Mostrando postagens com marcador A Velha Debaixo da Cama. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A Velha Debaixo da Cama. Mostrar todas as postagens

02/12/2008

A Velha Debaixo da Cama – O Livro



A novela em dez capítulos "A Velha Debaixo da Cama", publicada ao longo de dois mil e oito na revista piauí e cujos bastidores o leitor deste blog acompanhou também por aqui, está agora disponível no site da revista para visualização online e impressão em celulose, devidamente diagramada. Uma pena que a versão em átomos não venha com a edição de dezembro da revista, mas quem quiser imprimir, grampear e colar as folhas é só entrar aqui e seguir as instruções. Já sua contraparte cibernética, onde os cliques aposentaram os dedos lambidos na função de virar páginas, pode ser apreciada aqui. E aproveitando o embalo, fica aqui meu agradecimento à revista por ter participado de tão garboso concurso e um abraço a Rodolfo Viana, Claudio Parreira, Ciço Léo, Franco Neviani, W. Surtan, Hemetério, Juliana Simões, André K. e Paulo Vicente Alves Cruz, competidores e colegas na feitura da absurda saga de Antônio, Maria e o Coronel Mergulhão.

06/11/2008

A velha, o coronel e o gogo-boy aposentado



Começou com uma frase prosaica: "Antônio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera". O desafio era, a partir dela, escrever o capítulo inicial de um folhetim em 10 partes. Eram dez também os concorrentes: só entrava no páreo quem tinha texto publicado na piauí em 2007, no concurso literário "encaixe a frase" - meu conto, que selava o destino da pobre Mirela, foi publicado em novembro do ano passado. E cada vencedor ainda levava oitocentos merréis para gastar com mulheres e bebidas.

Missão aceita, pus-me a escrever. Fiz o meu capítulo I seguindo uma sugestão de meu pai, que viu na frase uma possibilidade de narrar a chegada de Augusto Paio, seu progenitor, ao Brasil. Queria ganhar logo no primeiro mês porque seria o texto a pôr no mundo os personagens e dar o tom da história. Nada feito: o vencedor foi o cearense Ciço Léo, cujo Antônio era um ex-gogo-boy vivendo em companhia de Maria de Maria, velha viúva do famigerado coronel Mergulhão. A maior das penúrias que ele tinha de viver era dormir com a velha debaixo da cama - daí o apropriado nome escolhido para o folhetim, "A Velha Debaixo da Cama".

O capítulo seguinte deveria continuar o texto publicado. Foi o que fiz em meu capítulo II, dando prosseguimento à fuga de Antônio das garras de Maria e matando precocemente a velha no final. Na história vencedora, de Rodolfo Viana, ela continuou vivinha e Antônio nem chegou a fugir, impelido a ficar depois de receber um enigmático envelope. Rodolfo privou os leitores de conhecer o remetente da carta e me pôs em maus lençóis: passei dias imaginando quem seria o misterioso autor da missiva até resolver descambar de vez para a bobagem. No meu capítulo III, o pacote trazia a nova edição da assinatura da revista Fuxicos & Fofocas, da qual Antônio era fã confesso - como ele poderia dar no pé e não poder mais ler semanalmente sobre a vida dos famosos? O texto escolhido pela piauí, de Cláudio Parreira, ressuscitava o ex-finado Coronel Mergulhão e dava a Antônio uma proposta para pensar: se desistisse de fugir e ficasse, fazendo Maria sofrer mais a cada dia, receberia uma fortuna de 10 milhões em dinheiro vivo.

Pus a velha pra sofrer em meu capítulo IV, onde Antônio tentava com todas as armas transformar Maria num trapo triste e miserável, a um passo do suicídio. Já o Franco Neviani, autor do capítulo vencedor, colocou Antônio à procura de alguma foto do coronel Mergulhão, até o momento em que ele olha a foto, olha o espelho e percebe uma semelhança que nunca tinha lhe passado pela mente. No meu capítulo V, Mergulhão finalmente apareceu, velho e morando num porão suspeito. Enviei pra redação da piauí nos acréscimos do segundo tempo, quase estourando prazos e números de caracteres, e qual não foi minha surpresa ao ver no site da revista: "O vencedor do Capítulo V é um mineiro de Belo Horizonte, Lucas Paio. Enviou seu texto na penúltima hora, quando já se dava como certa a vitória de outro candidato aos 800 reais do Bolsa-piauí com que a revista beneficia o melhor escriba do mês".

