29/03/2012

Sob o solo de Seul

 

Vou de metrô, cê sabe... 

Que inveja do metrô de Seul. E olha que Beijing não faz feio, com suas 14 linhas (e mais um monte em construção) que te levam aos confins mais remotos por apenas R$ 0,50. Mas enquanto Seul tem um número parecido de linhas, a rede é muito mais entrelaçada e você escapa de enfrentar baldeações longuíssimas pra ir ali no bairro vizinho. Meu amigo coreano tem até um aplicativo para smartphone falando o número exato do vagão que você precisa pegar para transferir mais rápido. Isso é que é vontade de chegar logo. 

A título de comparação: o metrô de Seul atual... 
 

...e o de Belo Horizonte, incluindo as linhas que ainda não estão prontas. 
 

Pra te agarrar de volta ao subsolo, as estações estão cheias de lojinhas de bugigangas, barraquinhas de lanche e 7 Elevens. Algumas oferecem até entretenimento: telonas touchscreen com opções que vão do prosaico jogo-da-velha até programinhas que usam a câmera pra mudar sua roupa na tela. E todas as estações trazem plano de fuga, várias mascaras anti-gás e placas de abrigo subterrâneo – o que é compreensível, dada a presença de uns certos primos loucos ao norte da fronteira. 

  

 
Sem falar que os vagões têm braços e pernas e posam pras fotos à maneira asiática. 

A de amor, Bieup de baixinho... 

 

À primeira vista, o idioma coreano escrito parece um mundaréu de tracinhos impenetráveis e formas infinitas. Mas por baixo dessa casca hieroglífica há um simples alfabeto de poucas letras, como o nosso – a única diferença é que eles são agrupados por sílabas e não um atrás do outro, dando essa impressão de que são milhares como no chinês. É só na China mesmo que você precisa decorar 10 mil símbolos diferentes pra poder ler um jornal. 

Para escrever "saram" (pessoa), por exemplo, você faz assim: 
 
Se a gente usasse o mesmo sistema... 
 

​Segundo o dito popular, o alfabeto Hangeul é tão fácil que um homem sábio pode terminar de aprendê-lo antes do almoço e um idiota consegue o mesmo até a hora de dormir. Meu amigo fala que 30 minutos bastam, mas ele é coreano e aí não vale. Eu posso dizer por experiência própria que uma ou duas tardes ociosas no trabalho são suficientes pra você sacar o básico. ​Recomendo o site Korean Wiki Project , que ensina passo-a-passo como se alfabetizar em coreano. Em algumas horas você já consegue escrever soju, kimchi, makgeolli e Kim Jong-il usando os tracinhos do Hangeul. E visitar a Coréia sabendo pronunciar placas e cardápios, mesmo sem conhecimento algum do idioma, já dá um tchan diferente à sua viagem. 

Falar a língua é outra história, com suas palavras compridas e inúmeras flexões verbais. Eu só aprendi o básico: annyeonghaseyo ("oi"), gamsahamnida ("obrigado") e maekju ("cerveja"). Foi o suficiente. 

Tá na mesa, pessoal! 

Era tanto cartaz e resenhas nas revistas sobre o tal do Nanta que resolvemos conferir. E foi um barato. Nanta é um espetáculo sul-coreano apresentado ininterruptamente desde 1997 e que já foi até pra Broadway, onde recebeu o nomeCookin' . No Brasil, provavelmente viraria Uma Cozinha do Barulho . Imagine uma mistura do Stomp, grupo de percussão que usa objetos do cotidiano, com aqueles esquetes dos Trapalhões fazendo bolo. 

 

Quem vê o panfleto imagina que os pobres atores têm uma jornada de trabalho escravagista: são nove apresentações por dia em quatro teatros espalhados por Seul. Na verdade, há dez elencos diferentes, cada qual com seu Gerente mandão, o Sobrinho mala, o "Rapaz Sexy" em clima de azaração, a Garota aprontando altas confusões e o Chef de Cozinha tentando pôr ordem na casa. 

O fiapo de história – os cozinheiros precisam preparar um imenso banquete de casamento em apenas uma hora – serve como desculpa para os improvisos musicais e as situações pastelão. Eles usam colheres, garfos, facas e cutelos para batucar pratos, panelas, tábuas de madeira e latas d'água; despedaçam cebolas, repolhos, alfaces e pepinos, zoneando o palco sem perder o ritmo; batem uns nos outros, fazem acrobacias e caretas e botam gente da platéia pra cozinhar e fazer papel de bobo em público. 

