20/08/2009

Uppsala abaixo de zero



Uppsala, Suécia
9 a 11 de fevereiro de 2007

Música-tema: "Speedy Gonzales", de Stefan Sundström & Weeping Willows

A Suécia foi um diferencial na minha viagem. Brasileiro que vai a Paris ou Veneza não falta por aí, mas não são tantos os que se atrevem a conhecer a simpática e gelada cidade de Uppsala, 70 quilômetros ao norte de Estocolmo. Uppsala abriga a universidade mais antiga de toda a Escandinávia, a Uppsala Universitet, fundada em 1477. Cabral nem sonhava em pisar na Bahia e calouro já levava trote na Suécia. Muitos alunos notáveis se formaram lá, entre eles Lineu, o cara que criou os nomes científicos da biologia, e 15 ganhadores do Prêmio Nobel - e você feliz por ter ganhado o Criafest.

Pernilla, que também estuda lá mas ainda não ganhou prêmio nenhum, morava numa acomodação específica para estudantes: uma "nation". As nations não pertencem às universidades: são como repúblicas independentes, mas bem maiores, com quartos individuais e cozinhas compartilhadas. Algumas - como a Smålands Nation, da Pernilla - têm até um pub próprio.

Se em Estocolmo conheci comidas típicas e tive fartas opções para o desjejum, em Uppsala nosso café da manhã se resumia a pão e água da torneira (não faça essa cara, a água da torneira da Suécia provavelmente é mais potável do que muita água mineral que você bebe por aqui). E o pão era pão mesmo, sem manteiguinha ou ioiô nutcream. A Pernilla até me fez provar patê de fígado, mas entre isso e pão puro, fico fácil com o segundo. Outras refeições interessantes foram o purê de batata em pó (é só misturar com água que ele adquire a pastosidade do original) e o strogonoff de salsicha que ela preparou e que se parecia com tudo, menos com strogonoff ou com salsicha. Enquanto isso, eu fiquei encarregado de fazer o arroz e, no auge de minha habilidade gastronômica, deixei o negócio queimar a panela nova dela. "You burned my panela!", ela reclamava, falando o nome do objeto em português mesmo: nenhum de nós sabia falar "panela" em inglês, e era de "Panela" que havíamos apelidado Pernilla em Salvador, dada a semelhança da pronúncia de seu nome com o utensílio de cozinha.

Mas a coisa mais estranha que ela me fez experimentar, no pub da Smålands Nation, não foi comida nem bebida, mas um tal de snus. O snus é um troço feito de tabaco que você coloca sob o lábio superior e deixa lá um tempão. O que ele faz? Nada. Não dá onda, não é gostoso, não te deixa feliz. Você fica lá com aquele gosto ruim anestesiando sua boca, achando que pelo menos tá agindo como os locais. Depois descobri que a Pernilla mesmo nunca provou esse negócio.


Uppsala estava com um visual bem agradável. Céu azulão, neve cobrindo tudo e aquela atmosfera da última tirinha de Calvin e Haroldo: "é como ter uma grande folha de papel pra desenhar". Mas no quesito frio, o bicho pegava. Teve noite que fez menos 14 graus, e ao meu figurino habitual - gorro, cachecol, luvas, camisa hering, camisa de manga comprida, casacão, calça jeans, meias de lã e bota - tive que adicionar outro par de meias grossas e uma calça de moletom sob o jeans.

Em um dia dá pra fazer o sightseeing tradicional: a Catedral de Uppsala, maior igreja escandinava e lar eterno do rei Gustav Vasa e outras figuras; o Castelo de Uppsala, que data do século XVI e hoje é lar (temporário) do governador; e o Museum Gustavianum, onde o visitante pode ver antigos artefatos egípcios, tentar decifrar a caligrafia de Lineu em seus bloquinhos de anotações de mil setecentos e fumacinha e visitar um autêntico teatro anatômico, onde muita gente foi dissecada enquanto atentos estudantes teciam suas observações.

Cidade universitária que se preza tem que ter também uma vida noturna à altura. O esquema é parecido com uma Ouro Preto: algumas nations fazem shows, como o da banda Shake the Nation a que assisti na Kalmars Nation; outras fazem festinhas fechadas, cozinha-e-sala, em que cada um leva seu vinho branco de supermercado e todo mundo se diverte. Mais legal que isso, só passar a noite escorregando morro abaixo na neve.

O "esporte" chama-se pulka. Na verdade não é bem um esporte, mas uma brincadeira bem semelhante ao esquibunda que se pratica na grama ou nas areias das praias, só que na neve. Nos reunimos num morro perto do Castelo, com mais alguns estudantes uppsálicos e um visitante... do Rio de Janeiro. (É. Nem no interior da Suécia a gente se esquiva de encontrar compatriotas.) O "trenó" é uma pequena prancha de plástico onde você coloca os pés, a bunda e vai descendo sem muito controle.

Na primeira vez, machuquei o cotovelo. Na segunda, me desequilibrei do trenó e saí rolando pelo morro, a neve entrando pelas mangas do casacão. Na terceira vez fiz tudo certo: tem até um vídeo pra provar, embora não dê pra ver nada pela escassez de holofotes na região. Na quarta, resolvi nem esperar um trenó vago: desci sobre um pedaço de saco plástico mesmo, sorrindo que nem menino. É como diz o Calvin em sua última fala em seu último quadrinho. "It's a magical world, Hobbes, ol' buddy... Let's go exploring!".

Leitura adicional: o post que a Pernilla fez no blog dela sobre minha visita a Uppsala. Se você não foi alfabetizado em sueco, pode jogar no Google Translate que dá pra entender.




Antes da descida.



Mergulhando na escuridão.



Sobrevivente.


Everything familiar has disappeared! The world looks brand-new!

19/08/2009

Sweded



Estocolmo, Suécia
7 a 9 + 11 e 12 de fevereiro de 2007


Fui parar na Suécia por conta de uma passagem da Gol de 50 reais.

Mentira, não foi bem assim. A ligação é ligeiramente mais tortuosa: a passagem barata foi para uma viagem-relâmpago de Beagá a Salvador, em 2006, com mais três amigos. No albergue, conhecemos duas meninas de Estocolmo, mantivemos contato pelos MSNs da vida e, quando contei que estava planejando um mochilão para a Europa, elas me chamaram para me hospedar de graça por lá. E como é que eu não vou?

Às dezesseis horas e trinta minutos, já era noite em Estocolmo. E a neve, que tinha tanto ar de novidade na Alemanha, começou a virar a coisa mais corriqueira. Comprar as botas de neve em Berlim provou-se uma decisão acertada: meus tênis ficariam encharcados na mesma hora. Eu só não precisava ter caído na conversa da vendedora e levado também um spray para proteger o couro da bota, porque só usei o negócio uma vez e ele tá lá em casa até hoje, ocupando o guarda-roupa.

A Suécia é um país para se ir de couchsurfing. Os preços não são nada amistosos: pra se ter idéia, uma viagem simples de metrô custa 20 coroas, o equivalente a 5 reais. Por isso, foi ótimo ter economizado em albergue e me abrigado na casa da Sara. Toda hospitaleira, ela fez comida, milk-shake, e apesar de não ser sueca de raiz - nasceu no Sri Lanka! - preparou alguns pratos típicos da terra do Bergman, como o köttbullar (almôndegas suecas) e o semla (doce servido tradicionalmente no primeiro dia da Quaresma). De manhã, saía e deixava bilhetes com instruções detalhadas sobre o café da manhã: "Com fome? Pão [setinha indicativa perto do pão] - 2 tipos diferentes (na verdade também tem torradas no freezer). Um branco que você pode enrolar ou outro marrom. Na geladeira você encontra leite (mjölk), iogurte, e 4 coisas diferentes para você provar com o pão: frango (kyekling), peru (kalkon), salame e queijo". Mordomia pouca é bobagem. Mas ei, eu lavava as vasilhas!


20 köttbullars prontos para o abate.

