12/04/2005

Não se esqueça da minha Calota.



Domingo, meio-dia e pouquinho. Estou assistindo na TV um documentário interessantíssimo sobre as causas e conseqüências políticas do ato institucional número 5, quando ouço um barulho na rua.

(Pra quem estou mentindo? Eu tava vendo era Turma do Didi. Com minha mãe como cúmplice. Depois a Globo ainda passou Impacto Profundo, aquele filme horrível sobre o cometa que provoca um tsunami em Nova York. Mas esse eu só vi um pedaço.)

Bom, o barulho eu ouvi mesmo. Olhei pela janela da sala de TV e vi uma mulher, loira por sinal, raspando o pneu dianteiro direito no meio-fio, de um jeito muito feio. O pneu ficou branco e a calota simplesmente caiu na calçada. E a loira, mais ocupada xingando quem quer que estivesse ao seu lado (uma criança ou um cachorro, não deu pra ver direito), arrancou o carro e foi embora, deixando a calota solitária.

Ficamos esperando a mulher aparecer de novo, mas é claro que ela não voltou. Nem ao menos desceu do carro na hora da batida, pra ver se tinha acontecido alguma coisa com o pneu. Provavelmente tenha percebido só hoje que tem alguma coisa faltando na sua roda. Talvez nem saiba que exista algo chamado "calota" num automóvel. No fim das contas, minha mãe pegou o troço e botou dentro do garagem do nosso prédio, com um bilhete explicando aos desavisados que aquilo não era lixo. Está lá até agora. Daí não sei se devo reportar o objeto perdido às autoridades, se devo deixá-lo lá até se decompor pela ação da natureza ou se transformo a reluzente calota da Volkswagen no mais novo item da minha coleção insólita, assim meio sem critério, que já inclui:

1) Uma baqueta quebrada e um pedaço de prato de bateria, ambos doados pelo baterista da minha banda, Adriano Domeniconi, conhecido pela mão pesada e a estranha habilidade de causar estragos quando está por perto.

2) Um X de um carro da Fiat. Uma vez estávamos saindo de um boteco chamado "Sapão Beer" (podem rir) e encontramos um monte de letrinhas de traseira de carro no chão. Meu amigo Leandro Fabel pegou o I da Fiat. Eu fiquei com um X.

3) Uma bolacha de chopp da Kaiser.

4) Um saco de vômito de avião (sem usar, né?), doado por meu pai.

5) Um punhado de serpentinas que caíram em mim durante um show do Los Hermanos, no meio da música "Todo Carnaval Tem Seu Fim". Mencionei essas serpentinas neste post aqui, nos primórdios do bISELHO.

E aí? Alguma sugestão?