Pelas regras do concurso, não participei do capítulo VI, cujo autor foi Rodolfo Viana, agora bicampeão. Voltei no capítulo VII, em que botava Maria e Antônio para planejar o assassinato Mergulhão. Já o capítulo VII vencedor, novamente de Franco Neviani, ia por outros caminhos e dava a Mergulhão um fim que ele não esperava.

Perdi o prazo do capítulo VIII, que deu o tricampeonato a Rodolfo Viana, e do capítulo IX, que foi vencido por Ciço Léo e terminava com Mergulhão ainda morto, Antônio trancafiado na cadeia e Maria morta de remorso, saindo de casa após um ano inteiro de reclusão, com a intenção de fazer uma visita. Depois de tantos bicampeonatos, achei que conquistaria também o meu e fecharia a história do jeito que imaginara desde janeiro, ao escrever o capítulo I. Mas, dos sete na disputa, foi o niteroiense W. Surtan quem levou o caneco do capítulo X - merecido, claro, como o foram Ciço, Rodolfo, Cláudio, Franco e os outros que não levaram, mas competiram com classe (como Hemetério, que fez até história em quadrinhos). Fundamos comunidade no orkut - procure por "leitores escribas da piauí" - e fica a expectativa de um convite da revista para um jantar de gala no Rio de Janeiro com os dez participantes, quem sabe?

Quanto a mim, terminaria a história desse jeito:

A Velha Debaixo da Cama
Capítulo X - Réquiem

Ele rumina mais um pedaço da broa de fubá e sentencia: ficou ótima. O aconchego da cadeira de palha e o ar parnasiano que entra pelas janelas do sobrado são tudo o que ela precisava, depois de tanto tempo. Faz o mesmo tanto que eles não se vêem, e não são boas as memórias que têm daquela última vez: ela entregue a um sexo selvagem totalmente desatinado, ele no chão, levando coronhadas. É nítido que envelheceram, e isso que velhos já estavam e muito. Mas, se antes um mantinha uma cômoda rotina de bon vivant em seu bunker luxuoso sob o quarto de dormir, e a outra tinha um amante a quem tanto lhe aprazia espezinhar, agora sofriam os resultados de tanta reclusão; a dela física, enfurnada em sua amuralhada casa-zôo, a dele fisiológica, eremita de si mesmo, num coma cárus que durara um ano. Como que acostumados, preferem o silêncio. Ele evita insistir na mesma tecla e maldizer Gervásio, sujeito exagerado, a quem pedira só um desmaio e não um traumatismo de tamanho tal. Não se dá ao trabalho de queixar-se do período que perdera e de todos os fatos importantes que não pudera presenciar, do honroso segundo lugar do Íbis no campeonato nacional ao retorno triunfal de José Sarney à Presidência da República. Tampouco quer saber qual foi a reação do povo ao defunto risonho e ceroso que descansava no ataúde: admirava o escultor mas achara a obra de um mau gosto ímpar, e na próxima farsa preferia ser cremado. Não: ele não diz nada, e ela não faz perguntas – não é para isso que estão ali. Quando só restam farelos na travessa da broa e a derradeira gota do café pingado jaz fria no fundo da xícara, ele abre um sorriso debaixo do bigode vasto. Desta vez é um sorriso autêntico, e ela sabe. Tanto que emenda: então vai ser isso mesmo? E ele: é. Parece um jeito bom de passar o tempo que a gente ainda tem. Além do mais, tenho certeza de que ele vai gostar. Olho no olho, tratam-se carinhosamente: Maria, sua sórdida. Plínio, seu sujo. Só não se beijam porque na idade deles soaria ridículo, mas é como se fosse.

