15/10/2010

Uma ida à Cidade Proibida

 

Antes de mais nada, desfaçamos uma confusão. A Cidade Proibida não é nem uma cidade e nem é mais proibida. Só é chamada de “cidade” pelo tamanho extravagantemente exagerado; fica no coração de Beijing e foi o lar-doce-lar dos imperadores chineses por uns bons 500 anos. O “proibida” ficou no passado: hoje você só precisa desembolsar coisa de 15 reais para ter acesso ao complexo. Mas durante todos aqueles anos, apenas quem fosse membro ou empregado da família real podia passar pelos portões. Cinco séculos de gerações chinesas não puderam dar nem uma bisoiada na residência de seus soberanos. 

Ser imperador da China não era tão divertido como soa. A autonomia era zero e os caras eram mantidos sob rédea curta. Só podiam fazer duas refeições ao dia, trazidas pelos eunucos e escolhidas por funcionários do governo: conhecer as preferências gastronômicas do imperador poderia ajudar um potencial assassino, por isso ele só podia comer o que lhe davam e ainda assim, apenas duas bocadas de cada prato. Depois de um dia estafante de burocracias imperiais, ter uma noite a sós com uma das garotas do palácio também não era mole. Astrólogos do império escolhiam a mulher mais adequada para o dia, e eunucos vigiavam todo o ato, cuidando para que o chefe preservasse seu corpo imperial. 

 
Essa cama já viu de tudo. 

Em compensação, ele não podia reclamar de espaço. Os números da Cidade Proibida chegam a ser assustadores: 

980 edifícios
8707 salas
720 mil metros quadrados
753 metros de leste a oeste
961 metros de norte a sul
12 anos de construção
lar de 24 imperadores 

Depois que o império deu lugar à república, no começo do século 20, o lugar foi finalmente aberto para o povo e transformado no “Museu do Palácio”, nome oficial da Cidade Proibida hoje em dia. Como dá pra imaginar, visitar o troço em um dia só obriga o turista a estabelecer prioridades. Na primeira vez que fui, gastei umas duas horas só perambulando pelo Jardim Imperial. Quando vi o tanto que faltava até a outra ponta, tive que apressar o passo e deixar o olhar clínico para visitas futuras. 

 

A entrada da Cidade Proibida é foto-clichê para quem vem a Beijing. Foi ali, em frente à Praça da Paz Celestial (que é só atravessar a rua), que Mao Tsé-tung deu início à China comunista há 61 anos. Hoje a fachada tem um retratão do Mao e as frases “Longa Vida à República Popular da China” e “Longa Vida à Grande Unidade dos Povos do Mundo”. 

Aí você entra e começa a andar. E anda, olha, tira foto, e olha mais, e anda mais um bocado, e a coisa não acaba. Chama atenção a quantidade de prédios que foram queimados e reconstruídos, alguns até mais de uma vez. Como acontece com qualquer atração histórica, para aproveitar de verdade, há que se interessar pelo assunto e ter um certo conhecimento prévio. É como ir a Ouro Preto sem saber nada de História do Brasil e Inconfidência Mineira: você só vê ladeiras e casarões antigos. Na Cidade Proibida os edifícios mais importantes têm placas informativas e contam que aqui se fazia isso, ali dormia fulano, mas são tantos nomes chineses que dá pra ficar perdidão. Ou então não esquente, relaxe e aproveite o privilégio de passear por um lugar que tantos chineses não puderam ver. 

 

 

 

 

 
Essa enorme pedra (16,75m x 3,07m, e espessura de 1,7m) foi esculpida  fora do palácio, e transportada no inverno com o pessoal jogando água na rua para fazer um caminho congelado e rolar o negócio por cima. 

 
Detalhe da mesma pedra. 

 
Portas, e mais portas, e mais portas... 

 
Olha que curioso: um telefone-bebê tirando foto de um bisavô. 

 
Existem áudio-guias em (supostamente) trocentas línguas diferentes, incluindo romeno, suaíli, esperanto e outras que não conheço nem de nome. Na prática é diferente. O português estava em falta, fui no inglês mesmo, mas foi só um gasto e um peso a mais no passeio, tudo o que falam no áudio-guia está nas plaquetas. 

 
Outro problema é que na maioria das salas importantes não dá pra entrar. O que dá de gente de cara grudada no vidro... 

 
Em nenhuma atração chinesa podem faltar o dragão com corpo de serpente... 

 
...a tartaruga feiosa... 

 
...o elefante-curupira... 

 
...sem esquecer, claro, do bico de garça. 

 
Tanto trabalho pra fazer, e galera brincando de estátua. 

 
Família uniformizada, família feliz. 

 
"Puxa meu dedo!" 

   
Não parece que eles tão sapateando? 

 
Depois de tanta andança, a sonequinha é merecida... 

 
Adoro essa placa. Em outras palavras: "se ferrou, trouxa". 

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Lucas Paio já foi campeão mineiro de aviões de papel, tocou teclado em uma banda cover de Bon Jovi, vestiu-se de ET e ninja num programa de tevê, usou nariz de palhaço no trânsito, comeu gafanhotos na China, foi um rebelde do Distrito 8 no último Jogos Vorazes e um dia já soube o nome de todas as cidades do Acre de cor, mas essas coisas a gente esquece com a idade.

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