08/04/2005

Ensaio Sobre José Saramago



O leitor que desavisado abre a esmo um livro qualquer do lusitano José Saramago certamente há de se assustar com o amontoado de letrinhas, não uma em cima da outra, cabe a ressalva, e sim dispostas na ordem comum da escrita ocidental, mas ainda assim intimidantes de um modo ou de outro. É que Saramago parece ignorar, ao menos à primeira vista, sinais de pontuação tão usuais nos textos com que diariamente temos contato, tais como o chamativo ponto de exclamação, a indagativa interrogação, a eterna parceria dos dois pontos com o travessão, o pausático ponto e vírgula e por aí vai, a lista é longa e você que me lê através da tela de um computador poderá conferir os outros símbolos no próprio teclado à sua frente. Isso sem falar nos parágrafos que ocupam cinco ou seis páginas de cada vez, mal dando trégua para respirarmos no meio dos diálogos extasiantes ou das divagações acerca da psique de seus personagens. Da primeira vez que um livro dele caiu em minhas mãos, pensei com meus borbotões, Deus do céu, embora a bem da verdade devo ter exclamado coisa ligeiramente diferente, Puta merda, ou algo do tipo. Não me acovardei, no entanto. Pus-me a ler o volume que tinha em mãos e que ia se tornando cada vez mais instigante à medida que avançava, Ensaio Sobre a Cegueira era seu nome, e ainda hoje é um de meus livros prediletos. A trama parte de uma epidemia insólita, que surge do nada e contagia a todos pelo simples contato, e não se trata de ebola ou pneumonia asiática, mas de cegueira, vejam só. Os personagens não possuem nomes, sendo chamados apenas de o médico, o mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho de tapa-olho. Fantástico. Já o segundo livro que li do mesmo autor, nos primeiros meses deste presente ano, esquece o aninomato e traz o nome do protagonista no próprio título, O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como há de se imaginar, narra a já conhecida história de Jesus, Yeshua como se diz em hebraico, JC para os preguiçosos, desde o início do começo, no dia de sua concepção, até o conhecido fim mostrado em detalhes, fortes para algumas pessoas, por Mel Gibson, em sua aventura bíblica nos cinemas. Enquanto o Ensaio prende nossa atenção em tempo integral, o Evangelho revela-se cansativo em determinados pontos, talvez por focar durante mais de cem páginas não no Jesus em questão, mas em José seu pai, em quem Saramago, seu xará, deposita a culpa sobre a morte das criancinhas em Belém, a mando do rei Herodes. Os episódios mais conhecidos sobre o filho de Deus estão lá, em leves pinceladas nos capítulos finais, mas o melhor capítulo, sem dúvida, é aquele em que Jesus trava um caloroso debate com Deus e o Diabo. É possível até mesmo imaginar um elenco para essa cena na tela grande, Jim Caviziel, claro, como o Nazareno, Al Pacino fazendo as vezes do Diabo e Jim Carrey como Deus, não o Deus a quem rezamos todos os dias, o Papai do Céu das criancinhas, mas Seu substituto, pois nisso Carrey já tem experiência, haja visto em Todo-Poderoso, o filme. E se você chegou até o fim deste texto, marcado pelo característico excesso de vírgulas saramaguiano, sem seqüelas graves ou traumas mais profundos, vale a pena encarar um livro inteiro do escriba português. Não precisa comprar, peça emprestado, o importante é a leitura, não deixar mais milionário um ganhador do Nobel.

06/04/2005

Nós já invadimos a praia deles



Estou chocado. O orkut de repente apareceu todo em português. Meu scrapbook virou um livro de recados. Meus testimonials viraram depoimentos. Só a irritante mensagem "Bad, bad server. No donut for you" continua a mesma coisa. Ainda não devem ter encontrado uma tradução eficiente. Que tal "Servidor mau, muito mau. Nada de rosquinhas pra você..."?

Bom, pelo menos agora todo mundo vai descobrir o que é "cuisines".

04/04/2005

Absurdos na terra do frango xadrez



Um dos motivos pelo qual eu gostei muito de Kill Bill, agora percebo, foi o fato de ser uma sátira às absurdas peripécias acrobáticas típicas dos filmes orientais. Não consigo engolir muito esse tipo de coisa. É legal, até. Aliás, quando vi O Tigre e o Dragão, quando uma cena de luta acabava eu torcia pra outra começar. Kill Bill faz piada de tudo isso, em cenas como a Uma Thurman decepando os 88 neguinhos (volume um) e no treinamento com o Pai Mei (volume dois). Hoje fui ver Herói, um dos filmes dessa nova safra de importados orientais que tá pintando por aí.

(Pausa para informação essencial: pessoal, Herói não é um filme do Tarantino. O Tarantino não tem nada a ver com a produção. Simplesmente assistiu o filme na Ásia e sugeriu aos produtores que usassem seu nome para promovê-lo no mercado ocidental, daí o "Quentin Tarantino apresenta..." no cartaz. Titio Quentin é mestre da picaretagem. Não bastasse ter dividido seu último filme em dois pra ganhar mais uns trocados, ainda anunciou que pretende fazer o mesmo com o próximo. Eita...)