Estocolmo é um arquipélago formado por 14 ilhas cercadas, no inverno, de água congelada por todos os lados. Eu até peguei uma pedra e joguei na água pra ver se a camada de gelo furava fácil, mas não, ela saiu deslizando em movimento retilíneo uniforme com atrito desprezível. A ilha mais famosa é a Gamla Stan. Como você poderia deduzir se soubesse falar sueco - o nome significa "Cidade Velha" - ela é o centro histórico e, previsivelmente, lar das abundantes lojinhas de souvenirs vendendo alces de pelúcia pra ocupar espaço no avião e estatuetas de vikings pra quebrar na mala. É também na Gamla Stan que fica o Palácio Real, onde você observa os guardas andando mecanicamente de um lado pro outro, como soldadinhos de corda.

Tinha museus interessantes em Estocolmo. Perto da casa da Sara, que ficava em Östermalm, topei com um tal Museu da Música (Musikmuseet), cheio de instrumentos exóticos pra olhar, ouvir e até tocar, além de exibições temporárias, como aquela que homenageava o ABBA. Outro bacana, ali na ilha de Djugården, é o Museu Nórdico (Nordiska Museet), com vários andares e os mais diversos artefatos, de esqueletos a casas de boneca. O mais legal era a exposição temporária com dezenas de coleções de tudo quanto é cacareco: selos, moedas, chapéus, xícaras, brinquedos de Kinder Ovo, artigos do ABBA (pelo visto, eles estão em toda parte).

Mas o museu que mais se destacou ante meus olhos foi o Vasamuseet. O Vasa era um navio de guerra que afundou em sua viagem inaugural, em 1628. O mergulho foi na própria baía de Estocolmo, perto do porto, só que ninguém conseguiu tirá-lo da água e sua localização acabou esquecida (você sabe como era a tecnologia de resgate de embarcações no século XVII). Trezentos e trinta e três anos depois, em 1956, conseguiram achar o navio inteiro, com várias armas de guerra, canhões e, naturalmente, cadáveres. O barcão tá lá exposto no museu: você só não consegue caminhar por dentro dele, mas dá pra ver bem de perto como era e se imaginar limpando o convés. Curiosamente, o museu do Vasa foi uma das duas únicas atrações em toda a viagem que tinha folheto em português (a outra era a Sagrada Família em Barcelona). Nosso idioma era o último de uma lista que tinha sueco, inglês, norueguês, dinamarquês, alemão, francês, holandês, italiano e espanhol.


Depois de Estocolmo fui a Uppsala escorregar na neve e visitar a Pernilla, a outra sueca que conheci na Bahia. Mas depois de dois dias precisei voltar a Estocolmo, para azar da Sara e do namorado dela - o quarto deles ficava no andar de cima e o apartamento não tinha paredes. Eu, deitadão no sofá no andar debaixo, era o legítimo empata-foda.

Mas não tive escolha: é que meu avião da Ryanair para Roma saía de um aeroporto de Estocolmo. Na verdade, não ficava dentro da cidade: era em Skavsta, longe pra cacete, a mais de 100 quilômetros. E o horário não podia ser menos camarada: 6h45 da manhã. Tive que sair às 3h15, tomar um táxi para o City Terminalen e depois um ônibus para o aeroporto. E você achando que os escandinavos eram todos exemplos de cidadania: para entrar no ônibus, peguei uma fila desorganizada e um empurra-empurra de dar inveja à Praça Sete na hora do rush. Pelo visto, a Suécia não fica assim tão longe do Brasil.

12/08/2009

Trem de døido



Berlin, Hamburg e Neumünster, Alemanha + København, Dinamarca + Malmö e Stockholm, Suécia
6 e 7 de fevereiro de 2009

A viagem que realmente valeu meu passe de trem foi a longa e sinuosa jornada entre a República Federal da Alemanha e a capital do Reino da Suécia. Foram 1.421 quilômetros percorridos. 5 viagens de trem. Mais de 13 horas sobre trilhos, e outras 5 horas e meia panguando na estação entre um trem e outro. Seis cidades, um cassino fajuto, um sujeito levado em cana dentro do vagão.

Saí de Berlim às nove e pouco da noite, após o pseudo-atentado no Reichstag. Comi alguma gororoba em Hamburg por volta das onze e de lá segui para a estação de Neumünster, no norte da Alemanha, onde desembarquei à uma e meia para esperar o trem para a Dinamarca, que só partia às 4h45. Peraí, eu falei estação? Pois Neumünster (leia-se "Nóimínster", fazendo bico no segundo í) não tinha uma estação de verdade, com lanchonete pra enganar o estômago ou mesmo um banco pra deitar que nem mendigo. Era só um ponto no meio do nada, sem cobertura nem lugar de sentar, e aquele frio camarada que você imagina.

Conheci um alemão que também estava indo pra Copenhagen, onde trabalhava como dentista, e resolvemos sair andando pela madrugada em busca de algum lugar aberto e quente. Achamos um "cassino", bem entre aspas: era uma lan house onde ficamos umas duas horas na internet enquanto um pobre dum sujeito perdia todo o seu dinheiro em uma slot machine. Passou a noite toda ali, solitário, se entregando ao vício.

Às 4h45, pegamos o trem para Copenhagen. Um alemão cascudo pegou meu Europass, olhou desconfiado e sentenciou:

- Not valid.

Opa opa. "Not valid" é o chucrute da sua avó. Meu passe estava nos trinques e o balconista da Berlin Hauptbahnhof me garantira que pra essa viagem não tinha nem taxa de reserva obrigatória. Teimei com ele:

- Tá válido sim, olha a data aí.
- Aqui diz: só é válido junto com o passaporte. E não tem o número do seu passaporte escrito aqui.
- Ué. Não? - fingi de desentendido, tirei o passaporte do bolso e falei - Então é só anotar.

Muito a contragosto, ele pegou a caneta e acatou a sugestão.

Depois indicou o número da cabine onde deveríamos ficar. Foi o primeiro trem da viagem com cabines de verdade, estilo Assassinato no Expresso-Oriente, e não a estrutura de ônibus escolares que tinham os outros. Abrimos a porta e um australiano acordou assustado. Ele tava deitadão num dos bancos da cabine, e falamos pra ele ficar lá mesmo que procuraríamos outra. Entramos na cabine do lado, vazia, cada um esticou-se em um banco e fiquei lá discutindo futebol com o alemão-dentista, cada um zoando a seleção do outro por seus desempenhos na Copa 2006, até pegar no sono.

Lá pelas seis da madrugada, entra um indivíduo uniformizado, com cara de poucos amigos tal qual o alemão cascudo. Pronto: descobriram que a gente estava na cabine errada e iam nos tirar de lá. Mas não, ele só pediu o passaporte. Provavelmente estávamos entrando na Dinamarca. (Não me perguntem como o trem faz para atravessar a água. Dizem que os vagões são colocados num ferry, transportados e depois recolocados nos trilhos. Eu fiquei dormindo e não vi foi nada.)

Alguns minutos depois, assustados, ouvimos a voz do mesmo cara aos berros, agora na cabine ao lado. Falava em inglês:

- Cadê seus documentos?!
- ...
- Não tem documentos? Cadê suas coisas, hein?
- ...
- Você está preso. Vem comigo, você está preso.
-...
- Cadê seus sapatos? Cê não tem sapatos?! Vamos, anda logo.

Nunca saberei o que realmente aconteceu. Na hora cogitamos que o coitado fosse o australiano da outra cabine, mas quando amanheceu fomos ver e ele continuava lá, dormindo folgadão. Imagino que esse zé mané tenha entrado no trem na surdina, sem dinheiro, documentos ou sapatos (?!!), e acabou sendo preso de madrugada em pleno inverno dinamarquês. E o alemão-dentista lá zoando, falando que parecia a polícia nazista invandindo as casas pra prender judeus. Contei pra ele da frase-chave que se deve saber em alemão quando pintar alguma encrenca ("Pô, só porque eu sou judeu?!"), e ele riu bastante. Ao que parece, nem todo alemão vê problema em fazer humor com seu passado.