Antônio esfregou os olhos e viu a cela aberta. À sua frente, um homem de uniforme; nas mãos, um envelope. Arruma suas coisas que já tão te esperando, disse o homem antes de virar as costas. Antônio olhou intrigado o invólucro pardo e notou o logotipo familiar: L'Île de La Tentation. Apressado, leu a missiva. Era um aviso – o cabaré agora estava sob nova administração – e um convite expressamente irrecusável – os novos donos receberiam Antônio Euclides de braços abertos para a aguardada retomada de sua carreira artística; em outras palavras, Conan, o Bárbaro, voltaria a rebolar no queijo. Já estavam todos avisados do equívoco que o levara às férias forçadas, dizia a carta; os tempos de dormir em cantos de celas ou debaixo de camas viravam passado. Dois garranchos assinavam o rodapé, mas nem seguindo o traço com atenção Antônio pôde decifrar os nomes. Olhou para a porta da cela destrancada e o homem de uniforme que o apressava; olhou de volta a carta, assombrado. Compreendeu enfim. Antônio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera.

05/08/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo VII - O Pacto



Lá vamos nós de novo ao tradicional texto do concurso literário da revista piauí. O vencedor do capítulo VII foi o maranhense Franco Neviani, cujo texto está aqui. Já o meu foi este aí:

A VELHA DEBAIXO DA CAMA Capítulo VII - O Pacto

Eles até que tentam. Na volta pra casa, ela comenta do frio e ele repete o comentário; ela reclama da repetição e ele repete a reclamação. O infantil jogo de nervos segue por alguns minutos e acaba onde começa o tédio.

Depois é a vez dela. Pede que ele faça o jantar. Desdenha o ensopado e exige mais tempero. Queixa-se do excesso, devolve, quer que ele prepare com mais paciência. Por fim ela se cansa, é inevitável. E não trocam uma palavra pelo resto da noite.

É desnecessário verbalizar o óbvio: ao deixar de ser segredo, a competição de sadismo mútuo perdera o propósito, perdera a graça. Ora, se Mergulhão não é fantasma que perambula por aí vigiando a ex-esposa, não há sequer desculpa para dormir debaixo da cama. Pois é sobre ela, pela primeira vez, que Antônio e Maria repousam o corpo após o dia agitado. Não que o sofrimento tenha se extinguido por completo. O bafo fúnebre de Maria continua o mesmo, e Antônio ainda não é sombra do que fora Mergulhão em sua saudosa juventude. Mas isso não os impedia de pegar no sono antes, e não é isso o que atrapalha agora. São aqueles pensamentos que pairam no ar como uma nuvem chata e teimam em não sumir, esperando só que alguém tenha coragem de encaixá-los numa frase.

É Maria de Maria quem enfim quebra o silêncio:

- Dez milhões é muito dinheiro, né?
- É. Muito dinheiro – ele confirma, enquanto franze a sobrancelha.

Ela estende a pausa mais do que devia e prossegue:

- Mas cinco milhões ainda é uma quantia considerável.

Ele espera passar o calafrio pra falar:

- É, é uma boa quantia.

O diálogo pára por aí, mas o sono não chega até o sol aparecer.

Nos dias seguintes, Antônio e Maria de Maria vêem sua rotina transformada. Ela não o chama mais para as caminhadas matinais por entre as garbosas romãzeiras – às vezes, nem ela comparece aos próprios passeios, deslumbrada com a maciez do colchão que por anos só lhe serviu de teto. Mal conversam entre si, trombam-se pouco ou quase nada e não se atrevem a tocar numa vírgula do assunto. Quando chega a terceira noite, no meio do jantar, o clima torna-se tão insustentável que basta um olhar mais demorado para que tomem a decisão. E ninguém diz alto que o coronel é velho e fraco, odeia ambos e tem muito dinheiro guardado num cofre no porão de sua casa, cujo acesso secreto por uma tábua solta no armário Antônio já até conhece, e que é ridículo atazanar e ser atazanado diariamente até que surja um vencedor, quando é menos utópico e vagaroso buscar na fonte o que é direito legítimo de filho e viúva, ainda que viúva de fachada, ainda que filho bastardo.

Dizem apenas:

- Ok, como vamos fazer isso?

02/06/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo V - O porão



Chegou a minha vez de contribuir com a insólita trama de "A Velha Debaixo da Cama", obra escrita aos pedaços e publicada mensalmente na revista piauí, e que, dizem, será reunida em toda sua plenitude na edição natalina do periódico.

A edição 21 da piauí já está nas bancas e conta com o capítulo 5 de minha autoria, "O Porão". Antes, um resumo da ópera até agora. O capítulo em questão você confere logo abaixo e aqui também.