Voltando ao Herói. Sabe, o filme é até bacana. Tem uma fotografia belíssima, direção de arte competente, e as cenas de luta são divertidas de se ver. E engraçadas, sem dúvida. Não tem como não rir quando os personagens quicam na água ou planam pelo cenário. Eles fazem mais do que desafiar as leis da física. É como se cuspissem na cara do Isaac Newton e dissessem: "Você está ultrapassado, meu caro, o lance hoje é rodopiar mil vezes pelo ar antes de furar alguém".

Mas chega uma hora que cansa. As frases de efeito ditas a toda hora por todo mundo não ajudam muito a construir uma situação, digamos, próxima da realidade. Pode reparar, nesses filmes de olhos puxados todo mundo é filósofo. Até o ajudante do pedreiro que construiu a Grande Muralha tem alguma pérola da sabedoria para oferecer ao público. Há quem goste, claro, mas não é pra mim. Sou mais os diálogos e atuações realistas de um Antes do Pôr-do-Sol, a sacação divertida de um Kill Bill, as frases de efeito de um Exterminador do Futuro 2 ou mesmo as músicas de um Rei Leão. Isso é viver, é aprender.

02/04/2005

Mais pop do que nunca



Karol Wojtyla morreu. Talvez já tivesse batido as santas botas há alguns dias e a turma do Vaticano fingisse que não, como no clássico sessão-tardino Um Morto Muito Louco. Mas hoje, 2 de abril de 2005, às 16h37, horário de Brasília, anunciaram, oficialmente, que o sumo pontífice se foi. Esperem pelas próximas semanas um Globo Repórter especial do papa, trocentas piadinhas no Kibe Loco e um tempão de especulação sobre o próximo sucessor de São Pedro até a fumaça branca dar o ar de sua graça na praça que leva o nome do primeiro papa da História.

Li na Super Interessante de março uma reportagem sobre a vida de João Paulo II, e o fato que mais me impressionou não foram as conspirações políticas para a derrubada do comunismo, nem certas atitudes estranhas tomadas por ele, como visitar a África, um continente completamente devastado pela aids, e discursar contra a camisinha. O que mais me chamou a atenção foi o número de pessoas que ele canonizou. Em 26 anos de papado (palavra engraçada essa, papado), João Paulo botou no céu nada menos que 482 santos. Isso é mais do que todos os papas anteriores canonizaram em mais de trezentos anos. É santo à beça.

Certamente essa festa da uva divina deve arracetar alguns problemas. Por exemplo, qual será a ocupação desses novos santos? Temos São Pedro, que guarda a porta do céu, ao menos nas piadas. Temos São Jorge, que mora na Lua. Temos Santo Antônio, o casamenteiro, e São João, originador das festas juninas (sim, juninas não vem de junho, mas de joaninas, relativas a João). Temos o padroeiro dos agricultores, o padroeiro dos médicos, o padroeiro dos aviadores e até o padroeiro dos bêbados e boêmios, Santo Onofre. Mas e esses santos todos que João Paulo II criou?

- Ah, esse aí ajudava a pintar os vidros das igrejas, então bota aí: santo padroeiro dos pintores.
- Não dá, já tem o São Lucas nessa categoria.
- Então seja mais específico, coloca padroeiro dos pintores de vidros...
- Também não pode, o São James Grissinger já ocupou a função.
- Vixi, então coloca santo padroeiro dos pintores de vidros em igrejas e não se fala mais nisso.

Até achei um site interessantíssimo sobre santos padroeiros, e tentei achar um que fosse adequado pra mim. Ainda estou na dúvida. Tem a Santa Cecília, padroeira dos músicos, São Bernardino de Sena, padroeiro dos publicitários, São Pedro Nolasco, padroeiro dos universitários. Mas estou mais inclinado a virar devoto de São Mathurin, padroeiro dos palhaços. Ao menos o nariz vermelho já tenho, vive no porta-luvas do meu carro para qualquer emergência.