Descemos em Copenhagen às 10 da manhã. Eu ainda levaria mais algumas horas para chegar a meu destino final, incluindo a travessia da Øresund Bridge e as 4 horas e meia entre Malmö e Estocolmo, com direito a um atraso terrível de vinte minutos (a pontualidade alemã me acostumou mal, fazer o quê). Mas antes, aproveitei meus cinco minutos na Dinamarca para dar uma volta no quarteirão e conferir qual era a cara de København - como escrevem "Copenhagen" no original. Só deu pra notar a falta de gente, a grande quantidade de bicicletas estacionadas e essa interessante peculiaridade do alfabeto escandinavo, de riscar vogais no meio ou pôr bolinhas sobre elas. Se um dia eu arranjar uma dinamarquesa e for morar por lá, pode ter certeza: vou assinar "Lucås Paiø".


K
øbenhavn, perto da estação.


Cruzando os 7.8km da Øresundsbroen
.



Vejam o número 4: esse relógio na estação de Hamburg me fez repensar tudo que aprendi na escola sobre algarismos romanos.

10/08/2009

Berlim Bom Fim



Berlim, Alemanha
3 a 6 de fevereiro de 2007


Depois de treze dias perambulando pelas ruas fáceis de gostar de Madrid, Barcelona, Paris e Amsterdam, quando aportei em Berlim a sensação não foi de amor à primeira vista. Cheguei à noite, dormi meio gripado e só fui ver a cara da cidade na manhã seguinte, ao pôr os pés na estação de metrô. Lixo e escombros perto dos trilhos e uma atmosfera cinza, piorada pelo tempo nublado. Custei a entender como funcionava o sistema de transporte. Primeiro, tinha que comprar o ticket e depois validá-lo em uma outra maquininha, e nada de achar a danada. Depois, fiz umas cinco viagens só pra poder chegar aonde queria, indo na sorte mesmo. Só fui descobrir que existia uma linha subterrânea (U-Bahn) e uma na superfície (S-Bahn) na quarta ou quinta baldeação.

Pisei na Alexanderplatz e aí foi o frio que pegou. Até então, tinha me virado bem com o kit casaco, luvas, cachecol e gorro. Às vezes nem precisava daquilo tudo, e ficava carregando as peças nas mãos. O gorro, então, caiu tantas vezes nas ruas e nos museus que é um milagre que tenha voltado são e salvo. Só que em Berlim, começou um vento daqueles que te faz pensar "o quê que eu tô fazendo aqui", e demorou pra que eu criasse coragem de enfrentar as condições climáticas e desbravar a selva urbana. A calça jeans nada espessa e o tênis bem ventilado definitivamente não ajudavam. Mas aí eu comecei a caminhar pela Unter den Linden, e admirar as construções, e reparar nas reconstruções, e pensar no quanto essa cidade penou de cem anos pra cá e como eles sempre conseguem se reerguer, e quando cheguei no Portão de Brandemburgo já tinha esquecido o frio e mudado completamente de impressão.

O que é muito especial em Berlim é que, enquanto uma Roma ou uma Florença são ricas em História acontecida há centenas, milhares de anos, na capital alemã a coisa toda é muito recente. As pessoas que estão ali na sua frente sofreram com a separação de uma cidade em duas, participaram da queda do famigerado muro. Os pedaços dele estão ali, alguns pintados com palavras de esperança, outros preservados com as doídas pichações escritas na época (como o comovente "To Astrid: maybe someday we will be together" que fotografei), outros vendidos por centavos como souvenir (serão mesmo de verdade? Na dúvida, comprei vários). O museu do Checkpoint Charlie homenageia todas as pessoas mortas em tentativas de atravessar o muro. O Monumento aos Judeus Mortos e a Exposição Topografia do Terror não deixam ninguém esquecer a quantidade muito maior de gente morta por causa de uma etnia.

Nem tudo tem a devida plaquinha explicativa, e muita coisa pode passar despercebida se você não tiver alguém pra te mostrar. Nesse sentido, foi bem interessante o walking tour de três ou quatro horas que fiz com mais um bando de gente. Mais do que um passeio turístico em que você anda, tira fotos e deixa pra viajar em casa, comendo pistache e exibindo os slides, no walking tour o cara parava e dava todos os detalhes dos lugares por onde passávamos. Por exemplo: a Bebelplatz, a praça onde os nazistas queimaram 20 mil livros em maio de 1933, hoje tem um discreto monumento em seu subsolo. É um cômodo branco cercado por prateleiras vazias, com espaço para exatos 20 mil livros, e uma plaqueta com a inscrição: "Aquilo foi somente um prelúdio; onde se queimam livros, queimam-se no final também pessoas".


O albergue onde fiquei era gigante. O Generator Hostel tem 7 andares, zilhões de quartos por andar e umas quinze camas por quarto, além de bar, restaurante, sinuca e muitas outras vantagens pra você (redator publicitário mode on). Foi lá, aliás, onde lavei minhas roupas pela primeira vez na viagem. Segui as instruções, comprei as fichas e demorei umas 2 horas na operação toda. Quando terminou, as roupas não tinham secado direito. A solução menos trabalhosa foi pendurar tudo ao redor da minha cama, estilo cortiço. No dia seguinte, desci pra tomar café e, quando voltei, todas as roupas haviam desaparecido. Saí pelos corredores pedindo informação, já imaginando ter que recomprar um guarda-roupa inteiro em euros pra não ter que andar pelado pela Europa. Finalmente, descobri que a faxineira tinha pegado as peças todas e guardado num escaninho. Não podia ter deixado um bilhete?

Foi também no Generator que conheci o pub crawl. Uma turma de brasileiros viajando junta tinha ido no dia anterior, animou comparecer de novo no domingo e eu fui atrás. Literalmente "rastejar por bares", o pub crawl funciona assim: você paga uma taxa simbólica pra participar, ganha direito a entrada livre em quatro pubs e ainda bebe "suquinho de laranja" (evidentemente batizado com vodka) entre um bar e outro. Do Silberfisch ao Café Zapata, bebi cerveja quente com brasileiros e espanholas até enjoar e saí andando torto às 3 e tantas da manhã. Chegando na estação de metrô, descobri que o próximo só chegava dali a 68 minutos. Fazer o quê? Andar a pé os 6 quilômetros que me separavam do Generator? Fiquei dormindo no banco da estação que nem um mendigo, até o trem aparecer pontualmente no horário previsto.

Berlim ainda me reservaria outras surpresas, como o pseudo-atentado terrorista no prédio do Parlamento e a primeira vez que vi neve caindo sobre minha cabeça. Já contei tudo neste post aqui, então não vou ficar me repetindo. Fica a vontade de voltar pra lá algum dia e a certeza: quem disse que a primeira impressão é a que fica é um baita mentiroso.

05/08/2009

Mochilão em Amsterdão



Amsterdam, Holanda
31 de janeiro a 3 de fevereiro de 2007


Cheguei em Amsterdam no fim de uma tarde de quarta-feira, sob uma chuva ligeira e com certo medo de pegar catapora.

No trem que veio de Paris, atravessando a Bélgica e a típica paisagem holandesa repleta de moinhos e tulipas (mentira, não vi tulipa nenhuma), dividi os assentos com uma família amsterdamesa de mãe, vó e um menino de uns 4 anos. Pra passar o tempo, peguei o multi-dicionário com frases-curinga em 14 línguas européias que o De Pinho tinha me emprestado, abri na seção do holandês e fiquei lá tentando conversar com a criança: "Hallo! Hoe gaat het? Hoe heet u?". E reparando nas estranhas marcas vermelhas que ele tinha na cara e pelo corpo.