Resumo da obra: Antônio, o ex-garoto de cabaré que vive sob o jugo insaciável da viúva Maria de Maria Mergulhão, recebe uma carta que põe a pique seus planos de fuga para a liberdade. A carta parece ser do coronel Mergulhão – portanto não defunto como se pensava –, que propõe a Antônio uma fortuna em troca de sua permanência ao lado da viúva. Condição: fazê-la sofrer o quanto possível. Em busca de uma explicação para missiva tão misteriosa, Antônio vai fuçar num baú o passado de Maria de Maria e encontra a foto de um homem. Guarda-a e vai se olhar no espelho. Estremece.

Capítulo V - O porão

Antônio analisa a porta de madeira carcomida. Está ali parado há dez minutos, estranhando a casa, juntando coragem. Faz que vai bater, desiste no meio do caminho, desiste de desistir. Três toques breves bastam para que, ao colar o ouvido no mogno, já escute o ruído dos chinelos.

Havia andado o dia todo pra chegar até ali. Atravessara fazendas, cruzara riachos e por duas vezes quebrara a cara: a primeira quando entrou na casa de um senhor, proseou e tomou café, xingou e abraçou, e descobriu que não era ele o procurado; a segunda quando invadiu as propriedades de uma mansão, achando errado, e foi posto pra correr por perdigueiros pouco amistosos.

Mas agora tem certeza, e é essa certeza que tanto o incomoda. Pois é simplesmente inconcebível que essa casa velha seja o “lar, doce lar” do ilustre e ex-finado coronel Mergulhão.

– Pois não – diz o velho, cortês. Bate os olhos no rapaz e troca de feição. – Ah. Entra.

Antônio segue o velho – que mais podia fazer? Observa como ele anda: curvado, as pernas arqueadas, os passos descompassados de um pingüim. Mesmo corcunda, é mais alto que ele; ainda que trôpego, traz no rosto uma firmeza que o imberbe Antônio sequer já vira pessoalmente. Sem falar, é claro, na serenidade imponente do bigodão grisalho.

– Senta – manda o velho, sentando-se também. Depois dá um sorriso, como quem se diverte com a ansiedade alheia. Intimidado pelo olhar, é Antônio quem fala.

– Recebi sua carta.
– Eu sei. Você não estaria aqui por outro motivo.
– Na verdade, eu vim mesmo foi por outro motivo.
– Você veio porque duvida de um velho que já morreu. Não tiro sua razão.
– Olha, eu só queria...
– Deixa eu te mostrar um negócio.

O velho tem dessas. Levanta e vai, os outros que andem atrás.

Se por fora a casa é triste, por dentro é só inexpressiva. Nenhum quadro nas paredes, nada de adornos, pintura chocha. O quarto onde entram deve ser o dele. O colchão não está no chão, nem faltam as cobertas; mas aquilo está longe de ser a vida boa alardeada na correspondência.

O velho abre o guarda-roupa e puxa no piso uma tábua solta. Antônio esfrega os olhos – são degraus que vejo ali? – e acaba indo atrás do homem escada abaixo.

Leva um choque. O porão oculto sob o casebre esconde tanta coisa que Antônio não sabe onde prender o olhar: nas espingardas na parede dividindo o espaço com obras de arte, nas prateleiras acomodando livros antigos, na poltrona convidativa no meio da sala, na caixa de uísques chamando pro abraço. Vê o cofre metálico num canto e não duvida que ele possa abrigar os dez prometidos milhões. Nem precisa que o velho explique. Sabe que é ali o seu refúgio, seu canto escolhido para morrer sorrindo.

– Belo esconderijo – diz Antônio sincero, sem a ironia que a frase aparenta. – Mas olha, realmente eu vim pra outra coisa.

Tira do bolso a foto amarelada e o velho ri.

– Achei que ela guardasse essas coisas com mais cuidado.

– Ela guarda, eu é que sou atrevido. – Mostra o verso com o recado manuscrito, “De quem não consegue mais viver sem teu perdão”, e emenda: – Que quer dizer isso?

O velho é seco.

– Usou a palavra certa: atrevido.

– Coronel – Antônio o chama pela patente, pela primeira vez. – Tenho motivos para acreditar que o senhor manteve um relacionamento extraconjugal durante seu casamento e que eu...

