileiro vai ganhar, em breve, novas e garbosas notas de real. Aproveitando o gancho, resolvi esclarecer um pouco da confusão que a moeda aqui da China gera nos turistas e recém-chegados. Entre RMB, CNY, yuan, kuai, rénmínbì, tem-se uma mistureba de nomes, siglas e valores que assustam até o mais atento jogador de Banco Imobiliário. 

Pois bem: o nome oficial da moeda chinesa é 人民币ou rénmínbì. “Rénmín” é povo, “bì” é dinheiro. Dinheiro do povo. Das iniciais de cada sílaba em chinês tem-se a famosa abreviatura RMB, usada em bancos, casa de câmbio, agências de turismo. 

Aí, navegando pela internet, você se depara com a sigla CNY. Que significa “Chinese Yuan” e é o código oficial para a moeda chinesa segundo o padrão ISO 4217 , que regula esse tipo de coisa. (O nosso código é BRL, sigla para “Brazilian Real”). Mas o que diabos é um yuan? 

Yuan é a unidade de medida do rénmínbì. Você não encontra “rénmínbì” nem RMB nas moedas ou nas notas, apenas a palavra “yuan” ou o caractere correspondente 元. A nota maior (de valor e de tamanho) é a rosada de 100 yuan, que na cotação de hoje tá valendo mais ou menos R$ 27,50. Já a menor é a de 0,10 yuan: por increça que parível, existe uma nota em circulação que vale dez centavos de dinheiro local (e dois centavos de real). 

Só que eles não dividem o yuan em 100 igual a gente, mas em 10. Daí a denominação escrita na famigerada nota de 0,10 yuan: “1 jiao”. Jiao é como chamam cada um dos dez pedacinhos de yuan. E cada jiao, por sua vez, também é dividido em dez e dá origem aos fen, que só existem em moedinhas de valor patético (1 fen equivale a risíveis R$ 0,0028). 

Mas a coisa ainda complica mais. Nas escolas, nas ruas, nas construções, ninguém fala “yuan” ou “jiao” quando quer se referir à grana. Na linguagem oral, 1 yuan é “1 kuai” e 1 jiao é “1 mao”. Grosso modo, seria o equivalente aos brasileiros usando contos e paus em frases como “cê tá me devendo dez contos” ou “ô dona, passa aí cem paus ou te enfio a faca”. 

Desnecessário dizer que essas denominações todas, yuan, kuai, jiao, mao, complicam a cabeça dos novatos. Eu, claro, passei perrengues. Todas as notas de yuan têm estampada a carona do Mao Tsé-tung, enquanto as de jiao – ou “mao” – não. E pra entender que, quando a mulher da loja pedia 5 mao, ela não queria a nota de 5 com a cara redonda do Mao, mas a menorzinha que dizia 5 “jiao”? Façam-me o favor. 

O que dá pra comprar com cada uma das notas do dinheiro chinês? Preparei uma lista rápida, mas fiz questão de excluir as moedinhas da jogada - elas só servem para jogar cara-e-coroa, fazer mágica, raspar o código no cartão do celular e outros fins lúdicos. De nota em nota, aí vai: 

 

100 yuan (R$ 27,50) 

• Uma diária de albergue (mas dá pra achar por muito menos) 
• Uma hora de massagem (mas também dá pra achar por muito menos) 
• Jantar para dois num restaurante japonês em Wudaokou, incluindo sushis e saquês (mas dá pra achar por muuuito mais) 
• Um livro “Insider’s Guide to Beijing” (com 600 páginas, é o mais completo que encontrei sobre a cidade) 

 

50 yuan (R$ 13,70) 

• Um coquetel nos bares caros de Sanlitun, como Vics ou Coco Banana 
• Uma garrafa de vinho Great Wall 
• Dois pares de luvas de inverno (pechinchando, dá pra sair pela metade) 
• Uma aula de percussão brasileira em Chaoyang (todo domingo, de 11h às 13h) 
• Um quilo de lingüiças de Sichuan, extremamente apimentadas 

 

20 yuan (R$ 5,50) 

• Meia-entrada para a Cidade Proibida (nos meses de inverno, quando é mais barato) 
• Um corte de cabelo 
• Aluguel de bicicleta por um dia (mediante depósito de ¥ 500) 
• Um espetinho de escorpiões na rua Wangfujin 

 

10 yuan (R$ 2,75) 

• Bandeirada inicial dos táxis, que dura por uns bons 3 quilômetros 
• Um maço de cigarros chineses 
• Um livro (pirata) vendido em barraquinhas de rua – tem de tudo, até Paulo Coelho 
• Um duplo cheesburger no McDonald’s (mas por apenas ¥ 15 você pega o lanche completo) 

 

5 yuan (R$ 1,35) 