Esse número absurdo de santos (tem até o padroeiro do windsurf, me explica isso!) traz ao menos uma vantagem: ajudar as pessoas a ganhar um nome melhor. É que muita gente ainda escolhe o nome do pobre recém-nascido baseado no santo do dia. "Hoje é dia de Santa Escolástica, então você, minha filha querida, vai se chamar Escolástica". E a coitada vai odiar a hora da chamada pelo resto da vida. Mas com esse boom de santos proporcionados por João Paulo II, espera-se que isto diminua. "Hoje é dia de Santa Escolástica, Santa Águeda e Santa Jacinta Mariscotti", diz o pai, ainda indeciso. E a menina respira fundo, pensando com seus borbotões: "Por quê que eu não fui nascer numa família budista?..."

01/04/2005

31/03/2005

AAAAAaaaahhhh svêniaaaaaaa...



Ontem passei na locadora atrás de um DVD pra assistir à noite. Fui na seção de filmes antigos. "Olha, Laranja Mecânica, até hoje não vi". E continuei não vendo, o clima não estava para Laranja Mecânica. Lançamentos, tinha lá Elefant do Gus Van Sant... Minha Vida Sem Mim... não, o clima também não estava pra esses. Fui então pra seção dos desenhos animados, que não costumo freqüentar muito. E voltei pra casa com o DVD do Rei Leão.

Até agora estou com as músicas na cabeça. "Circle of Life", que abre o filme com a frase que dá nome a este post. "I Just Can't Wait To Be King", que no videogame pra Super Nintendo era a fase que eu mais gostava. "Hakuna Matata", hino dos preguiçosos, cuja versão em inglês é muito melhor que a nacional ("It's a problem free philosophy virou "Isso é viver, é aprender", pode uma coisa dessas?"). "Can You Feel The Love Tonight", vencedora do Oscar de melhor canção. E ainda tem o clássico tema incidental "The Lion Sleeps Tonight", aquele do "auimbauê, auimbauê...", que já apareceu até no Ace Ventura. Talvez esse seja o desenho da Disney com as músicas mais legais.

Existem duas continuações para O Rei Leão, e não vi nenhuma. Dificilmente prestarão. A segunda parte trata do filho do Simba, e provavelmente é a mesma história maquiada para parecer um novo filme, como o são muitas continuações que seguem a vida dos filhos (tipo "De Volta à Lagoa Azul"). E o terceiro, cujo trailer aparece no DVD, deve ser um saco. É nada mais que Timão e Pumbaa assistindo o primeiro O Rei Leão e fazendo comentários pseudo-engraçadinhos, grande parte deles tendo alguma coisa a ver com peidos.

E o DVD de Os Incríveis, quando chega?

30/03/2005

Alguém me explica o que está acontecendo?



A gente sempre vê filmes sobre lapsos no tempo, wormholes, coisa e tal, mas nunca acredita que isso um dia pode acontecer conosco. Veja como são as coisas: ontem (pra mim), ou dia 11 de março, há mais de duas semanas (pra vocês), escrevi um post aqui no bISELHO sobre as novelas da Globo. Isso foi quase às três horas da tarde. Às quatro, meu primo passou aqui de carro com o resto do pessoal da banda, e fomos nós para Conselheiro Lafaiete, rumo ao que seria o segundo show intermunicipal do ABUNN. O primeiro foi em Lavras, em dezembro passado, e foi muito legal. Às cinco e meia, mais ou menos, já tínhamos chegado em Lafaiete, e às nove, com o estômago satisfeito depois de duas pizzas, nos dirigimos para a casa de shows onde tocaríamos mais tarde. Agito Pub era o nome do local. Já passava da uma da manhã quando subimos ao palco, e fizemos um show longo, com intervalo no meio ainda por cima, terminando pra lá das três, mortos de cansaço. Só que tínhamos que esperar os freqüentadores todos irem embora, para acertarmos a parte financeira com os donos da casa. Resultado: cinco horas da manhã e nós ainda lá, quase caindo de sono, ou caindo de verdade, eu mesmo cheguei a cochilar por meia hora num canto vazio do palco. Iríamos dormir por lá e sair por volta de meio-dia, mas o Bruno, meu primo, insistiu que ainda tinha energia para dirigir e partimos para Beagá assim que clareou. Cheguei em casa às sete e fui direto dormir, coisa que fiz até agora há pouco (assim pensei), quando acordei, tomei banho, liguei o computador e só então descobri, ao entrar numa página de notícias, que de 11 de março eu tinha pulado direto para o dia 29! Alguém me explica? Alguém sabe me dizer se, além dos tradicionais e irritantes buracos na estrada para Lafaiete, surgiram buracos negros e ninguém me avisou? Resultado: um amontoado de faltas na faculdade difíceis de explicar, e uma Semana Santa perdida, sem falar que todos agora pensam que eu parei de atualizar o blog. Vê lá se eu faria uma coisa dessas?

