25/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 18

Em maio de 2008...



Shut up and drive

Meu sonho de consumo na categoria videogames de carros sempre foi um GTA situado em Belo Horizonte. Não que esteja na minha lista de prioridades, no mundo real, explodir um tanque na Praça Sete ou afundar um Cadillac na Lagoa da Pampulha. Mas dirigir numa cidade real que eu conheça bem, como se não houvesse amanhã ou normas de conduta em sociedade, seria uma experiência interessante.

E olha, acho que isso não tá longe não. Primeiro o Google Earth lançou uma versão em 3D de Berlim, com minúcias como a bandeira da Alemanha que flamula sobre o Parlamento. Agora inventaram o Google Drive, um aplicativo simples que permite que você dirija sobre os mapas do Google Maps - todos os mapas, do mundo inteiro. Não chega aos pés nem do primeiro GTA (tá mais pro Enduro do Atari, aliás), mas tem tudo lá: é só digitar o nome da cidade (London, New York, Belo Horizonte, Birigüi) e guiar o carrinho pelos becos. Bom para quem, como eu, só guarda caminho se dirigir por ele antes.

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Em março de 2009...

Ainda não lançaram o GTA Belo Horizonte, mas achei um plug-in pro Vice City do De Volta Para o Futuro que é fantástico. Dá pra dirigir o DeLorean, voar, pilotar a locomotiva... Missões? Não tem nenhuma, mas o que interessa é atropelar pessoas e viajar no tempo!

24/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 17

Em novembro de 2007...



Top Secret Area

Cartucho de hoje: Street Fighter II

Ganhei o Street Fighter II junto com o Super Nintendo, numa época em que o II Turbo já possibilitava jogar com os chefões, repetir personagens e teleportar o Dhalsim. O Street Fighter II não trazia essas mamatas. Você tinha que jogar no braço e ganhar de todos os personagens pra ver a cara do M. Bison (e não Mr. Bison, como muita gente achava). Como as opções eram poucas, a gente explorava ao máximo

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Em março de 2009...

"Top Secret Area" era uma seção que eu tinha imaginado sobre jogos de videogame que marcaram minha infância. Street Fighter foi, sem dúvida, o principal. (Com Super Mario World vindo em segundo lugar.) Quando tinha 9 anos, minha rotina diária era escola, almoço e Street Fighter. Em 1995, fizemos um campeonato de Super Street Fighter II lá em casa. O filme é um dos piores de todos os tempos, mas na época assisti duas vezes no cinema. Lançaram o Street Fighter IV esses dias e vem filme novo por aí, mas a melhor adaptação vai continuar sendo o brilhante Street Fighter - Later Years, do College Humor.

23/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 16

Em outubro de 2007...



Lamento

- A tecnologia tá matando a arte, sabia?
- É mesmo?
- Bom era quando tinha LP. O disco grandão, com cara de disco, com capa de disco. Aquele encarte gigante, com as letras enormes, que dava pra ler. Não essas letrinhas miúdas de hoje. Eu não quero precisar de óculos pra apreciar um disco, sabe?
- Sei, sei.
- Mas o melhor era o conceito de dois lados. Lado A, lado B. Uma obra com duas metades. O cara tinha que preocupar com a música de abertura do disco, a música que fechava o lado, a música que abria o lado B... as canções que ficam nos extremos são muito importantes. Dão uma cara pro disco. Sabe como é?
- Sei.
- Aí surgiu o CD. Eliminaram o lado B. Estraguei meu primeiro som assim. Tentando ouvir o lado B do CD. Não fazia sentido pra mim eles terem eliminado a segunda metade.
- É. Complicado.
- Mas o álbum, como obra, um disco inteiro, várias músicas pensadas pra serem ouvidas naquela ordem, isso continuou existindo. Mas aí começou a onda de pegar música na Internet. Percebe o que aconteceu?
- O que aconteceu?
- Todo mundo só baixava música avulsa. Uma faixa de cada vez. Um artista de cada vez. É como se todo mundo assistisse só as cenas ao invés do filme inteiro. Lamentável. Lamentável, cê tá me entendendo? A arte acabou. O lado A e o lado B se condensaram, se desmembraram e agora são só isso, retalhos musicais, canções soltas sem identidade. Tá entendendo como isso é ruim? Tá me ouvindo?
- Tô te ouvindo, tô te ouvindo. Mas pelo amor de Deus, pô. Vira o disco!