• Um copão de meio litro de cerveja nos bares mais camaradas 
• Preço médio de uma latinha de Kěkǒukělè (a boa e velha Coca-Cola) 
• Um pacote de batatinhas chips (sabores frango, carne, camarão, kiwi...) 
• Um ròujiámó – sanduíche chinês feito com carne picada e bem temperada, que descobri outro dia e é muito bom 

 

1 yuan (R$ 0,27) 

• Um lápis 
• Uma garrafinha d’água de 500ml 
• Uma passagem de ônibus (a de metrô é o dobro, o que ainda é muito barato) 

 

5 jiao (R$ 0,13) 

• Uma porção de mǐfàn (arroz grudento), pra acompanhar qualquer refeição 
• Um caderno pra você praticar seus caracteres chineses 
• Uma sacolinha de plástico no supermercado (sim, aqui você tem que comprá-las) 

 

2 jiao (R$ 0,05) 

Pra falar a verdade, só descobri que essa nota existe ao fazer a pesquisa para este post. Nunca vi uma nota de 2 mao e não conheço ninguém que viu. Pra todos os efeitos, desconsidere. Mesmo porque é igual aquele seu ex-namorado: não vale nada. 

 

1 jiao (R$ 0,02) 

Quanto será que custa imprimir uma nota de 1 mao? Tem que ser uma mixaria muito irrisória: é difícil pensar em uma utilidade comercial para ela, a não ser juntar cinco e comprar uma sacolinha no supermercado. Já vi até caso de mendigo recusando recebê-la em sua canequinha de metal. 

Encucado com o assunto, fiz uma pesquisa informal e um amigo meu disse que em alguns lugares dá pra pagar um estacionamento de bicicletas com esse valor. Particularmente, acho mais vantajoso guardar e usar como marcador de livro.

 

Ou então abusar da cara-de-pau e lançar a Buda a oferenda mais vagabunda que ele já deve ter recebido. 

01/02/2010

Depois do pré-primário

 

Logo no início do semestre letivo, no final de setembro, escrevi sobre meus primeiros dias aprendendo chinês na Beijing Language and Culture University (BLCU). Eu já tinha aprendido algumas poucas expressões indispensáveis – “amigão! uma cerveja!” – mas fora isso não era capaz de falar nada, ler coisa nenhuma, entender lhufas. Era impossível até digitar numa mensagem de celular que eu estudava na 北京语言大学 ou morava em 五道口. Ora bolas, eu sequer sabia escrever meu próprio nome! 

Claro que, quatro meses depois – o semestre letivo é na verdade um quadrimestre –, as coisas mudam um pouco. Quando você vê, está fazendo uma prova de 9 páginas totalmente em caracteres, com questões abertas e de múltipla escolha, texto pra ler, redação pra escrever. O processo é bem mais lento do que se você estivesse aprendendo um idioma “fácil” – francês, italiano, alemão, catalão... – e requer perseverança principalmente no que se refere a escrita e leitura, mas aos poucos o que era um bicho de sete cabeças vai ficando apenas com umas duas ou três. 

 
"Queridos papai e mamãe: envio essa carta com muito amor e carinho e a certeza de que, com apenas um semestre de intensos estudos, vocês serão capaz de entendê-la." 

Pra começar, o aprendizado do mandarim tem algumas vantagens em relação às línguas que a gente conhece. Sim, em muitos aspectos o idioma é bem simples. Começando pela pronúncia: depois que você entende o funcionamento dos quatro tons, que dão um ar meio musical às frases e podem ser um pé no saco para os iniciantes, não é difícil articular os sons do idioma. Mesmo porque eles se repetem bastante. Enquanto um “ra” em português é falado de maneiras diferentes em “rato” e “barato”, um shǔ é sempre um shǔ em mandarim. 

E a gramática. Ela pode ficar bem complicada com o passar das aulas, as regrinhas e os diversos usos da partícula 了 às vezes tiram o seu sono, mas pra se expressar em frases simples não é preciso saber uma infinidade de conjugações e terminações, como em nossa língua pátria. Fala-se “eu comer”, “você comer”, “nós comer”. No passado é “ontem eu comer”. No futuro, “amanhã eu comer”. Nada de futuros do subjuntivo ou pretéritos-mais-que-perfeitos ou “vós comêreis”. 

No nível A, que completei semana passada, a gente passa por três livros-textos inteiros, sem falar nos dois de kǒuyǔ (conversação) e um de tǐnglì (escuta). No livro 1, os diálogos vêm em três – caracteres, pīnyīn e tradução em inglês – e o vocabulário inclui palavras como “professor”, “comida”, “fome”, “banheiro”. No livro 2, as traduções vão embora e a gente aprende “bicicleta”, “tosse”, “fotografia”, “melancia”. No fim do livro 3, acabou a mamata: só tem caracteres, sem nenhuma transcrição fonética, e o vocabulário traz coisas como “abundante”, “desperdício”, “bodas de ouro”, “não obstante”. 