A campainha interrompe o discurso, mas o velho vê com naturalidade.

– Faça um favor e abra lá pra mim. Deve ser o rapaz que pago pra ficar de olho em você.

Antônio sobe com raiva. Sente-se frustrado; “esnobado” definiria até melhor. Encara a porta de mogno e decide espiar pela greta antes de abrir.

Estremece, então: é Maria de Maria.

02/05/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo IV - Nove círculos



Vocês devem ter percebido que o rocambólico concurso a 100 dedos da piauí é o principal responsável pela presença de novos textos por aqui. De fato, ando relapso - como sempre fui - em relação à escrita de posts sem prazos ou incentivos financeiros. Se alguém se dispuser a depositar uma quantia periódica em minha conta bancária, prometo pensar em abandonar a preguiça. Enquanto isso, contentem-se com os deslocados capítulos de um folhetim imprevisível. Está aí a minha quarta tentativa:

A Velha Debaixo da Cama
Capítulo IV - Nove círculos

Pela primeira vez desde o primeiro dos passeios matinais, Maria viu Antonio sorrir. Achou que fosse pelos seus relatos nostálgicos, pelas peripécias do falecido coronel Mergulhão narradas com tanto brilho e dramaticidade, ó como ele era garboso, ó como era gentil. Tolice: o sorriso lento nada tinha a ver com suas palavras, que ele ignorava sem pudor, mas com o plano deliciosamente diabólico que acabara de elaborar. Pois se de morto Mergulhão passara a ex-finado, Antonio seria ex-fujão só pra papar os dez milhões que o coronel lhe tinha prometido, com a única e exclusiva condição de fazer a danada da velha sofrer. Ela não apenas sofreria: sofreria com estilo. Afinal, refletia Antonio, que mal havia em se divertir um pouco?

Arquitetou o inferno com uma cadência quase musical. Primeiro os movimentos lentos: adagio, andante, uma tampa do vaso levantada aqui, uma cueca abandonada ali. Se um dia acordava amável e carinhoso, no outro arrotava na cara das visitas. Aprendeu a roncar. Desenvolveu manias – expressões faciais, vícios verbais, obsessões pouco ortodoxas, hábitos sujos. Tudo bem dosado, tudo insuportavelmente calculado. Deu asas, rabo e chifres à imaginação e até ele se surpreendeu com a quantidade de aborrecimentos que era capaz de infligir, da culpa ao arrependimento, da vergonha à irritação.

Não era o bastante. Se seguisse bancando o chato de galochas, Antonio acabaria sendo posto pra correr, e não há nada mais patético que uma bunda jovem levar um pé da terceira idade. Maria de Maria não tinha que sofrer por ter escolhido o amante errado; precisava se sentir como o que era, uma senhora desgastada, uma velha obsoleta. Ele tratou de estimular a amarga sensação. Mexia os lábios sem falar, instigando uma surdez que ainda não existia. Sabotava seus guisados, errando a mão às escondidas e a matando de vergonha perante a vizinhança. Arregalava os olhos quando ela servia a janta (“Mas nós acabamos de jantar!”) e plantava a dúvida: distração ou Alzheimer? Maria cismava e Antonio adorava: para ele, dia após dia era primeiro de abril.

Não era o bastante. Maria ainda não se tornara a miséria humana que ele intencionava, o trapo triste e abatido a um passo do suicídio. Vez ou outra até sorria, o que, convenhamos, era um atrevimento. Ele, orgulhoso, só aumentava o repertório: ofensas, sarcasmos, carrapatos no travesseiro, assombrações simuladas, convulsões fingidas, piadas fracas, tudo era matéria-prima para abaixar o astral da velha. Só evitava ataques físicos porque, se por ventura ela quebrasse a bacia e precisasse ficar de molho por dois meses ou três, seria ele o incumbido de servir papinha naquela boca murcha.

Até que uma noite, irritado com a paz de espírito que Maria ainda aparentava, Antonio viu se farto e decidiu jogar a última cartada. Foi só no dia seguinte, um sábado calmo, clima ameno, poucas nuvens, que ele abriu os olhos e compreendeu, pelo cheiro, que talvez tivesse exagerado.