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Em março de 2009...

O pior de tudo é que a indústria passou a década sem conseguir se adaptar, e ainda lança mão de recursos duvidosos como proibir a comunidade Discografias. Ainda ouço muito vinil e baixo muita mp3, mas só Deus sabe a última vez que comprei um CD...

22/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 15

Em outubro de 2007...



Esta não é uma resenha do In Rainbows. É um texto com base em memórias pessoais. O fio central que une essas memórias, por acaso, é o Radiohead. Uma banda que divido em duas fases. A primeira vai até o OK Computer. Depois disso, não é que desandou. Mas eu prefiro música orgânica. Eletronizou demais, esqueço de ouvir. Mas desde o Pablo Honey eles já eram menos rádio e mais cabeça. Minha lembrança mais antiga do Radiohead vem da propaganda do Carlinhos. Carlinhos faz aula de piano, o amigo dele não. Ei, esse é o Carlinhos. Quando a década acabou, eu tinha quinze anos e estava mais interessado em ouvir Nirvana, que disputava com o OK Computer o posto de melhor disco dos noventa. Fui ouvir o Pablo Honey direito num sítio. Ripcord ficou na cabeça e ainda me lembra violão no quarto, centro de Belo Horizonte, amores mal resolvidos. Dele pulei pro tão falado Computer, toquei Karma Police no violão umas quinhentas vezes, usei Paranoid Android pra me deixar no clima de escrever diálogos depressivos para um livro que nunca terminei. Baixei o The Bends, que surpreendeu por ir muito além da famigerada Fake Plastic Trees. Se for pra escolher um só, fico com o The Bends. O Kid A não me apeteceu nem um pouco, admito. Talvez por isso, nunca cheguei a ouvir o Amnesiac. Bota na lista de discos que preciso baixar. No álbum seguinte tem 2 + 2 = 5, canção

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Eu ia elogiar 2 + 2 = 5, uma das poucas canções que gosto no Hail to the Thief. Mas escutei o Kid A recentemente e me apeteceu muito mais. Vai entender.

21/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 14

Em dezembro de 2006...



Anne Frank
Diário de Uma Jovem


Às vezes os diários são mais interessantes que autobiografias por causa do fator "calor do momento". Na autobiografia o cara lembra de histórias passadas, brigas que já foram, e examina tudo à luz das conseqüências. Se com o passar do tempo aquilo perdeu importância pra ele, periga ele nem mencionar no livro, e com isso

No diário não: a menina tá puta com a mãe, vai lá e solta os cachorros com o amigo imaginário de celulose.

diários diferente de autobiografias, diários mostram o que a pessoa achava daquilo no dia, autobiografias são escritas depois, quando os animos ja esfriaram, a pessoa ja mudou, às vezes autobiografias não mencionam certas pessoas com quem o autor conviveu durante ano pq essa pessoa ja perdeu importancia pra ele, mas se fosse na epoca mencionaria

É por razões como essa que o diário de Anne Frank se torna uma leitura fascinante. Escrito numa fase especialmente conturbada para garotas, dos seus 13 aos 15 anos, durante um período mais conturbado ainda para a humanidade, de 1942 a 1944.