- Ele teve catapora esses dias, ainda tá meio doentinho - disse a mãe dele para mim, em inglês.
- Eh... e não tem perigo de pegar?
- Diz o médico que não tá mais na fase de contágio. Mas se você pegar, vai saber em duas semanas - e deu um sorrisinho. Era só o que me faltava, pegar catapora no meio de um mochilão. Mas corto logo o suspense: duas semanas depois, meu pedido à Fontana di Trevi foi me manter livre do HHV3, e parece que funcionou.

Fiquei três noites no Stayokay Vondelpark, albergue grandão com gente do mundo inteiro. Teve dia em que saí com uma pá de brasileiros, Rio, São Paulo, Brasília, Paraná. Noutro, fui pro bar com uma turma de estudantes da Sicília que tinham ido de excursão (e eu que me empolgava quando fazíamos excursão pra Gruta da Lapinha...). Na fauna do hostel tinha até uma austríaca que falava português com sotaque arretado, depois de morar por um tempo em Recife. Ri alto no café da manhã quando ela me disse, estupefata:

- Mas você tá viajando SOZINHA?! PÓRRA!

Amsterdão, como dizem os lusitanos, é uma cidade muito simpática. Plana como todos os Países Baixos, cheia de canais e casas de fachada reta, iguais aquelas casinhas de brinquedo cujo nome exato pelejei pra lembrar agora, sem sucesso. Há que se olhar pros cinco lados antes de atravessar a rua, não só porque bicicletas surgem aos bandos quando menos se espera, mas também pro bonde não pegar você andando. Dá pra percorrer o miolo todo a pé, mesmo porque, nessas cidades onde qualquer lugar onde se olhe é um wallpaper em potencial para seu desktop, não convém desperdiçar paisagem enfurnado no metrô.

Casa de Anne Frank: não vá sem ter lido o livro. O prédio onde a jovem judia se escondeu durante anos com a família, entre 1942 e 1944, é um lugar comum, com painéis contando a história da guerra e da família Frank. Mas só quem passou pela leitura do diário da garota consegue ter uma sensação do que deve ter sido passar tanto tempo naqueles cômodos apertados, subir aqueles degraus inclinados, olhar pelas frestas daquelas janelas.

Outras atrações intetressantes em Amsterdam incluem o Museu Van Gogh, com zilhões de quadros de Vincent dispostos em ordem cronológica, entre eles os famosos Comedores de Batata e uma das versões do Quarto em Arles; e o Rijskmuseum (não me perguntem como é que se fala isso), abarrotado de obras de Rembrandt, Vermeer e outros baluartes da pintura holandesa. Repetindo o conselho que dei no texto de Madrid: não visitem os dois direto, um atrás do outro, porque cansa. No meu caso era falta de opção mesmo, dei azar de chegar na cidade num daqueles dias onde não abre museu nenhum.


Mas eu sei que você quer saber é sobre drogas e putaria. Então vamos lá. Ainda no âmbito cultural, Amsterdam oferece o Sex Museum, que custa só 3 euros e exibe em vários andares uma vasta coleção de fotos, pinturas, bonecos e esculturas sobre o ato reprodutivo humano, ou nem tão reprodutivo assim. Quem quer ação de verdade pode ir ao velho Red Light District, onde as moças se exibem nas portinhas de vidro mesmo quando o sol está rachando. Quanto à maconha, não é segredo que é vendida em qualquer coffee-shop, tanto a erva pura quanto cigarrinhos já enrolados. Mas tem uma cousa: onde vende cannabis não vende álcool, e vice-versa. Se você quiser fazer uns combos à la Tim Maia e mandar pra dentro um bolo batizado, uma garrafa de absinto e um Big Tasty, precisa pular de galho em galho.

Agora, o que me intrigou foram as lojas vendendo "magic mushrooms". Porque maconha o cara fuma e no máximo filosofa sobre o sentido da vida (se bem que um brasiliense no meu albergue disse que encontrou Jesus). Mas com cogumelo o sujeito vê berimbau no lugar de gaita, pula no canal achando que é piscina de bolinha e aí já viu. Ao que parece, foi tudo proibido no final do ano passado, e quem quiser um vidrinho de cogumelos tailandeses, havaianos ou amazônicos vai ter um trabalho maior do que pedir num balcão e pagar 13 euros. Muita gente vai reclamar, mas os cachorros agradecem.

Mais Amsterdam aqui.

02/08/2009

Paris como a palma da mão



Paris, França

27 a 31 de janeiro de 2007


Um grande barato de se chegar em uma cidade de trem e depois emendar um metrô para o centro é poder ver a cara dela só quando se está realmente nas ruas. Você não faz um julgamento apressado pelo que vê de cima antes de pousar, nem dá o veredicto pela paisagem geralmente feia e sem-graça do longo trajeto entre o aeroporto e a cidade em si. Aparecer no meio do lugar por um buraco no chão é como ir no cinema sem ler antes a sinopse ou ver o trailer: tudo é surpresa, tudo é novidade.

Depois de ficar preso na roleta do metrô que nem um pateta (isso é que dá morar num lugar onde só se anda de metrô quando tem evento de música), emergi na capital gaulesa e de cara fui com a cara dela. Num mapa fixo com setinha indicando "você está aqui", notei minha proximidade com a Torre Eiffel e não resisti a uma espiadela. Cheguei lá embaixo, olhei aquele bichão de metal e segui caminho para o hotel onde encontraria meu pai. Ele morava na Inglaterra e tinha ido me encontrar durante o fim-de-semana, após quase não conseguir devido às loucas peripécias de seu passaporte, andando sozinho por esse mundão de meu deus.

Era a primeira vez de ambos em Paris. Natural que ficássemos perdidos a cada quartier, mas ninguém dava o braço a torcer: "É por aqui", "Não, tenho certeza de que é virando aquela rua ali", "O caminho é esse, conheço Paris como a palma da minha mão". O que rendia momentos engraçados, como quando meu pai comentou sobre uma suntuosa edificação às margens do Sena:

- Olha que legal. Aqui tem esses prédios enormes, devem ser cheios de histórias, e todo mundo passa direto sem nem saber.

Abrimos o mapa e descobrimos que o prédio grandão era um tal de "Musée du Louvre".

Falando no Louvre: é sabido que é tão extenso que nem o mais hiperativo dos turistas conseguiria ver tudo em um dia. Pra se ter idéia, são 380 mil itens no acervo, e nem 10 por cento disso fica em exposição. O melhor é escolher uma área e privilegiá-la. Além do roteiro se-não-viu-é-porque-não-foi-no-Louvre (Mona Lisa, Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia), demos atenção particular à seção egípcia, abarrotada de múmias e sarcófagos de todos os tipos, inclusive de gatos. Outro que é bem bacana é o Museu d'Orsay, uma ex-estação ferroviária convertida em abrigo para centenas de Van Goghs, Monets, Gauguins e grande elenco.

Gosto muito é dos museus mais específicos. Aqueles que, mais do que uma pincelada dos melhores momentos, se debruçam sobre determinado estilo ou artista. Como o Museu Rodin, que traz dois Pensadores e mais uma porção de esculturas impecáveis, incluindo algumas da Camille Claudel. Ou o Musée Picasso, que faz um 3-hit-combo com o Guernica no Reína Sofia de Madrid e o Museu Picasso de Barcelona e te deixa escolado na vida e na obra do Pablão.

Comer em Paris não tem erro. Até a birosca mais suja vai ter um brioche dos bons, qualquer padaria da esquina oferece uma bomba de chocolate de se comer de joelhos. Mas não vá achando que é tudo 100% parisiense. Estava com meu pai saboreando um petit déjeuner com chocolates e croissants e o escambaux, fomos elogiar o suco de laranja que era realmente muito bom, até que lemos no rótulo: "Oranges du Brésil". (E não, o McDonald's não tem nada de diferente - a não ser se você for fã do Tarantino e encher a boca pra pedir um Royale with Cheese.)