02/04/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo III - Sinuca de bico



O pundonoroso concurso a vinte mãos da piauí continua de vento em popa, revelando desta vez o terceiro capítulo vencedor. O gancho desta vez era mais ardiloso e resolvi escrever bobagem mesmo. O resultado está logo aí embaixo.

Recapitulando:

Capítulo I - O rato (Ciço Léo)
Capítulo II - Quase volta à ilha (Rodolfo Viana)
O Capítulo III vencedor - A proposta (Cláudio Parreira)

Um resumo da coisa pra quem tiver preguiça de ler tudo:

No eletrocinético capítulo I, Antônio, o ex-garoto de cabaré, acorda cansado da vida ao lado da viúva Maria de Maria Mergulhão. Ela o suga, exige dedicação constante e é dada a esquisitices como obrigar o mancebo a dormir a seu lado sob a cama, outrora ocupada pelo defunto marido, um coronel tão ciumento quanto violento. Decidido a fugir, Antônio sobe ao sótão para recuperar a sunga e a camisa furta-cor de seus tempos de go go boy. No langoroso capítulo II, Maria de Maria flagra Antônio no momento da fuga e lhe entrega um maço de cartas encontrado na soleira da porta. Após folhear o conjunto com desinteresse, ele se detém no quinto envelope. Lê o nome do remetente e, como nos bons folhetins d’antanho, empalidece... Tan-tan-ran-tan...

E finalmente, a minha versão:

A Velha Debaixo da Cama

Capítulo III - Sinuca de bico


Antonio poderia ter ignorado qualquer correspondência que chegasse às suas mãos e continuado firme o nobre intuito de pôr sebo nas canelas, fosse ela o que fosse, um aviso do Exército alertando para a guerra iminente e pedindo que todos construíssem um abrigo nuclear de pau-a-pique seguindo o passo-a-passo em anexo, um telegrama do Laboratório Família Feliz informando que parabéns, ele era semi-pai de uma criança gerada por fertilização in vitro a partir do óvulo obsoleto de Maria de Maria, o esperma coletado enquanto ele dormia e o sêmen congelado do Coronel Mergulhão, ou mesmo uma carta escrita por si mesmo no passado recordando sua contraparte futura de que a vida na boate não era assim um jardim de borboletas e que devia dar graças à velha pela oportunidade de sair da perdição. Tudo isso teria feito Antonio repensar sua decisão por um minuto ou dois, até que a bocarra asquerosa de Maria o trouxesse de volta à desgostosa vida de marido. Tudo, menos o que o envelope pardo realmente aconchegava no interior: a edição semanal de sua assinatura da revista Fuxicos & Fofocas.

Não houve o que ponderar. Como poderia Antonio dar no pé e privar-se do deleite que era ler as baixarias perpetradas por artistas, as travessuras dos cantores quando atrás dos holofotes, as safadezas que pareciam ensaiadas e lançavam a incerteza: meretriz ou mera atriz? Não podia, e Maria sabia, a danada. Ela encorajara a assinatura, ela espanava o pó da coleção que ele estocava sob a pia do banheiro, ela via o vício dele como bênção e disso não podia reclamar.

Enquanto andava pelos pomares, ombro a ombro com a esposa, ouvindo o orvalho das romãzeiras gargalhando da sua cara, Antonio avaliou alternativas. Podia escapulir como queria e voltar semanalmente pra resgatar seu exemplar. Claro, claro. No mínimo encontraria a revista ruminada pelos perdigueiros malcriados de Maria. Morar no cabaré e solicitar à editora uma mudança de endereço era viável, mas Antonio agüentaria a chacota dos colegas ao perceberem que só saía na rua após consultar o horóscopo e saber se era dia de transcender o individualismo e ou se o momento era para repensar a primazia da matéria sobre a espiritualidade?

Ao chegar da caminhada, Antonio era um homem em crise de abstinência. Fugir já não tinha tanta urgência: precisava inebriar-se com o aroma da tinta impressa, contemplar os palmeirais que adornam as casas das celebridades, alimentar-se de informação em sua forma mais vã. Foi o que fez com avidez durante as horas que se seguiram, esquecendo o café, o almoço, o chá das cinco regado a biscoitinhos de limão. Ao emergir da leitura, porém, sentia-se vazio novamente, e não era só o buraco negro estomacal. Percorreu o bangalô estranhando o silêncio, notou a mesa da sala parcialmente posta para o jantar e, ao entrar na cozinha, deparou-se com uma cena tão disparatada que nem os sórdidos roteiristas da fotonovela da Fuxicos & Fofocas seriam capazes de inventar.