O diário começa com um relato bem-humorado do dia-a-dia de Anne na Holanda, a escola, os namoricos,

Poucas páginas depois, porém, sua família é obrigada a escapar da perseguição aos judeus e se mudar para um esconderijo num prédio no centro de Amsterdam, apelido por seus ocupantes clandestinos de "Anexo Secreto".

poucas paginas após o início do diário, que começa com um relato bem-humorado do seu dia-a-dia na Holanda, a família de anne foi obrigada a se mudar para um esconderijo, num prédio no centro de amsterdam, apelidado de "Anexo Secreto" por seus ocupantes clandestinos. junto de anne, seus pais e sua irmã, também viveram nesses 2 anos uma outra família e um dentista avulso. eram ajudados por outras pessoas.

curiosidades como as "Regras do Anexo Secreto", escrita por um dos moradores, com trechos como: "Todo idioma civilizado é permitido, portanto nada de alemão"

Brigas por causa de banalidades e todas as angústias adolescentes por que ela passava convivem no diário com minuciosas descrições sobre a moradia, o cotidiano do esconderijo, as comidas ou a falta delas, o banheiro, o medo de serem pegos e as notícias da guerra, que vão se tornando cada vez mais freqüentes nos relatos de Anne à medida em que a guerra se aproxima de um fim, culminando com o desembarque dos aliados no Dia D e a esperança de que a Holanda seja libertada da ocupação alemã.

De fato foi. Mas em agosto de 1944,

ainda hoje há dúvidas sobre a autenticidade do diário
no epílogo: "À parte algumas passagens, que pouco interessariam o leitor, foi impresso o texto original."

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Em março de 2009...

Taí um texto realmente inacabado: parágrafos incompletos, rascunhos desleixados e um monte de frases que terminam no meio. Dois meses depois eu tive a oportunidade de visitar a casa de Anne Frank, uma experiência realmente

20/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 13

Em novembro 2006...



No dia em que for eleito vereador, já tenho o primeiro projeto de lei que apresentarei. Mas não será para instituir pontos de amarração de cadarço nas calçadas, ao contrário do que venho dizendo ultimamente (apesar de que ainda a julgo uma boa idéia... quem tem All Star com cadarço de três metros sabe do que estou falando).

Meu projeto é para regulamentar os nomes de ruas da cidade.

1) Ponto principal: os nomes devem ser pronunciáveis por qualquer cidadão brasileiro. Não devem restar dúvidas quanto à sua grafia.

2) Se quiser homenagear alguém, é nome e sobrenome. Nada de colocar o nome completo do Dom Pedro. E convém evitar as profissões mais complicadas. "Otorrino Otto Renault"

Junto com o projeto, eu apresentaria um detalhado estudo sobre a quantidade enorme de dinheiro perdido por ano por causa de confusões de nomes de ruas. Correspondências e encomendas extraviadas, tempo gasto no telefone ("Apgaua... A-pê-gê-ú-á... não, não é Apágua, é Apgaua!", etc), gente perdida por confundir ou não lembrar o nome da rua...

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Em março de 2009...

Não pretendo me candidatar pelos próximos trinta anos, mas se alguém quiser apresentar o projeto na Câmara, fique à vontade.

19/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 12

Em outubro de 2006...



O grande malandro da praça

Chico Buarque é um farsante. Depois de passar uns bons quatorze anos tendo o cara em alta conta por ser ele o mentor da zôo-ópera Os Saltimbancos, o compositor de canções tão díspares de sua obra usual como "A Cidade Ideal"

Top 4 canções saltimbânquicas:

4. Minha Canção
3. A Cidade Ideal
2. História de Uma Gata
1. Todos Juntos

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Em março de 2009...

Como não terminei nem a segunda frase do post, deixei de explicar o motivo do "farsante": sempre tinha achado que Chico Buarque era o compositor e letrista de todas as canções dos Saltimbancos, disco fantástico que tem a Nara Leão, a Miúcha e outras figuras, além de músicas excepcionais como as citadas acima. Na verdade, ele traduziu as letras para o português, a partir do original em italiano de Sergio Bardotti (texto) e Luiz Enriquez (música). Não deixa de ser uma excelente adaptação, mas que não é dele de verdade, não é. Tem um DVD muito bom sobre a obra, "Chico Buarque - Saltimbancos", décimo primeiro de uma série de doze. Assistam.