Na segunda-feira, saímos do pequeno quarto do Tim Hotel, meu pai voltou pra Wigan e eu fui parar no Peace & Love Hostel, o único albergue razoavelmente central que encontrei com vagas (por razoavelmente, leia-se 7 km da Torre Eiffel, mas de metrô tudo é do lado). Tinha que subir seis andares de escada e dormir na cama de cima de uma triliche, de nariz colado no teto. Sem falar na precária simpatia dos funcionários:

- Bom dia. Ontem eu paguei o quarto para um dia só, mas vou ficar mais uma noite.
- Você QUER ficar mais uma noite. Eu é que decido se você pode ficar ou não.

Mas de noite rolou sessão de jogos, conheci uma galera porreta - Califórnia, Rússia, Alemanha, São Paulo - e fiz as pazes com o albergue. E como não encontro uma frase definitiva sobre Paris para fechar o texto, deixo algumas fotos fazerem o serviço.




Think big.



Think small.



A triliche do Peace & Love. O bom é que ninguém consegue ver se sua cama está desarrumada.



Aquela foto clássica pra provar que você pisou mesmo em Paris, e não rodou tudo de ônibus em uma tarde, como fazem os japoneses.



Paios no Louvre.



Não é fácil ser estátua.


Esse filme bóia.

Mais Paris no Biselho: as tumbas famosas do Père-Lachaise e os cenários de filmes famosos espalhados pelas ruas.

27/07/2009

España? No! Catalunya!



Barcelona, Espanha (digo, Catalunha)
24 a 26 de janeiro de 2007


Em Barcelona, não ouse chamar os nativos de espanhóis. Teve uma menina que conheci num pub crawl em Berlim, perguntei de onde vinha e ela disse: "Barcelona", com aquele "c" sibilante, com a língua no céu da boca. "España!", bradei empolgado, mas ela foi veemente: "No! Catalunya!". Tanto que placas, anúncios e até as lixeiras do McDonald's vêm com textos em catalão, esse inusitado cruzamento de espanhol com francês e umas intromissões de italiano.

Turisticamente, Barcelona respira Gaudí, o arquiteto que assina os edifícios mais famosos da cidade e que morreu em 1926 atropelado por um bonde (!). É dele a Casa Battló, cuja fachada parece ser feita de ossos. É dele o Parc Güell, que demorei um tempão pra achar (isso é que dá pegar o metrô errado), onde mora o famoso lagarto de pedra que levou uma porrada de adolescentes punks apenas alguns dias depois que estive lá. É dele a Casa Milà, que também atende por La Pedrera, um prédio enorme que funciona como um museu sobre seu projetista, com audioguia incluído na visita e um andar mobiliado como um apartamento do início do século XX, bem bacana.

E é também de Gaudí, claro, a notória Sagrada Família, catedral que está em construção desde 1882 e que deve ficar pronta, se nada mais der errado, em 2026. É de se esperar que seja um grande canteiro de obras - como tem sido nos últimos cento e vinte e sete anos. Mas isso não tira o fascínio de se admirar as fachadas prontas, a beleza de ver a cidade de cima de uma das torres ou o cansaço de ter que descer depois a estreita escadaria (não tem outra opção, o elevador só sobe mesmo). A Sagrada Família também foi um dos poucos pontos turísticos em toda minha viagem que tinha folhetos explicativos em língua portuguesa. O engraçado era que juntava português, finlandês, holandês, basco e mandarim, tudo no mesmo folder.

Para caminhar a esmo por Barcelona, o melhor é percorrer a pé as Ramblas - um imenso calçadão fechado para carros que desemboca perto do porto, cheio de homens-estátuas tentando ganhar o seu - ou se perder no Bairro Gótico, onde as ruas nunca chegam aonde se imagina. Acho que andei umas duas horas pra encontrar o Museu Picasso, que fica por ali e traz desde os desenhos do artista quando moleque até obras clássicas do cubismo, incluindo variações que ele fez do "Las Meninas" de Velásquez. Curioso que ainda hoje no Museu do Prado, em Madrid, fica cheio de copistas reproduzindo os quadros mais famosos, e o próprio Picasso já foi um deles antes da fama. Mais curioso ainda é o nome completo do pintor: Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso. Todo mundo zoa D. Pedro II, mas o nome de Pablito tinha apenas 2 letras a menos.

Acho que o meu erro em Barcelona foi ter escolhido um albergue muito pacato. Eu estava apenas na primeira semana de viagem: precisava era da alardeada farra do Kabul ou do Gothic Point, não do marasmo do Centric Point, apesar das instalações serem ótimas. Tinha café bacana, internet grátis, localização jóia (no meio do Passeig de Gràcia, do lado da Casa Battló). Mas em comparação com o Cat's, onde a cada minuto se conhecia alguém, no Centric Point o ambiente não era tão propício à socialização. No meu quarto, só apareceu gente na segunda noite. No salão onde os hóspedes se reuniam, ficavam todos assistindo televisão ou vidrados em seus próprios laptops.

No dia em que eu voltar a Barcelona, vai ser pra encher a cara. Quem sabe na festinha de inauguração da Sagrada Família?

Mais Barcelona aqui.

23/07/2009

¡Olé!



Madrid, Espanha
22 e 23 de janeiro de 2007

Cheguei na fila da imigração do aeroporto de Barajas com todas as respostas na ponta da língua: vim passar 30 dias na Europa, aqui está minha passagem de volta, meu seguro-saúde internacional, a reserva do albergue em Madrid, não sou terrorista, traficante ou cantor de barzinho com playback, não pretendo estabelecer família nem abrir uma lojinha de suprimentos de informática por aqui. Afinal, depois da minha experiência ao entrar na Nova Zelândia, é natural que eu esperasse o pior.

Sacanagem: só me pediram o passaporte, carimbaram e emendaram um "Bienvenido". Muito mais trabalhoso, na verdade, foi sair dali e chegar no albergue. Caminhei que nem condenado nos terminais T1 e T2, avistei ao longe o terminal T4 em destroços (por causa do atentado do ETA algumas semanas antes), peguei um elevador que andava na diagonal (!!), fiz 3 baldeações no metrô e emergi nas ruas de Madrid, debaixo de uma chuva chata, sem idéia de onde ficava a tal da rua Cañizares.

Resolvi perguntar prum sujeito parado em frente a um hotel, naquele meu espanhol torto, e recebi como resposta:

- Ô meu amigo, eu não sou daqui não, sou de Belo Horizonte.

Ante meu olhar incrédulo, ainda deu a dica:

- Quando cê for pedir informação, pede pra policial. Esses zé bucetas aí na rua não sabem nada.

O Cat's Hostel é um albergue ideal pra você começar uma viagem. É verdade que peca no café (croissant, suco de laranja e só) e tem um chuveiro extremamente irritante - a cada 10 segundos, você precisa apertar um botão pra ele não desligar. Parece o computador da escotilha de Lost. Mas o grande barato do Cat's é o porão, que tem bar, internet grátis, vez ou outra algum show e cerveja de 1 litro a 3 euros. Na primeira noite, bebendo e batendo papo com uma galera de Idaho, Califórnia, Sydney, Buenos Aires e Québec, acabei me empolgando com o preço da cerveja e terminei batizando a privada do albergue.

Nos dois dias em que andei por Madrid, visitei os três museus mais famosos da cidade. Foi um exagero: devia ter me concentrado em apenas um por dia, porque visitar o Thyssen-Bornemisza depois de uma manhã inteira no Museu do Prado dá uma canseira e não se aproveita mais nada. O que mais me agradou foi o Reína Sofia: um monte de Dalís, Mirós e Picassos, como o monumental "Guernica" (um senhor quadro de 3,5 por 7,7 metros) e o intrigante "El Hombre Invisible", de Dalí, que só é revelado quando se enxerga de longe.

Em Madrid também pude aproveitar almoços relativamente baratos (para o padrão europeu), como o combo paella + bife + garrafinha de vinho + flan de sobremesa por 8 euros. Se em reais não soa nada econômico, era uma pechincha comparando com as refeições de países mais setentrionais. Aliás, vale lembrar a velha máxima: "quem converte não se diverte". Você não vai pagar 120 euros por um jantar no La Terraza del Casino, mas também não pode passar a viagem inteira comendo pão com cream cheese.