Os diálogos também adquirem complexidade. No primeiro livro era tipo: 

Bai Hua: Você está ocupado? 
Fang Long: Sim, estou muito ocupado. E você? 
Bai Hua: Não muito ocupada. 

Já no terceiro... 

Aimi: Professor Wang, quero trocar um pouco de dinheiro, mas não sei qual é o melhor lugar para fazer isso, tenho dúvidas.
Prof. Wang: Conte-me. 
Aimi: Se eu for ao banco para trocar o dinheiro, a taxa de câmbio é muito baixa. Se procurar um lugar particular, tenho medo de ser enganada. 

Como qualquer campo de estudo, especialmente o de idiomas, é indispensável sair do ambiente escolar, tomar a pílula vermelha e vivenciar o mundo exterior. Mesmo porque, pelos livros, eles acham que a gente vive pra ir na escola. A palavra para quadro-negro (hēibǎn) está lá na segunda lição do livro 2. Mas só depois é que aprendemos a pedir um par de kuàizi (os famosos palitinhos) ou chamar o garçom (“fúwùyuán!”, de preferência gritado, e se quiser parecer pequinês de raiz é só adicionar um R puxado, como no sul de Minas, no fim da palavra). 

Morando na China é fácil: qualquer transeunte, policial ou mendigo é um language partner em potencial. Qualquer placa, cardápio ou anúncio é uma chance de treinar a leitura. O campus também é um ambiente extremamente propício e é fácil encontrar chineses dispostos a te dar umas dicas em troca de algumas conversas em inglês. Professores particulares são bem baratos – em geral, alunos do curso de chinês para estrangeiros que cobram entre R$ 8 e R$ 14 por hora. E as livrarias estão cheias de alternativas para quem quer fugir dos diálogos enfadonhos – fala sério, taxa de câmbio?! – do livro-texto. 

Duas opções que me ajudam um bocado: 

“ Mandarin Phrasebook ”, da mesma galera por trás da revista The Beijinger e que também faz o excelente “Insider’s Guide to Beijing”. Você já percebe que o foco é o mundo real quando, na orelha do livro, já encontra uma série de expressões pra facilitar na hora de pegar um táxi. Tem gírias, modelos de currículo e até frases para se livrar do vendedor de traquitanas na Grande Muralha (“Sou alérgico a cartões-postais”, ou “Eu perdi minha carteira e minha paciência”). Também é muito útil na hora de dar respostas engraçadinhas na sala de aula, como quando a professora perguntou qual meio de transporte usávamos para vir à escola e não podíamos repetir as respostas. Começou com: 

- Venho de carro. 
- Venho de metrô. 
- Venho de bicicleta. 
- Venho a pé. 

Depois descambou para: 

- Venho de barco. 
- Venho a cavalo. 
- Venho de disco-voador. 

O outro é o “ Radicais Chineses Mais Comuns ”, que esmiúça os bastidores dos caracteres chineses retalhando-os em pedacinhos e explicando o porquê de cada coisa. Torna a tarefa de decorar milhares de símbolos aparentemente desconexos muito mais rápida e lógica. 

Por exemplo: juntando os radicais 女, que representa mulher, e 彐, de vassoura, temos 妇, uma mulher segurando uma vassoura, que significa mulher casada (feministas, favor reclamar com os dicionários). 

Ou 尸 (corpo), mais 水 (água), resulta em 尿, que é uma água sob um corpo e representa a prosaica ação de fazer xixi. 

Aí você pergunta: quatro meses imerso em aulas, exercícios, provas, conversas, andanças, language partners, professores particulares, radicais, dicionários, flashcards (as famigeradas fichinhas com o caractere de um lado e a pronúncia e o significado do outro), dá pra aprender o bastante? 

Depende do que você considera o bastante. Ainda restam milhares (milhares!!) de caracteres pra decorar. Muito vocabulário, muita conversa, muita prática. E em qualquer língua, nunca se aprende o suficiente. 

Mas dá pra: 

• Se virar num restaurante – chamar o garçom, pedir o cardápio e a conta, perguntar se determinado prato é pra dois e quanto custa a carne de cachorro; 
• Explicar pro taxista onde você mora e, se você também tiver um bom senso de direção, como faz pra chegar lá; 
• Entender o básico de um cardápio – se um certo prato tem carne de quê, se tem ovo, se é macarrão; 
• Pechinchar nos infinitos mercados e lojinhas que tem por aí; 
• Escrever redações de 100 ou mais caracteres, abordando temas como “uma carta para meus pais”, “minha vida em Beijing”, “o clima do meu país”, “uma doença que eu tive”; 
• Cantar “Parabéns pra você” em chinês (“Zhu ni shengri kuaile, zhu ni shengri kuaile...”); 
• Entender o sentido de uma historinha em quadrinhos, digamos, do Pateta ou dos Smurfs; 
• Escrever e-mails e mensagens de texto em caracteres, usando sistemas como o Microsoft Pinyin 
• Contar de zero a um zilhão e ainda fazer os gestos correspondentes com a mão de um a dez – pois é, os chineses usam um sistema diferente que só precisa de uma mão, olha só: 