18/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 11

Em agosto de 2006...



Leve desespero

Domingo. Criança Esperança. Capital Inicial cometendo playback. O baterista faz uma dancinha e sacode o pandeiro meia-lua, mesmo que, no áudio, a bateria coma solta. Black Gold Dinho grita "Que país é esse?". O sonoplasta responde com a crássica vinhetinha: "Brasil-sil-sil".

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Em março de 2009...

Acho que não resta mais nada a comentar.

17/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 10

Em fevereiro de 2006...



Em poucos dias, Katilce deixou de ser uma mera baranga que beijou o Bono pra virar ícone da internet, mito do orkut. Mais que isso: virou instituição. Reles desconhecida na segunda-feira, na terça ela já era reportagem em todos os telejornais e a homenageada em 50 comunidades no orkut. Na quarta o número pulou de 50 pra mais de 800, e hoje já passam de mil (isso porque o orkut não mostra mais o número quando ultrapassa o primeiro milhar). Quarta à noite e Katilce atingiu a marca história de um milhão de scraps.

De início as mensagens eram todas endereçadas a ela, mas logo seu scrapbook virou espaço público, visitado por centenas, talvez milhares, de pessoas ao mesmo tempo. Virou chat. Pessoas fazem amizades, tentam vender suas bugigangas e divertem-se à beça no scrapbook da moça. "Te vi na Katilce" virou bordão e nome de quinze comunidades diferentes.

A diversão ontem à noite, enquanto contribuíamos para chegar a um milhão de scraps, era fazer com que desconhecidos postassem mensagens non-sense em nosso próprio scrapbook. Fiz um teste e escrevi assim: "Me viu? Escreva Y no meu scrap". Ganhei cinco ípsilons, um X e uma mensagem assim: "Y e viva o Chuck Norris pelado!" Sucesso total.

O audacioso passo seguinte foi tentar fazer com que desconhecidos postassem em scrapbooks alheios.

Qual será o próximo passo?, as pessoas perguntarão. Um portal katilciano, com domínio www.katilce.com.br? E se eu te disser que já existe?

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Em março de 2009...

O portal katilciano não existe mais e definitivamente não se fala dela hoje como há três anos, mas ainda restam algumas centenas de comunidades no orkut em sua homenagem. Quem sabe na nova turnê do U2 ela não volta à grande mídia?

16/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 09

Em novembro de 2005...



E se as pessoas fossem coloridas?

- Pai, tenho que te contar uma coisa.
- O quê, minha filha?
- Eu... eu conheci um cara amarelo.
- Amarelo??
- É, pai. Um amarelo meio ouro.
- Minha filha, você sabe o que eu penso a respeito disso.
- Sei, pai. Que a gente carrega essa nossa tonalidade azul há tantas gerações, e blá, blá, blá.

>> Alternativa bélica: haveria guerras por todo mundo, pois cada raça se adaptaria melhor a um tipo de lugar. As pessoas verdes às florestas, as azuis aos rios e mares, as marrons às montanhas, as brancas à neve. Pessoas rosas, claro, seriam todas dizimadas.

>> O Green Peace teria que mudar de nome pra não passar por grupo racista.

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Em março de 2009...

O arremedo de idéia das pessoas coloridas não chegou nem a ser desenvolvido, mas o Blue Man Group e o Dr. Manhattan tão aí pra provar que provavelmente elas fariam sucesso.

15/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 08

Em agosto de 2005...



O princípio que às vezes se aplica ao vestuário
Lembra um pouco o que ocorre com os cães
Assim como certas roupas são relegadas ao armário
Algumas raças somem do mapa como infelizes capitães

É só pensar quanto tempo faz que você
Não vê nas ruas um doberman, um fila
Enquanto ainda se proliferam poodles e bassets

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Em março de 2009...