*****

Em tempo: A Saga de Tião está chegando ao fim da temporada e o capítulo XXIV, o penúltimo, está aguardando a sua leitura.

05/03/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo II - O mato



E continua o indefectível concurso a vinte mãos da piauí. Minha versão do capítulo II de A Velha Debaixo da Cama não foi escolhida como a oficial, mas como de costume publico neste blog.

Recapitulando:

O Capítulo I, do cearense Ciço Léo, encontra-se aqui.
O Capítulo II vencedor, do paulista Rodolfo Viana, pode ser lido aqui.
O meu Capítulo II, que permanecerá eternamente inacabado, está aqui ou logo abaixo:

A Velha Debaixo da Cama

Capítulo II - O mato

Ao longo das noites em claro que passava com a velha debaixo da cama, Antonio já havia arquitetado e abortado vários planos como aquele. O mais simples demandava apenas roupa do corpo e disposição para correr. O mais ambicioso envolvia um suicídio forjado e um subseqüente monumento em sua homenagem plantado ao lado do altar erguido para o Coronel Mergulhão.

A fuga que Antonio pretendia levar a cabo naquela manhã ficava no meio termo. Tinha deixado de lado a trabalhosa simulação da própria morte, mas também não queria encarar sem nada nas mãos os dois dias de caminhada ao vilarejo mais próximo. Apressado, vasculhou no sótão os apetrechos que julgava imprescindíveis: canivete, guarda-chuva, um cantil com água e outro com conhaque, a bússola defeituosa que apontava o noroeste, tesourinha de unha. Embrulhou o kit-fuga junto com uma muda de roupas e se mandou pela janela do sótão antes que Maria de Maria, que ainda o aguardava pacientemente para a famigerada caminhada matinal, aparecesse pra saber do amante.

Antonio equilibrou-se sobre o parapeito, desceu rezando pela calha podre e aterrissou no jardim dos fundos. Espiou o bangalô por uma última vez e começou a escapada sem remorso, esgueirando-se pelas vistosas pitangueiras que cercavam o casarão.

Nas primeiras horas caminhou depressa. Maria de Maria criava perdigueiros e era bem capaz de esfregar em seus focinhos uma das cuecas que ele deixara para trás. Depois que a mata estava densa o bastante, parou um pouco para respirar e finalmente festejou a liberdade. Fartou-se com jaboticabas, empanturrou-se de caquis, deleitou-se com as goiabas e amargou feliz a dor de barriga resultante, pois estava livre e aquilo não tinha preço.

Dormir no meio do mato, no entanto, não foi assim tão diferente das noites anteriores. O cimento gelado e as lamúrias da velha foram trocados pela grama que pinicava as costas e os intimidantes sons da natureza. Antes de cair no sono, Antonio se pegou lembrando a noite em que conheceu a viúva. Sentado ao piano, dedicara a ela um tango arcaico e, enquanto ela pensava “que gracinha”, ele refletia: essa velha deve ter dinheiro.

O dia amanheceu irônico – Antonio abandonara Maria, mas não se safara de uma andança matutina. Retomou a viagem com alguma culpa. Não precisava ter fugido assim, sem um tchau de gratidão à mulher que lhe dera teto para morar e chão para dormir. Velhas são velhas por definição, em poucos anos a viúva partiria para o encontro derradeiro com o saudoso Mergulhão e, afinal de contas, Antonio teria uma polpuda herança pela frente.

Quando retornou ao sítio, livre do peso na consciência e devidamente munido de um arsenal de explicações, notou um rebuliço: vizinhos, empregados e homens de terno aos cochichos ocupavam a porta do casarão. Aproximou-se apreensivo e quis saber o que era aquilo.

- O que aconteceu? Cadê Maria de Maria? – perguntou ao primeiro que encontrou. A resposta veio sem rodeios:

- Morreu, bicho besta, morreu!