Na minha segunda e última noite no Cat's, planejei ficar mais tranqüilo, não exagerar na bebedeira, tomar minha gemada e dormir cedo, porque meu trem pra Barcelona partia às seis e vinte da matina. No entanto, acabei saindo pra dar uma volta com uma turma brasileira e um madrilenho mala, que encheu a cara de sangria e ficava tentando dar as direções em inglês ("Left... I mean, right... I mean..."), e fui dormir tarde do mesmo jeito.

Confiei no alarme do relógio vagabundo que eu comprara por dérreal no Shopping Tupinambás, que evidentemente não funcionou, e quando abri os olhos eram cinco e trinta e seis. Saí correndo pela rua, zonzo de sono, e só quando já estava dentro do trem é que percebi que tinha deixado pra trás as luvas emprestadas da minha tia. Melhor pra ela, que na volta ganhou luvas novas de Paris.



As placas das ruas no centro histórico de Madrid têm sempre esse design interessante, 9 azulejos e uma ilustração alusiva. Se fosse em BH, finalmente descobriríamos quem diabos foi Raja Gabaglia.



Cavalos e carruagens debaixo de chuva (tá bom, chuvisco) na Plaza Mayor.



E não se fala mais nisso!



Pichação na parede do Real Monasterio Santa Isabel Agustinas Recoletas.



Ela é uma vaaaaaaca...

Antes tarde



Um dos meus arrependimentos em relação a este blog é não ter escrito direito sobre o mochilão europeu que fiz em 2007. Postei alguns causos de Roma, Paris e Berlim, coloquei algumas fotos de Amsterdam, Veneza e Barcelona, mas no geral fui deixando passar e acabei não explorando o potencial bloguístico de muitos lugares. Madrid, por exemplo, virou só uma nota perdida no meio de um post. Os escombros de Pompéia e os lagos congelados da Suécia sequer foram citados.

Portanto, é numa tentativa de corrigir essa falha que inicio hoje uma série sobre as cidades que visitei há dois anos e meio, um texto por cidade, em ordem cronológica, seguindo o itinerário publicado aqui. Com isso, torno profético o comentário deixado por meu pai em janeiro de 2007: "Do jeito que as coisas estão indo vai publicar as novas aventuras daqui a dois anos!" Além do mais, vale como aquecimento para minha próxima viagem, que acontecerá em breve e merecerá um blog à parte.

良好的阅读!

20/07/2009

17/07/2009

Jurassic Truth

Estava lendo no banheiro uma revista antiga do Cebolinha quando topei com uma historieta genial do Horácio. Não sei se atualmente ainda é o Mauricio que escreve os roteiros do tiranossauro de cabeça oval. Mas em 1995 certamente era. Em apenas quatro quadros, simples, sagazes, Maurição discute idelogias e extremismos com recursos que só os quadrinhos permitem.

Compartilho a descoberta aqui convosco. Cliquem para ampliar:

16/07/2009

Tapete vermelho

4a Mostra de Cinema de Ouro Preto
Parte III



Fechando a série, os melhores e os piores da CineOP 2009:

Melhor evento - Le Rendez-Vouz Du Sam’di Soir. O palavroso nome em francês era o título da sessão mais curiosa e interessante de toda a CineOP: três curtas mudos dos anos 20, de Jean Renoir e René Clair, com trilha sonora tocada ao vivo por três músicos também franceses. Um cara no violão e guitarra (Maxime Roman), uma moça no violino (Céline Benezeth) e outro no teclado e voz (Marco Pereira), criando sons diferentes, melodias ricas, sobrepondo áudio em cima de áudio enquanto as delirantes imagens dos curtas nos hipnotizavam. Parabéns pros caras e pra quem teve a idéia de levá-los a Ouro Preto.

Melhor show - Falcatrua tocando Tim Maia. Primeiro as críticas: fazer um show só com Tim Maia já é meio caminho andado pra entreter o público. O mérito principal, nesse caso, é do finado soul man carioca. O cd, idealizado por Nélson Motta e produzido pelo John do Pato Fu, soa mais como uma forma de lucrar sobre um repertório difícil de estragar. Sem falar que a CineOP careceu de shows realmente bons para comparar. MAS! Pelo menos ao vivo, as versões ficaram realmente legais. As adições de Glauco Nastácia na bateria e, principalmente, de Gleison Túlio na guitarra deram uma cara nova e um feeling especial às canções. Gleison Túlio, na verdade, se sustenta sozinho: sua versão para "Rational Culture" só com guitarras sobre guitarras mata a pau.

Prêmio Dr. Manhattan de Onipresença - Esse é dividido. Em qualquer lugar que a gente fosse em Ouro Preto, dava de cara com um desses três: Rafael Ciccarini, que foi meu professor na Escola Livre de Cinema e é editor da Filmes Polvo; Tutti Maravilha, radialista da Inconfidência há uns cento e cinqüenta anos; e a onipresente-mor, homenageada da CineOP que aparecia nas telas, nos painéis e até no meio da rua: Zezé Motta. Falei tanto dela que, quando a TV Mostra a entrevistou para a edição especial de encerramento, eu apareci lá no fundo também.

Troféu Milli Vanilli de Fraude Sonora - DJ Roger Moore. Segundo a programação, ele tocaria o melhor da música brasileira dos anos 70. Chegou na hora, só colocou o pior da música internacional dos anos 2000. Ou o Snoopy Dog era colega do Simonal e eu não sabia?

Prêmio Irmãos Wright para o vôo que não aconteceu - Vai para a pipa que iria protagonizar nosso curta improvisado, na tarde de segunda-feira. Reunimos um grupo duns cinco, fomos para o Morro da Forca munidos de uma pipa, preparamos alguns poemas para dar um ar mais experimental, cult e pseudo-intelectual, mas na hora agá a pipa não voou. Foi devidamente pisoteada e desmembrada, por ter se recusado a colaborar. Pelo menos recitamos os poemas para a câmera. Trecho do meu:

Pipas, ó pipas
Contemplar o seu vôo
Me dá um enjôo
Embrulha-me as tripas

Troféu Malba Tahan de Sanduíche Mal Calculado - Cheguei numa padaria da Praça Tiradentes e pedi um misto quente. O cara me falou que não tinha queijo. Eu: não tem problema, pode ser só com presunto mesmo. Ele: só que é apresuntado. Eu, desanimado: pode ser, mas já que não tem queijo, capricha. Ele: pãozim de forma ou pãozim de sal? Escolhi o de sal e fiquei lá sentado, aguardando o resultado. Eis que, hesitante, ele alerta: acho que exagerei no apresuntado. Ele tinha caprichado tanto, e ainda colocado umas cinco fatias de tomate não solicitadas, que o pão era só uma mancha perdida num mar de apresuntados escorrendo pelos lados, de fazer inveja em um toscoburguer. Foi o primeiro misto quente que comi de garfo e faca, e ainda sobrou.

Troféu Pedra de Rosetta de Caligrafia Mais Indecifrável - Vai para o Bigode, instrutor da nossa oficina. Ele copiou a sentença de Tiradentes num pedaço de papel para o Paulo Augusto ler, e ninguém conseguia traduzir o que estava escrito. Foi preciso que voltassem ao Museu e pedissem uma cópia digitada para que sanássemos nossas dúvidas. Depois comprei um livro com a biografia do Bigode (Luiz Carlos Lacerda, de Alfredo Sternheim, para a Coleção Aplauso) e pedi para ele autografar, mas com menos de dez minutos consegui decifrar a dedicatória toda.

Música-tema da CineOP - São várias as candidatas: "Todos Estão Surdos", do Robertão ("Mas meu amigo, volte logo..."), "Rational Culture" do Tim Maia ("We are gonna rule the world, don't you know, don't you know") e até as marchinhas histórico-carnavalescas do Tião do Doce. Mas o grande prêmio - em homenagem, claro, a Zezé Motta - vai para Xica da Xica da Xica da Xica da Silva.