Um dia vi um dálmata na rua e fiquei pensando como raças caninas caem de moda: qual foi a última vez que você viu um pequinês, por exemplo? Comecei a escrever um soneto sobre o tema, mas tava tão ruim que não tive pudor em abandoná-lo.

14/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 07

Em agosto de 2005...



Este é o centésimo post do bISELHO, e deu vontade de voltar a contar histórias. No começo do blog eu falava dos tombos engraçados, da visita ao zoológico e dos primeiros de abril que eu tinha passado. 100 posts depois, vejo que tenho escrito bem mais sobre discos, filmes, sites que descobri, e resolvi contar alguns casos do passado pra variar um pouco.

Daí lembrei do reveillón de 2000 pra 2001, virada de século, que passei na Bahia, na primeira vez em que me aventurei na região nordeste brasileira. Fui com meus pais e meu primo Bruno. A intenção era subirmos de carro até Ilhéus, mas as muitas e muitas horas na estrada nos cansaram e nos fizeram pesquisar num guia de viagem alguns hotéis numa cidade mais perto que nosso destino original. Chegamos ao Quiriri Park Hotel, na cidade de Prado, na tarde do dia 27 de dezembro, e nos estabelecemos em dois quartos, um para meus pais e outro que dividi com o Bruno, onde tínhamos, com certa freqüência, problemas com baratas.

Não havia realmente muito o que fazer na cidadezinha. Tinha uma feirinha noturna, um monte de lojinhas de bugigangas e praias apenas razoáveis, como a da praia da Barraca 51, a melhor que encontramos por ali. Nossas manhãs de sol, na verdade, eram mais dedicadas a passear pelos arredores do que ficar em Prado. Fomos à praia do Tororão, ao balneário de Guaratiba, à farofada de Alcobaça e à impronunciável Cumuruxatiba. O melhor lugar que achamos foi Guaratiba, uma espécie de condomínio fechado misturado com praia, onde os garçons que nos serviam não faziam jus às boas ondas que o mar de lá nos oferecia.

O cúmulo foi o diálogo que tive com um garçom:
- Me traz uma Coca.
- Só tem Pepsi – disse ele.
- Então traz uma Fanta.
E, quando vejo, ele tinha me levado um Guaraná.

Guaratiba e as demais praias vizinhas eram em geral melhores que as de Prado, e o sol tão forte quanto, e o resultado foi que me queimei feio no lugar menos improvável, o peito do pé, onde tinha esquecido de passar protetor solar. Demorei uns dois dias para conseguir calçar um simples chinelo, e tive que caminhar descalço pela cidade quando íamos jantar à noite em restaurantes como o “Bânâna” da Terra, acentos circunflexos meus numa imitação da pronúncia local. Na falta de um creme pós-sol para aliviar o ardor do pé, a única solução foi passar Hypogloss. Na manhã seguinte, cometi o terrível erro de brincar com o pé na areia, que grudou toda na pomada, causando arranhados irritantes quando precisei, no banho, tirar a mistura grudenta do peito do pé.

Nossa rotina de praia de manhã/hotel de tarde/restaurante à noite durou até o último dia do ano, e também do século e do milênio, quando estávamos todos meio queimados e o dia ainda amanheceu meio nublado, e em vez de irmos à praia decidimos pegar o carro e dirigir até o Monte Pascoal, o primeiro monte de terra que a esquadra de Cabral avistou no dia em que chegou a Porto Seguro.

Assim que chegamos lá, os pataxós que nos receberam indicaram o caminho para o Centro de Visitantes, que não tinha muita coisa além de uns mapas e um jaboti, que um indiozinho se apressou em colocar no chão pra andar quando viu que tinha gente chegando. A grande atração turística do parque era mesmo a caminhada até o topo do Monte. Quando expressamos o desejo de subir até lá em cima, o jovem índio que seria nosso guia olhou pros meus pés calçados apenas com chinelos e perguntou:

- Você não tem um tênis, não?