11/03/2005

Ô cride, fala pra mãe...



Senhora do Destino, segundo a Veja a novela mais assistida no Brasil em todos os tempos, acaba hoje. Olha, não sou um anti-novelístico ferrenho. Assisti a praticamente todos os capítulos de A Próxima Vítima, quando reprisaram em 2000. Já vi muita Malhação na vida, nos tempos em que Dado não era o Dolabella, mas um lutador de jiu-jitsu, e o Mocotó ainda não era uma bola que apresentava o Vídeo-Show. Sei dizer quem explodiu o shopping e ainda consigo cantar boa parte do clássico tema de Rei do Gado ("Sou desse chão onde o rei é peão...").

Mas essa Senhora do Destino... Deus do céu. Ô coisa horrorosa. Nenhum personagem marcante, nenhum mistério a ser resolvido, nenhuma angústia reservada para o último e derradeiro capítulo. Ontem à noite tava passando o funeral de um dos vilões. Todo mundo de roupa preta e guardas-chuvas pretos, debaixo de uma chuva torrencial, e uma música tétrica ao fundo. Enterro com chuva é o clichê dos clichês. E sinceramente, é uma vergonha que seja essa a novela mais vista de todos os tempos, se é que a estatística está correta, mas não duvido nada. O povo não quer ver personagens com conflitos psicológicos ou dramas profundos. Quer ver é o maniqueísmo de sempre, bem contra o mal, preto no branco, e ponto. E o engraçado é que semana que vem começa a próxima novela e Nazaré, a vilã-mor do folhetim, será apenas mais um nome adormecido na cabeça das pessoas. Como Maria Clara Diniz. Ou seja: quem?

Um dia, vou ser contratado pela Globo e eles vão me dar total liberdade pra escolher o elenco que quiser. Aí vocês verão o doutor Albieri clonando Sassá Mutema, a Rainha da Sucata casando com o Rei do Gado e dando origem a uma linhagem nobre, o alquimista Raimundo Flamel ludibriando Tonho da Lua, o vampiro Vlad metendo medo nos Irmãos Coragem, Tieta do Agreste discutindo com Filomena Ferreto, Juma Marruá duelando com Ana Raio pelo amor de Zé Trovão, quando não mais que de repente aparecerá um sujeito meio retardado que anunciará, triunfante: "Jamanta não morreu! Jamanta não morreu!". Podem esperar.

07/03/2005

Ah, o cotidiano...



Choveu em Belo Horizonte por dias e dias. Ainda estava chovendo quando fechei a porta da sala de TV e fui ver Narradores de Javé, filme brasileiro, muito bom por sinal. Quando abri a porta de novo, só umas poucas nuvens habitavam o céu azulão. Assim, de repente. Viva Rá.

Ontem fui ver Menina de Ouro com meu pai no Pátio Savassi. Tava lotado e sentamos na primeira fileira. Como é difícil ler a legenda lá na frente. No clímax do filme (cujo final está sendo alardeado pela imprensa de forma vergonhosa, até no Fantástico de ontem contaram o filme inteiro), a luzinha da saída de emergência começa a piscar, as portas se abrem e a projeção pára no meio. Incêndio? Sei lá, mas saímos andando. Atrás de mim, uma senhora levou um tombo fenomenal, afoita para escapar da sala. Foi quando uma funcionária do cinema começou a chamar todo mundo de volta: "Foi só um probleminha com a luz, gente! O filme tá voltando! O filme tá voltando". Foi só pra avacalhar a exibição, aposto.