 

Ah, e quanto a escrever meu nome, foi a primeira coisa decisão que eu tomei quando terminei de escrever aquele texto. Peguei minha caderneta de estudante, pratiquei bem os caracteres de “Lúkǎsī” (卢卡斯), perseverei e agora não só assino meu nome em chinês a torto e a direito, como até mandei fazer um carimbo. Quer aprender a escrever o seu? Vai lá no A-China que eles têm uma lista de Abílio a Zeferino.

 

29/01/2010

Os animal tem uns bicho interessante

Era meu terceiro dia na China, um domingão ensolarado, eu acordei cedo ainda sob os efeitos do jet lag e pensei: “quer saber? eu vou é pro zoológico”. Aproveitei as facilidades do metrô pequinês e passei um dia criando bolha no pé de tanto caminhar. A última vez que visitara um zoológico tinha sido em Beagá, há uns bons sete anos, e na Pampulha não tem pandas nem pingüins. 

O zoológico de Beijing tem mais de um século nas costas e foi criado no finalzinho da dinastia Qing, em 1906. Suas 500 espécies de hoje em dia constrastam com a escassez de bichos dos primeiros anos: consta que em 1949, às vésperas da Revolução Comunista, o parque abrigava apenas doze macacos, um papagaio e um emu cego (!!). De lá pra cá, trouxeram zebras, elefantes, girafas, cangurus, ursos, bisões, tartarugas, ou seja, a faunarada que se espera de um lugar como esse. 

 

A espécie mais abundante, entretanto, é mesmo o filhote do Homo sapiens: crianças correm por todo lado, imitam patos, perseguem bolas de sabão, conversam com os bichos, comem, bebem e fazem suas necessidades... no chão. É um costume muito comum: em vez de fraldas descartáveis, os nenês passeiam por aí com um rasgão na calça estrategicamente localizado nos fundilhos. A natureza chamou, faz no chão mesmo, deixando o campo minado à mercê das pegadas alheias. O meio ambiente agradece, o seu sapato nem tanto. 

 
Vai lá, filhinho, ninguém tá te olhando. 

 
A pirralhada em frente a um mar de pandas. 

 
Ela não sorriria assim se soubesse que sua estampa está invertida. 

Quanto aos bichos, tem de tudo um pouco. Os ornitófilos podem admirar gansos, patos, flamingos, araras, avestruzes, pavões. Fãs de répteis têm jacarés, tartarugas, serpentes. Os mamíferos comparecem com guaxinins, camelos, lobos, hienas, alpacas, ursos, panteras. 

 

Mas é aquela coisa. Sabe os protagonistas do longa “Madagascar”, que viviam aquela vidinha pacata e tediosa confinados no zôo de Nova York sem um pingo da vitalidade que teriam na selva? É mais ou menos assim em qualquer jardim zoológico pelo mundo – lembre-se do célebre Idi Amin em BH – e não é na China que seria diferente. Em Beijing, enquanto patos podem exercer suas habilidades aquáticas em lagos grandes e cercados de vegetação, outras espécies têm que se contentar com jaulas pequenas e claustrofóbicas. Nesse sentido, a ala dos grandes felinos é a que chama mais a atenção. Os leões, as panteras e os tigres brancos passam dia após dia trancados atrás das grades num galpão com pouca luz. Tá certo, têm todos uma portinha que leva a um espaço aberto e com algumas plantas, mas raramente eles estão por lá. Falta energia até pra tomar banho de sol. 

 
"Odeio segunda-feira..." 

Plaquinhas de “não alimente os animais” estão por todo lado, mas o pedido é solenemente ignorado por grande parte dos visitantes. E dá-lhe criança dando alface na boca do alce, adulto tacando biscoito pro lobo, e daí pra pior – há relatos de quem viu gente servindo refrigerante para os ursos. Influência dos comerciais da Coca-Cola? 

(Um adendo interessante, ou não, dependendo do seu amor pelos bichinhos. Alguns amigos meus foram pra gélida cidade de Harbin, no norte da China, e visitaram um parque cheios de tigres siberianos soltos pela neve. Você entra num carro e vai andando por ele, estilão Jurassic Park. E pode comprar animais vivos para servi-los. Uma galinha ou um pato custam cerca de 200 yuans, ou 50 reais. Se estiver com um grupo grande, dá pra fazer uma vaquinha – literalmente –, pagar 400 reais e servir uma vaca inteira e viva aos tigrinhos.) 