Eu não tinha, e logo entendi o porquê. A caminhada no Monte, que começava plana e ia ficando cada vez mais íngreme, era feita sobre um tapete imenso de folhas e mato, e eu tinha que olhar muito bem pra onde estava pisando porque os insetos que habitavam aquela região eram, digamos, um tanto maiores que os que eu estava acostumado. Um bom tempo depois, meu pai cada vez mais cansado do terreno cada vez mais difícil, perguntou ao indiozinho que ia na frente quanto mais faltava até o topo, e ele respondeu:

- Uns dois terços.

Voltamos para o ponto de partida, desviando das formigas gigantes, sem nem ao menos atingirmos a metade da subida ao topo do Monte. Antes de ir embora ainda assistimos a uma apresentação de dança indígena, onde todos ficavam andando em círculos enquanto repetiam: “Pataxó subiu a serra, todo enfeitado de pena / Ele foi e ele é o guerreiro da Jurema”.

Do parque, em vez de voltarmos ao tédio do hotel, pegamos o sentido contrário da estrada e subimos ainda mais, em direção a Porto Seguro. Em uma tarde fizemos visitas rápidas à cidade e também aos seus “satélites”, Trancoso e Arraial d’Ajuda, cujo único acesso era por uma balsa que levava passageiros e carros por sobre o rio Buranhem.

O único problema era a axé music, uma constante por aqueles lados baianos. Não chegamos a ouvir uma música boa naqueles dias passados no Nordeste. A única rádio que tinha pra ouvir quando passávamos horas na estrada, como naquele 31 de dezembro, era a Pataxó FM, na qual ouvimos pela primeira vez, e várias outras vezes depois, uma das canções mais peculiares daquela época, Bomba, cantada pelos Braga Boys, que começava com os versos “Sensual, o movimento é sensual / Sensual, o movimento é bem sexy / Sexy, o movimento é bem sexy / Sexy, já tá chegando o Braga Boys com essa dança que é uma bomba...”.

Era essa a música que pairava nas nossas cabeças, quando chegamos ao hotel com o sol já posto e descobrimos que a luz tinha acabado, e isso que precisávamos tomar banho para sair e comemorar a passagem de ano. Tomar banho no escuro não foi tão difícil. Complicado mesmo era descobrir qual a cor das camisas que estavam no guarda-roupa e como pegar a branca pro reveillón, pois a única luz de que dispúnhamos, além do pisca-pisca de um farol tão longe que não adiantava nada, era a luz azul do meu relógio de pulso, que também não ajudava já que modificava a cor das camisas. Quando descemos pro saguão do hotel e conferimos, à luz de velas, se as camisas estavam mesmo certas, a energia ainda não tinha voltado e a maioria dos hóspedes estava lá embaixo, esperando a ceia prometida pela gerência do hotel, que só pôde ser realizada quando a luz voltou. Passamos as últimas horas do ano 2000 em busca de algum lugar onde ficar na hora da virada, e cogitamos até o show dos Braga Boys que estavam anunciando no centro de Prado, mas acabamos optando por uma prainha meio deserta, onde brindamos com champanhe e vimos os fogos em meio a várias contagens regressivas diferentes que ouvíamos.

Quando o século XXI chegou, a musiquinha do movimento sexy ainda continuava na nossa cabeça.

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Em março de 2009...

A década já tá quase acabando de novo, mas a saudosa canção dos Braga Boys pode ser relembrada no YouTube.

13/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 06

Em junho de 2005...