04/02/2008

A Velha Debaixo da Cama - Capítulo 1



A revista piauí inaugurou um novo concurso literário, uma história seriada cujos 10 capítulos serão escritos pelos vencedores do ano passado. O pontapé inicial era uma frase prosaica: "Antonio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera". Fiz meu texto baseado num argumento de André Paio, meu pai, que viu na frase uma possibilidade de narrar a chegada de Augusto Paio, meu bisavô, ao Brasil. Não foi dessa vez, mas ainda tenho nove chances ao longo dos próximos meses. O texto vencedor está aqui. Já a minha versão, que ficará para sempre inacabada, vem a seguir:

Antonio e Maria - Capítulo 1

Antonio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera. Engolindo a surpresa, gritou que subisse. Tirou do guarda-roupa uma cara bem lavada, pôs no bolso um punhado de desculpas e andou até a sala tentando incorporar um papel apropriado. Quando ela apareceu, carregando uma trouxa de panos, ele acabara de descartar o de amante ressentido e vestir-se de amigo com saudades.

- Maria, Maria! Faz o quê, uns oito meses?
- Doze meses, disgraziato. Precisamente doze meses.
- É que pra mim parece que foi ontem...
- Parece, né? E uma coisa dessas brota assim, do dia pra noite.

A coisa dessas não era um saco de roupas como ele supunha, mas um ser vivo de olhos grandes e tranqüilos, embrulhado em cobertores.

- Este é o Augusto. Não é a minha cara?

Não era. O nariz pomposo, a sobrancelha modesta e o queixo furado, quase dividido, não se repetiam na face dócil de Maria, embora estranhamente abundassem na de Antonio. Tinha três meses de vida e o encarava com uma naturalidade quase incômoda.

Em seguida, ela mostrou a carta.

- Pra mim?
- Pra mim. Do meu irmão. Chegou semana passada.

Antonio correu os olhos, ignorando os garranchos mais safados. Depois perguntou, preocupado, se ela estava mesmo disposta a abandonar uma vida serena pra tentar a sorte num continente incerto e hostil, à mercê das intempéries. Ela ouviu com pena o palavrório e disse apenas: estou indo embora na sexta.

- É um convite? – ele sorriu amarelo.
- É um comunicado. Só vim aqui pro Augusto ver você uma vez na vida.

Quatro dias depois, Antonio zarpava com ela e o menino num navio para a América, respirando pela última vez o ar do Vêneto e ouvindo o século dezenove agonizar. Tinha aparecido no porto de supetão, sugerindo que ela pegasse uma embarcação alternativa, mais vazia e mais barata. Precisou levá-la pelo braço até o comandante para que ouvisse que sim, este navio está indo pra América, não, você não terá que remar, até que ela cedeu e subiu com Augusto a escadinha do navio. Só não entendeu quando Antonio deixou no ar um boa-sorte-em-sua-nova-vida e fez que ia voltar.

- Como assim, você não vai?
- Não, não. Vou ficar. Minha vida é aqui.
- E trouxe essas malas só pra elas conhecerem o mar?
Antonio até olhou nos bolsos, mas não encontrou desculpas sobrando.

A viagem transcorreu em paz. Fã declarado da terra firme, Antonio acabou se acostumando à dança louca do mar e só uma ou duas vezes batizou o convés com o almoço ruminado. Maria, que passava os dias tricotando cachecoizinhos sem dizer palavra, com o tempo se dispôs até a papear.

Ao final de várias semanas, estranhando o clima quente incompatível com o inverno que esperavam, Maria resolveu saber de um tripulante se tinham previsão de chegada. Voltou à cabine um pouco intrigada: Nova Iorque ele diz que não sabe, mas no Rio de Janeiro a gente aporta amanhã.

Antonio, sossegado, nem se perturbou em abrir os olhos.
- Esquenta não, deve ser perto, de lá a gente aluga uma carroça – e voltou a atenção à soneca.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

Busca no blog

Leia MACADÂMIA

Leia MACADÂMIA
MACADÂMIA: disponível na Amazon em versão física & e-book Kindle

Ouça

Ouça
Sifonics & Lucas Paio - A Terra é Plana

Mais lidos

Leia também


Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crônicas de um mineiro na China


Uma história parcialmente non-sense escrita por Lucas Paio e Daniel de Pinho

Arquivo

Contato

Nome

E-mail *

Mensagem *