O ingresso do zoológico de Beijing é barato: 15 yuans (R$ 4,00). Mas olha que legal: se você quiser ver os pandas, tem que pagar 5 yuans a mais. Quem é que vai num jardim zoológico na China e deixa de ver pandas? Se aumentassem o valor do ingresso e eliminassem essa bobagem de pagar separado, seria ao menos mais honesto. Mas vá lá: preguiçosos e engraçadinhos, os pandas cumprem o que a propaganda promete. 

 

 

 
“Me dá aquele panda gordo ali, pra essa menina parar de chorar” 

 
Sem pêlos nem carne, eles não parecem tão fofinhos. 

O aquário de Beijing fica dentro do zoológico mas a entrada também é à parte, e uma fortuna se comparada à do parque: 100 yuans (cerca de R$ 27). Dezenas de tanques com tartarugas, águas-vivas, tubarões, arraias e peixes de todas as cores do espectro. E se você estiver por lá no horário certo, pode assistir ao show dos mamíferos aquáticos. Tão lá a foca batendo palminha, o leão-marinho fazendo sua imitação de cameraman do Faustão (como era o nome dele mesmo?) e os golfinhos assumindo sua posição de grandes astros, com nados sincronizados de fazer inveja nas gêmeas do Pan e piruetas de deixar o Diego Hypólito chorando. 

 

Na saída do aquário tinha um mural de recados, e a moça do balcão me ofereceu post-it e caneta pra eu deixar o meu. Meus caracteres ainda eram precários – só sabia escrever 你好 em traços tortos – então escrevi na nossa língua pátria mesmo. Aproveitando o ambiente marinho, parafraseei Rogério Skylab na sua brilhante resposta ao Jô quando perguntando a respeito das baleias e registrei minha igual ignorância acerca do assunto. 

27/01/2010

Comé que chama?

A língua chinesa é antiga pra burro e, assim sendo, possui milhares e milhares de caracteres representando água, montanha, estrela, piolho e todas essas coisas que estão por aí desde que o mundo é mundo. Mas quando se trata de vocábulos mais recentes – digamos, de duzentos anos pra cá –, existem dois caminhos mais comuns. O primeiro é fonético, combinando sons razoavelmente parecidos, como no caso de kāfēi (café) ou mǎkǎliánnà (macarena). Também é o que geralmente acontece com nomes próprios, dos Beatles (Liènóng, Mǎikǎtèní...) aos presidentes do Brasil (Sàernèi, Fèiěrnánduō Ēnlǐkè, Lúlā).

A outra forma é literal, juntando ideogramas que descrevem imageticamente a palavra em questão. Assim, coloca-se lado a lado os caracteres 电 (diàn), que representa eletricidade, e 脑 (nǎo), que significa “cérebro”, e tem-se电脑 (diànnǎo), que é “computador”: literalmente, um cérebro elétrico. Na mesma linha, xampu é uma “água de lavar cabelo”, semáforo é uma “luz verde e vermelha” e guilhotina, uma singela “plataforma de cortar cabeça”. Não dava pra ser mais preciso.

Por outro lado, enquanto “prato voador” descreve bem um frisbee e “cobre-peito” é uma definição certeira de sutiã, a palavra para papel higiênico – shǒuzhǐ ou “papel de mão” – acaba parecendo eufemismo, porque não é exatamente na mão que ele costuma ser usado. E há algo de sacana na expressão informal pela qual o membro sexual masculino é conhecido: xiǎo dìdi, ou “pequeno irmão mais novo”. Definitivamente não contribui para melhorar a fama dos orientais.

 

Folheando o dicionário durante uma aula chata de listening uns dias atrás, e fuçando o excelente dicionário online Ncikuenquanto queimava neurônios com o dever de casa, garimpei algumas descobertas curiosas. Como a palavra 海王星, formada por 海 (hǎi, “mar”), 王 (wáng, “rei”), 星 (xīng, “estrela”). Estrela do Rei dos Mares? É como os chineses chamam o planeta Netuno. Somando o mesmo 海 de mar com 盗 (dào, “ladrão”) temos um pirata. Um cometa, com sua cauda que varre o universo, é chamado de huìxīng ou “estrela-vassoura”. E o canguru, com aquela cara que não engana ninguém, recebeu o simpático nome de dàishǔ, ou “rato com bolsa”. 

Já os dinossauros, na falta de uma comparação mais apropriada, acabaram sucumbindo à predileção chinesa por dragões e viraram todos恐龙 (kǒnglóng), dragões do medo. Aí dá-lhe dragões por todo o Jurassic Park: o tiranossauro-rex é “dragão brutal”, o velociraptor é um “dragão veloz e violento” e o brontossauro, um inexplicável “dragão do trovão”. 