Mais estranho é o Marista Hall, que mudou de nome. Chama-se agora Chevrolet Hall. Xé-vro-lé-róu. É difícil de pronunciar, vou custar a acostumar. E quem não vai?

Revista Veja, a última que saiu. Entrevista com Severino Cavalcanti, presidente da Câmara. Pergunta: "O senhor não gosta de ler, assistir a filmes?" Severino: "Às vezes, leio um pouquinho os jornais para saber se estão falando mal de mim. Quando falam bem, fico cheio de vida. Quando falam mal, tenho piedade, porque estão cometendo uma grande injustiça. "E cinema, o senhor vai de vez em quando?" Não sou muito chegado. Não me lembro qual foi o último filme que vi no cinema. Já faz uns quarenta anos". Com essa erudição toda, devia é ser Ministro da Cultura.

Só pra complementar: acabei de tomar um sustaço com um passarinho que bateu na minha janela, nesse exato momento. Outro. O último, que trombou no vidro no dia 10 de agosto de 2004 e originou até música, caiu no chão e parece que passou desta para melhor. O de hoje apenas levou a pancada e voou para o outro lado. Deve estar por aí, assoviando pelos céus, fingindo que não aconteceu nada.

04/03/2005

Hoje eu vou fazer uma prece...



São Pedro foi viajar e esqueceu ligado o seu RainyPlus2000, a máquina de fazer chover. Só pode. Quarta-feira amanheceu chovendo aqui em Beagá, e desde então o máximo de trégua que houve foi de uns vinte minutos. Estou me sentindo na Arca de Noé, quando choveu 40 dias e 40 noites e os animaizinhos subiram de dois em dois. Ou em Macondo, cidade fictícia do excelente livro Cem Anos de Solidão, onde choveu por quatro anos, onze meses e dois dias. Ou em Iriri-ES, no reveillón 2003/2004, quando fui pra praia e voltei branco por causa das gotas múltiplas que não cansavam de cair do céu. Até hoje tenho trauma daquela cidade.

Seriam as águas de março fechando o verão? Porque se for, tão levando muito a sério esse negócio de fechar com chave de ouro.

01/03/2005

E não é que assisti ao Oscar?



É. Clintão, o imperdoável, não deixou o bom companheiro Scorcese pôr as mãos, finalmente, na sua almejada estatuetazinha. Sua Menina de Ouro brilhou em praticamente todas as categorias principais (filme, direção, atriz, ator coadjuvante), enquanto O Aviador até levantou vôo no começo, papando uma porção de categorias técnicas (merecidas), mas perdeu o rumo no melhor da festa. Deu até dó.

No final das contas, participei do Bolão do Saladestar de última hora e consegui acertar metade das categorias, assim meio chutando. 38 pontos no total, o que me valeu um avulso vigésimo segundo lugar (duvida? tá aqui). Ainda não vi o filme do Clint nem o do ceguinho cantor. Agora que ganharam oscares (ou seria óscares?), quem sabe voltam a um número maior de salas. Vi os outros três candidatos a melhor filme - O Aviador, Sideways e Em Busca da Terra do Nunca. Bons, mas nenhuma brastempe. Sideways acabou levando só o de roteiro adaptado. Kate Winslet não ganhou prêmio por Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, mas o filme ganhou o de roteiro original para o Charlie Kauffman, que mostrou que Nicholas Cage o interpretou muito bem em Adaptação, com aquela timidez toda. A Kate parecia muito feliz com o prêmio do Kauffman, quase chorou.