I hear dead people

Descobriram uma partitura inédita de Bach, até então displicentemente esquecida numa biblioteca alemã. Fantástico. Os fãs de Bach, que estão há mais de 250 anos sedentos por uma música nova do compositor, finalmente podem comemorar. Segundo Christoph Wolff, diretor da Fundação Bach, trata-se de "uma obra de excelente qualidade". Ainda bem que ele gostou. É o diretor da Fundação Bach, o presidente do fã-clube, vamos dizer assim. Imaginem se ele criticasse?

Se entre os compositores clássicos não é lá muito comum acharem partituras perdidas por aí, na música contemporânea a situação é outra: dá-lhe caixa de raridades do Nirvana, projeto Anthology dos Beatles, Let It Be Naked, fitas perdidas do The Clash, a lista é longa. Certos mortos trabalham mais do que alguns vivos. John Lennon, por exemplo. Lançou duas músicas inéditas com os Bítous na década passada, "Free As A Bird" e "Real Love", sem que fosse pedida sua opinião. O cantor Nat King Cole, depois de morto, gravou um dueto com sua filha, Natalie, onde "juntos" interpretavam "Unforgettable".

Mas o campeão é mesmo Renato Russo. O cara morreu em 1996 e desde então vem colecionando uma lista invejável de lançamentos: um álbum de inéditas com a Legião Urbana, um acústico, dois discos ao vivo, dois álbuns solos e participações em canções alheias. Por exemplo, Múmias, do Biquíni Cavadão. Tem até clipe, com uma cadeira "representando" Renato Russo (será que o menininho do Sexto Sentido consegue ver o cantor?).....

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Em março de 2009...

Quatro anos depois, os Beatles já lançaram um disco de remix e o Renato Russo lançou mais outro ano passado. E o U2 nesse ritmo lento de um álbum a cada cinco anos...

12/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 05

Em março de 2005...



Uns bicho estranho, com um tal de gergelim


Assisti ao Super Size Me, espécie de "Jackass" disfarçado de documentário onde o autor, diretor e protagonista passa 30 dias comendo exclusivamente produtos do McDonald's. É claro que ele fica um trapo. Numa determinada cena, um médico descreve seu fígado como tendo a textura de um patê.

É um filme interessante. Só que parte de um argumento um tanto quanto óbvio: comer no McDonald's todos os dias faz mal. Bah. Quem não sabe? Morgan Spurlock, o sujeito em questão, parece sofrer da síndrome de Michael Moore: documentários tendenciosos onde o diretor faz questão de dar as caras toda hora. Não sou particularmente fã do Michael Moore. Fahrenheit é muito bom, Tiros em Columbine é muito bom, mas vi uns trechos do primeiro filme dele, Roger e Eu, e passei a considerá-lo um chato de galochas.

Hoje eu não como muito no McDonald's por causa do custo/benefício. Um McChicken da vida custa hoje mais do que a promoção inteira, com refrigerante e batata frita, custava há uns anos. Não dá pra pagar nove, dez reais num negócio desses quando no próprio shopping, onde as coisas são sempre caras à beça, você pode pedir um sanduíche no supermercado

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Em março de 2009...

Quatro anos depois, a promoção do McDonald's está em vergonhosos quatorze reais. A previsão para 2019 é que apenas o hambúrguer custe vinte e cinco reais, mais quatro pelo guardanapo e sete e cinqüenta por um saquinho de catchup. É só esperar.

11/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 04

Em março de 2005...



Nove anos depois, completados hoje, eu ainda sei cantar na íntegra "Uma Arlinda Mulher", "Mundo Animal", "Lá Vem o Alemão" e todas as outras. E é impressionante como muita gente ainda sabe também. Quando toco uma dessas em churrascos ou no boteco de sexta-feira na faculdade, sempre juntam uns bêbados em volta, cantando tudo.

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Em março de 2009...

Tirando o fato de que não estou mais na faculdade - e de que não se passaram nove anos, mas treze (TREZE!) -, continua a mesma coisa. No último 2 de março, como de praxe, ouvi o cd na íntegra durante o café da manhã.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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