12/07/2009

Os bastidores de Oui Uai

4a Mostra de Cinema de Ouro Preto
Parte II
19-23 de junho de 2009

Descer ladeira até o Centro de Convenções indica uma custosa subida na hora da volta. É pouco mais de um quilômetro do meu albergue até lá, mas vai fazer isso várias vezes ao dia pra ver como a perna fica. Pelo menos o espaço armado lá dentro (o nome oficial é "Cine-Bar-Café") tem bancos e puffs esparramados pra aplacar cansaço e preguiça. E de madrugada - pois os shows noturnos também acontecem por lá - o álcool ajuda a criar coragem de caminhar morro acima no inverno ouro-pretano de lascar.

É no Centro de Convenções que nos reunimos para pegar o crachá e o material didático (leia-se: pasta de papelão, bloco de anotações e caneta) no primeiro dia da oficina de Realização em Curta Documental. Várias outras também acontecem por ali, a maioria de cunho teórico - História e Cinema Brasileiro, Conservação de Acervos Fotográficos, A Forma e a Informação no Documentário. A nossa é diferente: temos 4 dias para bolar, produzir e editar um documentário em curta-metragem de dez, quinze minutos.

Nosso instrutor é o Bigode, também conhecido por Luiz Carlos Lacerda, cineasta carioca que desde os anos setenta dirigiu um zilhão de curtas, médias e longas, dentre os quais a cinebiografia da Leila Diniz. Abre a aula com a tradicional introdução de primeiro dia: diga pra turma seu nome, sua cidade, sua profissão. Muitos publicitários (eu incluso), gente que já fez o curso da Escola Livre de Cinema (eu também), moradores de Ouro Preto (eu não) e estudantes de teatro (também não). Depois dá uma geral em termos técnicos - tipos de planos, planilhas de produção - e vai direto ao assunto:

- A produção da mostra me pediu que o tema do nosso curta se relacione de alguma forma ao Ano da França no Brasil. Como estamos em Ouro Preto, pensei em fazermos sobre a influência da Revolução Francesa na Inconfidência Mineira.

As idéias começam a surgir: vamos falar com historiadores? Com o diretor do Museu da Inconfidência? Com a curadora da exposição no Museu sobre Inconfidência e Revolução Francesa? Ou vamos atrás de fontes não-oficiais, investigar o lado B da História, entrevistar a maluca que se veste de Marília de Dirceu? Muita gente está bem familiarizada com o assunto (o que não é exatamente o meu caso) e contribui com suas sugestões.

Chega a hora de dividir as funções. Somos mais de trinta, o que se mostra gente pra burro - o número oficial de vagas era 25, e mesmo isso já seria muita coisa. Porque em documentário são poucos os departamentos: roteiro, direção, câmera, edição, produção. Nada de figurino, necas de direção de arte. E aí rola o esperado: todo mundo quer dirigir, ninguém quer produzir, no final ficamos com 8 roteiristas, 8 diretores e só 4 produtores pra dar conta dessa demanda toda. Eu também fujo da produção e fico no time do roteiro.



Claro: oito roteiristas também é demais. Fazemos uma reunião no andar de baixo, cercados por painéis com fotos da Zezé Motta, e é um custo decidirmos uma linha a seguir. As idéias são vagas, abstratas, e é preciso que o Bigode ponha ordem na casa para que pensemos objetivamente e anotemos (o presente do subjuntivo no plural é feio pra cacete!) uma lista de uns dez possíveis entrevistados. Enquanto isso, uma equipe já sai por Ouro Preto para fazer planos genéricos da cidade, que acabaram não sendo aproveitados porque já era fim de tarde e a luz não ficou boa.

Sábado, 20 de junho.



O primeiro dia de produção começa com uma filmagem com José Efigênio, um artista plástico (eu achava que era historiador, mas na legenda do filme tá artista plástico) que já adianta que a Revolução Francesa não teve efeito nenhum na Inconfidência, porque aconteceram na mesma época: a influência foi das idéias iluministas francesas, que inspiraram movimentos tanto lá quanto cá. Depois de um almoço meia-boca (não tinha nem carne que prestasse), filmamos com o ator Paulo Augusto de Lima, que recita trechos do "Romanceiro da Inconfidência" (Cecília Meireles, 1953) em locais apropriados como a Ponte e o Chafariz de Marília:

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza!

Domingo, 21 de junho.



Tião do Doce é uma figura folclórica de Ouro Preto. Vende cocadas e cajuzões a R$ 1,50 cada, geralmente em frente à Igreja de São Francisco de Assis, e é também compositor das canções e marchinhas que canta entre uma venda e outra. Eu tinha apostado com uma das colegas de oficina, ouropretana de nascença, que ele teria alguma música sobre a Inconfidência. Ela achava que não. Valia um cajuzão do próprio. Perguntamos pra ele e a resposta é sim: tem várias. Ganho o cajuzão e o Seu Tião ganha a honra de abrir e fechar o nosso curta com seu repertório batucado na caixa de doces:

Recordação de um passado presente
Da memória que ficou, ou ou
Os rochedos dessa terra
Contam como começou
A descoberta do ouro
Foi Portugal quem ganhou, ou ou



Domingo é o dia das figuras pitorescas: depois de registrarmos cenas da exposição sobre França e Inconfidência que acontece no Anexo do Museu, partimos para a filmagem com a bailarina carioca Adriana Andrade, que há anos transita por Ouro Preto vestida como Marília de Dirceu. Chapéus, vestidos, anáguas, sombrinhas. Fala em nome de Marília, assina Marília, respira Marília. A gravação dura um tempo considerável, ela chora ao contar casos de Tomás Antônio Gonzaga, permite que apenas poucos da equipe entrem na casa. Mas não sei se é tão pirada quanto pintam na cidade. Estranha, sim, mas me pareceu bem lúcida quando fala sobre os inconfidentes, como no depoimento que fecha o filme: "As pessoas geralmente não se lembram disso, a não ser no 21 de abril, que é aquela coisa meramente teatral. Ir à praça, botar um buquezinho de flor, meia dúzia de palavras discursadas, e acabou o 21 de abril o Brasil todo não sabe quem é Tiradentes nem sabe o que representou o peso que a atitude dessas essas pessoas tiveram pra nós."

Segunda, 22 de junho.



Até então, estava me sentindo meio fora d'água, sem muito o que fazer - com o roteiro pronto desde sexta, a maioria das decisões eram tomadas agora por diretores e produtores (e posteriormente na edição, que é onde realmente se resolve um documentário). Mas com o adiantamento de uma cena e a não-aparição do diretor responsável por ela na segunda-feira de manhã, acabo aceitando o convite para dirigi-la.

A cena é com João Aidar Filho, antropólogo e também colega nosso na oficina. Falou tanto sobre o assunto na pré-produção que o Bigode praticamente o intimou a dar seu depoimento perante a câmera. O cenário escolhido é a Escola de Minas e sua Biblioteca de Livros Raros. Sugiro colocar o João andando, pra variar um pouco - a maioria dos entrevistados falavam parados. O primeiro take é na biblioteca, o segundo no pátio (esse acabou não sendo aproveitado, porque tinha muito barulho de carros e motos) e o terceiro também no mesmo lugar, só que este último com o João sentado. Ainda na Escola de Minas, sou entrevistado pela TV Mostra e apareço depois nas telonas do Cine-Praça e Cine Vila Rica (quem quiser ver, tá aqui).



À tarde, mais Paulo Augusto recitando Cecília, desta vez na imponente casa de Tomás Gonzaga. Ele aproveita e lê também, dramaticamente, a sentença de Tiradentes: "E separada a cabeça do corpo, seja levada a Villa Rica, onde será conservada em poste alto junto ao lugar da sua habitação, até que o tempo a consuma!".