 
“Fujam, crianças! Aí vem o dragão do medo!” 

Nem os super-heróis escapam à fúria neologista chinesa. Muitos fazem uso do caractere 侠 (xiá), que significa “cavaleiro”. Bruce Wayne é o “Cavaleiro Morcego”, Peter Parker é o “Cavaleiro Aranha” e Tony Stark, o “Cavaleiro de Ferro”. Particularmente, prefiro as recriações que fizeram com os X-Men (“Agentes Secretos Mutantes”), Wolverine (“Lobo de Metal e Aço”) e o Incrível Hulk (Lǜjùrén, “Pessoa Verde Imensa”). 

 
O Wolveline do extlemo oliente 

Abrindo caminho para o próximo post, que tratará do zoológico de Beijing, separei dez exemplos de nomes de animais em mandarim pra vocês adivinharem. Claro que coloquei só as traduções literais, sem caracteres nem nada, senão o tio Google resolveria num segundo. Quem acertar primeiro todos os dez ganha a indescritível glória de vencer o primeiro quiz do Boca de Gafanhoto. 

1. Cachorro de crina 
2. Rato de pinheiro 
3. Águia com cabelo de gato 
4. Doninha fedida 
5. Inseto blindado 
6. Inseto cabeludo 
7. Cervo de pescoço longo 
8. Bicho com boca de pato 
9. Cavalo de rio 
10.Gato-urso 

RESULTADO 

1. 鬣狗 [liègǒu] ou “cachorro de crina” é a hiena. Ela também pode ser chamada de tǔláng, ou “lobo da terra”. Adriano acertou primeiro. 
2. 松鼠 [sōngshǔ] ou “rato de pinheiro” é o esquilo. Márcia acertou primeiro. 
3. 猫头鹰 [māotóuyīng] ou “águia com cabelo de gato” é a coruja. Ariane acertou primeiro. 
4. 臭鼬 [chòuyòu] ou “doninha fedida” é o gambá. Thiago Dylan acertou primeiro. 
5. 甲虫 [jiǎchóng] ou “inseto blindado” é o besouro. Márcia acertou primeiro. 
6. 毛虫 [máochóng] ou “inseto cabeludo” é a lagarta. Thiago Dylan acertou primeiro. 
7. 长颈鹿 [chángjǐnglù] ou “cervo de pescoço longo” é a girafa. Márcia acertou primeiro. 
8. 鸭嘴兽 [yāzuǐshòu] ou “bicho com boca de pato” é o ornitorrinco. Márcia acertou primeiro. 
9. 河马 [hémǎ] ou “cavalo de rio” é o hipopótamo. Aliás, o próprio nome “hipopótamo” vem do grego: “hippos” é cavalo e “potamos” é rio. André acertou primeiro. 
10. 熊猫 [xióngmāo] ou “gato-urso” é o panda. André acertou primeiro.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

25/01/2010

Vende-se tudo

A escada que descia por debaixo da avenida levava a crer que apenas cruzaríamos a rua por uma passarela, mas o que se via era uma galeria subterrânea de lojas e mais lojas. Tínhamos ouvido falar de um lugar ali embaixo que vendia DVDs de todos os tipos, só que ao chegar na loja em questão encontramos todas as prateleiras completamente vazias. Apenas uma tinha produtos à mostra – porta-CDs de plástico – mas o balcão contava com duas vendedoras prontas para atender, e a não ser que fossem os porta-CDs mais inflacionados do mercado, algo estava errado. Quando perguntamos onde estavam os tais DVDs, uma delas puxou a prateleira dos porta-CDs e revelou uma portinha secreta que dava acesso a uma sala contígua – essa sim com milhares de filmes, séries e desenhos animados à inteira disposição dos clientes.


Cadê o DVD que tava aqui? 

Já seria de se esperar encontrar todos os lançamentos recentes, de Avatar a Sherlock Holmes – se qualquer camelô da Savassi vende, imagine na China, onde o governo só permite 20 lançamentos estrangeiros por ano. Boxes com a última temporada de Lost ou 24 Horas também não é exatamente uma surpresa. Mas todos os episódios de todas as séries de Jornada nas Estrelas? Todos os episódios das vinte temporadas dos Simpsons? Boxes completos com todos os Friends, Seinfeld, Família Soprano, Family Guy e até McGuyver? Toda a filmografia de Chaplin, Fellini, Antonioni, Kubrick, Buñuel?! Todos os longa-metragens animados da Disney, de Branca de Neve a A Princesa e o Sapo?!! A lista é impressionante e cada DVD sai por uma média de 8 yuans (R$2,00), passíveis de desconto dependendo da quantidade que você levar. 