Chris Rock foi o comentarista sem graça desse ano. Cara mala. Os Incríveis tinha que levar melhor animação, e levou. A mãe do Clint Eastwood parece ser uma velhinha bacana, noventa e seis anos nas costas e lá, marcando presença. O cabelo do cara do Counting Crowes estava genial. A "tradução simultânea" da Globo foi uma porcaria, lógico. Diários de Motocicleta, um dos melhores filmes do ano passado, só ganhou melhor música. Closer - Perto Demais, um dos melhores que vi nesse começo de ano, não levou nada.

Enquanto isso, Bushinho, ele mesmo, o presidente, ganhou o prêmio de pior ator no Framboesa de Ouro, pelo Fahrenheit 11 de Setembro. Lugar estranho, essa Roliúde...

18/02/2005

Hipóteses



Os competentes advogados de defesa conseguiram. Arrumaram testemunhas tão famosas, pessoas tão conhecidas e amadas pelo grande público, que ficou difícil para o júri achar que estivessem mentindo sobre a reputação do tio Michael. Gente do porte de Quincy Jones, Elizabeth Taylor e Stevie Wonder, que jurou não ter visto nada. Dava até pena da promotoria, literalmente massacrada no aguardado desfecho do julgamento do século, embora, a bem da verdade, o século esteja ainda engatinhando.

Mas ninguém poderia prever... aquilo. Os jurados já estavam indo para a salinha onde decidiriam o veredito, convictos da inocência do músico, quando o promotor tirou não um ás, mas um baralho inteiro da manga. Disse ao juiz:

- Se me permite, Meritíssimo, gostaríamos de chamar mais uma testemunha.

Sim, pode chamar quem você quiser, diz o juiz, com sua peruca de cabelos brancos cacheados, visivelmente cansado depois daqueles meses todos de chateação. O promotor se levanta, decidido.

- Pois bem. A promotoria chama... Michael Jackson!

Abrem a porta e entra um negão boa-pinta, recebido por uma saraivada de flashes de câmeras, rodeado por exclamações dos jornalistas e espectadores ali presentes. Não guarda semelhança alguma com aquele senhor albino acuado no banco do réu, mas... pensando bem... se aquele menino peralta dos Jacksons Five não tivesse retalhado a cara em trocentas cirurgias plásticas... se não tivesse desbotado tanto...

Em poucos minutos, todas as televisões do mundo já estão mostrando o depoimento do sujeito. Um pouco abatido, mas ainda mantendo o bom-humor, ele conta tudo, depois de décadas escondido da sociedade, num calabouço escuro em Neverland. Conta como, pouco depois de lançar o multiplatinado álbum Thriller, tornou-se um astro de primeira grandeza ao apresentar ao mundo o moonwalk. Como, na mesma noite em que andou "dix costax" pela primeira vez em público, recebeu visitas de lendas da dança como Fred Astaire e Gene Kelly. Como, pouco depois de irem embora as ilustres presenças, foi abordado por um ser alienígena sem nariz, que lhe disse "Sua fama será minha" e tomou sua forma física sem nem perguntar se podia. Como passou os vários anos seguintes trancafiado no subsolo de sua própria casa, tendo como companhia apenas uma televisão, de onde acompanhou toda a trajetória do alien em seu lugar: a compra dos direitos autorais dos Beatles, a reunião de figurões em "We Are The World", o casamento e o divórcio com a filha do Rei, as esquisitices gradativamente substituindo a boa música.

Assistiu, horrorizado, às acusações de pedofilia, e só aí percebeu que tivera sua fama roubada para que o ET pudesse satisfazer seus sórdidos desejos, inviáveis caso aparecesse em sua forma original. Igualmente horrorizado, assistiu à lenta transformação do suposto Michael no terrível ser que era quando apareceu em sua casa naquela distante noite de 1983. Primeiro a pele, que perdeu a cor; depois o nariz, que foi afinando até cair, e então substituído por uma prótese mal-feita. Já tinha perdido as esperanças de voltar à sociedade quando foi enfim encontrado pelos policiais que revistavam Neverland, e trazido a público agora, como o grande trunfo da promotoria.