Terça, 23 de junho.
Na terça-feira já estou de volta a BH. Enquanto isso, ainda filmam em Ouro Preto - já tínhamos recebido os certificados e encerrado oficialmente a oficina, mas precisavam gravar com o dr. Rui Mourão, diretor do Museu da Inconfidência, e ele só podia na terça. E eu trabalhando em Beagá, pensando assim: essa trabalheira toda e não vou ver o resultado. O filme estrearia no Cine Vila Rica às 21 horas, fechando a CineOP, e sabe-se lá quando - e se - conseguiríamos uma cópia.

Conclusão: peguei o ônibus da Pássaro Verde depois do trabalho e voltei para Ouro Preto a tempo de prestigiar a estréia de "Oui Uai", nome franco-mineiro que nosso curta recebeu (suspeito que o Bigode já tinha o título na cabeça desde o começo). Paulo Augusto, o ator, e Marília de Dirceu, vestida a caráter, também compareceram. Seu Tião do Doce, infelizmente, juntou toda a família para assistir ao seu momento de glória mas errou de lugar e foi parar na Casa da Ópera, uma pena.

Mas quanto à cópia: foi mais fácil que eu imaginava. Os dezessete minutos e vinte segundos de "Oui Uai" já caíram na internet, é só clicar aqui e assistir no Vimeo. Maluco, engraçado e razoavelmente coeso, para um filme feito por mais de trinta cabeças. Fica aqui meu agradecimento a todos os colegas de oficina, à turma que ajudou na produção (transporte, câmeras, edição) e ao Bigode.

No próximo post, os prêmios dos melhores e piores da quarta CineOP.

01/07/2009

Chapeuzinho is not my lover



Após aproveitar o cancioneiro de John, Paul, George e Ringo em Os Três Porquinhos de Liverpool, chegou a vez de recontar outra historieta clássica, desta vez homenageando o Rei do Pop. Com vocês,

Chapeuzinho Culkin
Lucas Paio, 01/07/2009
NARRADOR:
Tonight's story is somewhat unique
And calls for a different kind of introduction
A monster had arrived in the village
The major ingredient of any recipe for fear is the unknown

PRIMEIRO ATO – A CASA DE CHAPEUZINHO VERMELHO

A mãe de Chapeuzinho encarrega a filha de uma perigosa tarefa:

MÃE:
There's something you should know
You've got a place to go

Chapeuzinho entende rápido: vai se embrenhar na floresta para levar docinhos à sua avó. Sem delongas, começa a encher sua cesta de quitutes. Sua mãe recomenda cautela.

MÃE:
Come on, ease on down, ease on down the road
Don't you carry nothing that might be a load

Na minha versão, a mãe é ainda mais irresponsável e manda a filha pro bosque num horário pouco recomendado.

MÃE:
It's close to midnight
And something evil's lurking in the dark

Chapeuzinho treme nas bases, mas a mãe não pode se dar ao luxo de perder sua entregadora e encoraja a menina.

MÃE:
You have to show them that you're really not scared
'Cause this is thriller, thriller night
And no one's gonna save you from the beast about to strike

CHAPEUZINHO:
People always told me:
“Be careful of what you do”.

MÃE:
So take my strong advice:
Just remember to always think twice.

Chapeuzinho tranqüiliza a mãe e põe o pé na estrada.

CHAPEUZINHO:
Wherever I go, whatever I do
I'll always come home.



SEGUNDO ATO – O BOSQUE
Lucas Paio, 01/07/2009
Alheia aos perigos da floresta, Chapeuzinho Vermelho cantarola sorridente.

CHAPEUZINHO:
Lovely… is the feeling now
Fever… temperature's rising now

Um lobo gigante, à espreita, observa a graciosa menina e murmura sozinho:

LOBO:
You ever want something
That you know you shouldn't have?
The more you know you shouldn't have it,
The more you want it.

Ele vem andando de costas e intercepta Chapeuzinho no meio do caminho.

CHAPEUZINHO, desdenhosa:
Look who just walked in the place
Dead and stuffy in the face

LOBO:
I've been walking like a shadow,
Right behind you by myself

CHAPEUZINHO:
Don't wanna see your face, you better disappear

LOBO:
Oh, baby, give me one more chance

CHAPEUZINHO:
What do you want from me?
What do you want from me?
Tired of you haunting me, yeah yeah!

Chapeuzinho lembra-se das sábias palavras de sua mãe:

VOZ DA MÃE, pairando numa nuvenzinha sobre a garota:
You wanna stay alive, better do what you can
So beat it, just beat it

E ela sai andando, sem olhar pra trás.

LOBO:
I started talking
She kept on walking

Mas o lobo sabe para onde a garota se dirige e faz uma promessa a si mesmo.

LOBO:
I'll be there, I'll be there…
The girl is mine!

TERCEIRO ATO – A CASA DA VOVOZINHA

Chapeuzinho Vermelho chega ao sobrado de sua progenitora, encontra a porta aberta e entra sem cerimônia.
Lucas Paio, 01/07/2009
VOVOZINHA:
Sit yourself down, take a seat

Chapeuzinho mostra sua garbosa cesta e oferece os doces à avó.

CHAPEUZINHO:
Take, take, take
What you need

A velha se farta de bolinhos e quindins. Em seguida, começa a se aproximar da neta de maneira não muito cristã.

VOVOZINHA:
Hold my hand
Feel the touch of your body cling to mine

Chapeuzinho acha aquilo esquisito. Há algo muito estranho nessa vovó.

VOVOZINHA:
Am I amusing you?
Or just confusing you?
Am I the beast you visualized?

A menina então percebe: a face peluda não é só falta de depilação, nem o nariz pontudo é o resultado de numerosas cirurgias plásticas. É o lobo quem está por trás das vestes da infeliz senhora.

CHAPEUZINHO:
I am tired of this devil!
I am tired of this stuff!

VOVOZINHA:
Why don't you believe me
When I say that I am true?
Is that scary for you, baby?

Vendo que a menina não é assim tão tapada, o lobo tira a touquinha cor-de-rosa e os óculos de leitura.

LOBO:
I found my happiest days
When you came to see your grandma in may

CHAPEUZINHO, tentando escapar:
I don't wanna get eaten alive
'Cause you're so dangerous

LOBO, escancarando a bocarra:
I don't know what’s gonna happen to you baby
But I do know that I want you

Pausa para acalmar os ânimos da platéia.



ÚLTIMO ATO - AINDA NA CASA DA VOVOZINHA

Ouvindo os gritos e a cantoria, um caçador que por ali passava resolve entrar pra ver se é briga ou é brahma. Encontra uma menina de capuz vermelho e um lobo de camisola e pantufas, ambos se acusando mutuamente.

CHAPEUZINHO:
You know he really tried
To take me down by surprise

LOBO:
She’s so dangerous
The girl is so dangerous

Em meio à balbúrdia, ouve-se uma voz ao longe, fraca e roufenha.

VOVOZINHA:
Take me back
Take me back where I belong

Assombro geral: a vovozinha está viva, dentro do ventre do lobo. O caçador pega suas armas e desafia o canídeo.

LOBO, em posição de luta:
Beat me, hate me
You can never break me
Will me, thrill me
You can never kill me

E é com facas e flechas que o caçador atinge o lobo, abre sua barriga e retira lá de dentro a pobre aposentada.

LOBO, moribundo:
You put a knife in my back
Shot an arrow in me
Tell me, are you the ghost of jealousy?

VOVOZINHA, atordoada:
Where have I been?
What lifetime was I in?
Suspended between time and space

CHAPEUZINHO:
Oh, my God, can't believe what I saw

Enquanto limpa o suco gástrico da cara da velha, o caçador demonstra preocupação:
Lucas Paio, 01/07/2009
CAÇADOR:
Will you tell us that you're ok?

VOVOZINHA:
But I am speechlees, speechless

Já Chapeuzinho é só alegria. Canta, dança, rodopia.

CHAPEUZINHO:
I believe in miracles
And a miracle has happened tonight

E depois, para o corpo inerte do lobo:

CHAPEUZINHO:
Who’s bad?

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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