Lojas como essa são comuns em Beijing. Aliás, nem sei por que motivo eles escondiam tudo em uma salinha secreta, porque na maioria das vezes os DVDs piratas surgem atrás de vitrines à luz do dia, com letreiros luminosos piscando “DVD Shop” pra todo mundo ler. Livros, roupas e eletrônicos falsos são vendidos nas calçadas de toda a cidade. E mercados enormes, com todo tipo de produtos que você puder imaginar, estão sempre a poucas estações de metrô de distância. 

Desses, o exemplo mais famoso é o Mercado da Seda. Ocupando um prédio de vários andares em Guomao, centro financeiro de Beijing, o Mercado da Seda – ou 秀水街 (Xiùshuǐjiē), em chinês, ou Silk Market, como é mundialmente conhecido – é o paraíso de quem quer comprar umas lembrancinhas pra levar pra casa, seja um despertador com a cara de Mao Tsé-tung, seja uma caneta Mont Blanc igualzinha à original, mas por um décimo do preço. 

 
Vendedora fazendo um colar de pérolas: vinte e cinco nós por minuto 

Roupas? Tem camisas, calças, cachecóis, meias de lã, cintos, sapatos, casacos, camisas de futebol, cuecas com estampa do Bob Esponja. Se quiser um terno, eles tiram suas medidas e você pega no dia seguinte. Óculos? Você faz o teste na hora e eles juntam a armação de sua preferência com a lente mais adequada à sua vista. Tapetes? Chá? Brinquedos? São milhares de opções. Souvenirs chineses? A relação é interminável e inclui chapéus de camponeses, pandas de pelúcia, jogo de xadrez com imperador e imperatriz no lugar de rei e rainha, o livro de citações de Mao em inglês, espanhol, alemão, russo, máscaras da Òpera de Pequim, estatuetas de todos os animais do horóscopo chinês, tigres de tudo quanto é jeito (o Ano do Tigre começa em três semanas), o irritante gatinho dourado que fica dando tchau com a pata, Budas gordos e felizes, leques, bules de chá, bonés comunistas... bom, deu pra entender. 

 
Peter Parker largou o Clarim Diário e agora faz bico na Ópera de Pequim. 

Pechinchar é obrigatório, e muitas vezes chega a ser exaustivo. O primeiro preço é invariavelmente ridículo, eles jogam o valor lá em cima e nenhum comprador em sã consciência se atreveria a pagar. Então você ri e se recusa, e eles pedem pra você falar o valor máximo que está disposto a gastar. Você obviamente fala outro preço ridículo, só que no outro extremo, lá embaixo. E por aí vai, até você chegar num valor que julga razoável. Mas a gente sempre sai com aquela sensação de que poderia ter pedido menos, porque afinal de contas a venda foi feita e eles não são bobos a ponto de deixar o lucro de lado.

Em que língua a gente compra na China? Saber um pouco de chinês ajuda bastante, mas na maioria dos lugares dá pra misturar mímica com inglês e se sair bem. E em centros de compras lotados de turistas, como o Mercado da Seda, a grande maioria dos vendedores fala um inglês decente, especialmente focado em seu campo de atuação (“Hello sir, do you want to buy underware?”, etc). Muitas vezes eles vão além, e não é difícil se deparar com chineses te chamando em francês, russo, espanhol. Eu estava vendo umas bugigangas quando uma menina me perguntou, em inglês, de que país eu vinha. Respondi, em chinês: “Baxi”. E ela emendou, em um português claro e compreensível: “Oi, tudo bem?”. 

 

Mas não é a regra. Uma outra hora fui arranhar um mandarim com uma vendedora/artista que pintava minúsculas paisagens e microscópicos animaizinhos em grãos de arroz, e ela quis saber de onde eu era. 

- Adivinha – falei. 
- Inglaterra? 
- Não. 
- França? 
- Não. 
- Estados Unidos? – ela parecia chutar a esmo todos os países que conhecia. 
- Não. – resolvi ajudar e disse – Sou da América do Sul. 
- América do Sul... – ela não conseguia pensar em nada. Eu fui bonzinho até demais: 
- O maior país da América do Sul. 

Ela pensou mais um pouco e soltou: 

- Espanha! 

Da próxima vez que andar por lá, vou ver se compro um presentinho pra ela na barraquinha de mapas-múndi.

20/01/2010

Karaokê, uma instituição asiática

Lembra da febre do videokê no Brasil? Lá pelo fim dos anos 90, qualquer birosca tinha uma maquininha com dois microfones e uma seleção de canções que misturava Djavan, Mamonas Assassinas, Tetê Espíndola e Só Pra Contrariar. Pois na China – e na Coréia, e no Japão... – o ato de se esgoelar em público em reinterpretações baratas de sucessos musicais não é uma febre, é uma instituição.