Não acreditam na história maluca do sujeito, infelizmente. Tão logo ele deixa o tribunal, sob vaias e protestos, é preso por falsidade ideológica. Apenas mais um querendo a fama fácil, analisam os jornalistas que transmitem ao vivo o momento da prisão.

No banco do réu, ninguém repara que o acusado, suando em bicas, tenta desesperadamente colar de novo o nariz no rosto, antes que as câmeras voltem a focalizá-lo.

11/02/2005

Momento você-sabia? do dia



Pronto, o Carnaval terminou e o Brasil começa a funcionar oficialmente na próxima segunda-feira. Já era hora. Já era hora, também, de eu sanar uma dúvida que tinha há muito tempo mas nunca tive a decência de pesquisar: como descobrir quando cai o Carnaval? É, porque esse ano foi na segunda semana de fevereiro; ano passado, no fim de fevereiro; e em 2003, no começo de março. Afinal de contas, o que determina esse troço?

Após dias de exausta pesquisa (mentira, digitei "quando cai o carnaval" no Google e a resposta tava na primeira página que apareceu), cheguei a uma fórmula mágica. Com vocês, quando cai o Carnaval em apenas 3 lições:

1) A Páscoa acontece no domingo seguinte à primeira lua cheia da primavera européia, ou seja, nosso outono aqui nas terras do sul. Em outras palavras: as folhas caem; aparecem os lobisomens; no domingo seguinte, chega o coelhinho. Entendeu?

2> Com a data da Páscoa nas mãos, retroceda 46 dias: seis da Semana Santa e quarenta da Quaresma.

3) Pronto, você chegou à Quarta-Feira de Cinzas. O skindô skindô acontece nos dias aí pra trás.

Tá pensando o quê? bISELHO também é cultura!

09/02/2005

Misterioso padrão carnavalesco



Fevereiro de 2004, terça-feira de carnaval
Saímos do condomínio Aldeias do Lago, onde passamos o feriado, quando o sol já se escondia. Fui no carro do Leonardo Lage, vulgo Léo, enquanto o resto da galera foi em outro automóvel. Assim que pegamos a estrada, o carro da frente, sem cerimônia, arrancou e desapareceu no horizonte. Se acontecesse qualquer coisa, estávamos só nós dois.

Não deu outra. Não mais que de repente, um enorme buraco surgiu na pista e não houve tempo do Léo desviar da cratera. Depois da leve pancada, um som estranho de que algo havia acontecido na roda direita. Paramos no acostamento e... surpresa! Nada menos que nove outros carros, segundo pude contar ali no breu da estrada, haviam sido vítimas do buraco maldito e estavam ali, com o pneu furado ou a roda amassada. Ainda quando estávamos naquele acostamento, trocando o pneu com a ajuda de outros vitimados, dois outros carros tiveram o mesmo probleminha.

Ontem, 8 de fevereiro de 2005, terça-feira de carnaval

Voltando pra casa com meu pai, à noite, o carro estragou bem quando estávamos na porta do condomínio. Ainda bem que foi na porta, porque se fosse no meio da BR ou da estradinha de pedra não-iluminada que antecede a entrada do lugar, estaríamos em maus lençóis. Desta vez o problema foi ainda mais prosaico que um pneu furado: acabou o combustível. Empurramos o carro alguns metros pra dentro do condomínio e deixamos na rua mesmo. Hoje de manhã, fui com meu pai no posto mais perto e buscamos três litros de combustível, e ainda tive que transportar o diesel num saquinho com o braço pra fora do carro. Colocamos aquilo no tanque e nada do bicho pegar. Foi preciso que meu pai voltasse ao posto mais tarde, depois de quebrar a cabeça tentando descobrir o problema, e buscasse alguns litros a mais, porque meros três não foram suficientes.

Anotação mental para 2006:
Não andar de carro na terça-feira de carnaval à noite. Sei lá porquê, mas pode ser perigoso.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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