A palavra “karaokê” é japonesa, como é fácil deduzir, e literalmente significa “orquestra vazia”. Na China, o nome oficial é “kǎlā ōukèi” ou 卡拉OK (isso mesmo, com um OK ocidental disputando espaço com os ideogramas), mas é muito mais fácil esbarrar por aí com a sigla pelo qual é mais famoso: KTV. Shoppings, prédios comerciais, becos escuros, hutongs – quando você menos espera, olha pro lado e tá lá um KTV chamando pro abraço. Uma busca rápida no Google Maps por “KTV Beijing” indica quatro mil, quatrocentos e oitenta e seis resultados.

 
Quer impressionar sua namoradinha chinesa? Tente uma canção de amor local que ela vai gamar. 

No início não era nada que me fizesse dizer “que puxa! hoje não vou nem tomar café, vou direto pro karaokê!”. Tanto que demorei uns três meses de China pra encarar um KTV de perto. Sei lá, a imagem que eu tinha era de pessoas em roupa de banho cantando “Papo de Jacaré” num fim de tarde em Iriri, então você me entende. Após um jantar de aniversário, no entanto, aproveitamos a presença de um KTV no mesmo prédio do restaurante e alugamos uma salinha por duas ou três horas. Resultado: nas cinco semanas seguintes, voltei ao karaokê outras sete vezes, incluindo o primeiro reveillón que passei sem assistir à queima de fogos. 

Uma noite típica num KTV é assim: 

Começa com a decisão de aonde ir. Você já jantou, brindou umas cervejas e agora precisa urgentemente de um lugar pra continuar a noitada. O primeiro que vem à cabeça é Sanlitun, com seus infinitos pubs e boates, mas que fica longe, é caro e invariavelmente toca música ruim. Não demora até alguém sugerir karaokê, que é sempre mais perto e mais barato. Nosso preferido é um KTV coreano em Wudaokou, que além de um catálogo bem variado tem soju, o destilado coreano feito de arroz que desce que é uma beleza. 

Você entra no lugar e aluga uma salinha. Porque geralmente é assim, não é um bar enorme com um palco onde você tem que subir e encarar uma multidão de rostos desconhecidos sedentos por um deslize vocal, mas um complexo com dezenas de salinhas pra você juntar só os mais chegados e passar vergonha em ambiente privado. São tantas que, dependendo do seu senso de direção e/ou grau etílico, corre o risco de você ir ao banheiro e na volta errar de sala, topando com um bando de coreanos cantando animadamente os últimos sucessos das paradas de Seul (já aconteceu comigo...). 

Em seguida, enquanto o garçom traz as cervejas e as garrafas de soju que você pediu na entrada, é hora de folhear o catálogo e escolher quais as canções você está afim de estragar. Alguns lugares disponibilizam um computadorzinho, mas particularmente prefiro os átomos aos bits, é mais prático passar o olho numa lista de papel do que descer a barra de rolagem trocentas vezes até achar o que quer. 

O cardápio é amplo e passeia por clássicos do brega internacional como “Total Eclipse of the Heart” e “Everything I Do (I Do It For You)”, hits de todas as décadas – de Sinatra a Spears – e todas aquelas músicas que você sempre achou que sabia a letra, até descobrir que não passava nem perto. Brasileiras? Vi umas do Angra dando sopa. Mas se os idiomas orientais forem seu forte, você encontra um mundaréu de canções em chinês, coreano e japonês à sua disposição. Com sorte dá até pra achar o tema do Daileon: “Ôôô cara tossiu...”

O equipamento básico não varia muito: uma televisão, duas se a salinha for uma salona, dois microfones com reverb ligado no máximo áximo áximo e, às vezes, um pandeiro meia-lua pra você sacudir fora do ritmo. E a bebida, que é essencial. Sem ela o pessoal fica inibido e a coisa demora a engrenar. No ano-novo, por exemplo, duas amigas nossas chegaram com a cara amarrada porque queriam era balançar o esqueleto em alguma boate cara de Chaoyang. Poucas doses de soju depois, era preciso tirá-las à força de frente da tevê. 

E quando a garganta ameaça pifar, o melhor é se acomodar no sofá, rir um bocado dos amigos e, principalmente, dos vídeos estranhos que acompanham as canções. Porque, na maioria das vezes, não têm um pingo de relação com o que diz a letra. “Another Brick in the Wall” pode vir com a imagem de um casal de patos se exibindo em um lago europeu, “Fear of the Dark” com uma cândida garota pensando na vida enquanto toma um sorvete ou “Girls Just Wanna Have Fun” com cenas de guerra de um filme japonês. Mais raro, mas ainda mais divertido, é se resolvem investir em sósias dos artistas e reencenar, com requintes de excentricidade, seus videoclipes que marcaram época. Aí é impossível soltar a voz sem deixar escapar uma gargalhada. Acho que o propósito da coisa toda é justamente esse, no final das contas. 

 

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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