Fui tentar tirar foto e uma mulher do teatro veio correndo dizer que não podia, mas este vídeo faz um trabalho melhor do que eu faria: 

24/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 12

Filmes de 17 a 23 de março:


SUMMER PALACE (Yihe Yuan, China/França, 2006, dir. Ye Lou)
A capinha do DVD estampa orgulhosamente a frase: "banido pelo governo chinês". Mas acho que a censura teve mais a ver com as inúmeras cenas de sexo do que com o contexto político, presente o filme inteiro mas usado apenas como pano de fundo para as histórias dos personagens. Se a "heroína" (Hao Lei) às vezes surge antipática e confusa demais, os dois coadjuvantes principais (Guo Xiaodong e Hu Lingling) protagonizam momentos intensos, como o destino dessa última. O filme termina com aqueles letreiros típicos de histórias reais, deixando no ar se aquelas pessoas existiram mesmo ou não (suspeito que não). Nota 4/5


TAXI DRIVER (EUA, 1976, dir. Martin Scorsese)
Um grande estudo de personagem. Vejo muita influência de Travis Bickle no Rorschach de Watchmen, como o desejo por uma "chuva" que "lave a escória de Nova York" – Watchmen abre com o diário de Rorschach fazendo declarações muito parecidas. Mas enquanto os esforços de vigilantismo de Rorschach só o tornam mais detestados pela sociedade, o desajustado e desconectado Bickle ironicamente vira herói ao promover um massacre. Todas as escolhas do filme são boas, inclusive alguns movimentos de câmera mais enigmáticos (como o enquadramento que se afasta lateralmente de De Niro enquanto ele faz um telefonema constrangedor). Clássico obrigatório e que melhora a cada revisão – gostei muito mais hoje do que sete anos atrás. Nota 5/5


QUIZ SHOW (EUA, 1994, dir. Robert Redford)
Dá pra pegar este Quiz Show e o igualmente ótimo Rede de Intrigas e fazer uma sessão dupla sobre os bastidores sórdidos da televisão. Baseado em um escândalo real nos anos 50 e com ótimas atuações de John Turturro e Ralph Fiennes (além de uma ampla gama de coadjuvantes, incluindo até o Scorsese), o filme ilustra bem como quase tudo na TV é uma bela de uma farsa, muitas das quais seriam consideradas crimes no "mundo real" mas que ali são relevadas porque "não passam de entretenimento". Nota 5/5


FUGA DE NOVA YORK (Escape from New York, EUA/Reino Unido, 1981, dir. John Carpenter)
Transcorre que nem videogame: o background da trama futurista é mostrado logo no início, em diagramas; o herói é chamado para uma missão suicida de resgate; recebe equipamentos e deadline, e começa a enfrentar vilões bizarros com um crescente grau de dificuldade. O grande trunfo é o anti-herói Snake Plissken (talvez o papel mais icônico de Kurt Russell), mas falta ao filme a diversão de outras parcerias John Carpenter/Russell, como Os Aventureiros do Bairro Proibido. Nota 3/5


BROADWAY DANNY ROSE (EUA, 1984, dir. Woody Allen)
Uma grande conversa de bar entre velhos comediantes dá início a esta história sobre um empresário artístico (Woody Allen) que só agencia sub-talentos (um xilofonista cego, um ventríloquo gago, um papagaio) e acaba se metendo em altas confusões com a máfia, à la Quanto Mais Quente Melhor. Há um tom melancólico, ajudado pela fotografia em preto-e-branco e a trilha às vezes triste, que convive bem com os momentos de comédia escrachada, principalmente o tiroteio em uma fábrica de gás hélio que deixa todos os personagens falando fininho. Nota 4/5

15/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 11

Uma seleção eclética:


STAR WARS UNCUT - DIRECTOR'S CUT (EUA, 2012, dir. Casey Pugh)
Uma recriação do Episódio IV feita por centenas de fãs entusiásticos e costurada pelo idealizador do projeto. A maior diversão não é quando as recriações das cenas são fiéis, e sim quando se tornam imprevisíveis: gente que filma na mesa da sala, usa a avó como a Princesa Léia, corre com toalha na cabeça pra fingir que é a Millennium Falcon, transforma espremedores de alho em dróides e cria animações rupestres no Paintbrush. Mal posso esperar para participar de um The Empire Strikes Back Uncut. Nota 4/5
(Resenha completa no Cinema de Buteco)


A VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS (Around the World in Eighty Days, EUA, 1956, dir. Michael Anderson)
Não acho que ninguém vá adquirir uma vontade louca de conhecer o mundo depois de assistir a este filme. Os países parecem atrações do Epcot Center de tão estereotipados – a Espanha é só flamenco e tourada, a Índia é um grande culto a deuses bizarros e os ingleses interrompem uma investigação importante só porque é hora do chá. Sem falar que o protagonista (David Niven) contraria quase todos os mandamentos do viajante, recusando-se até a provar a comida local. Também não me agrada que inúmeras cenas sejam indiscriminadamente filmadas com uma grande-angular que distorce formas e rostos. Apesar de tudo, o filme tem seus momentos divertidos (como Cantinflas tentando tourear na Índia ou uma ponta de Sinatra) e suas quase 3h fluem sem aborrecer. Nota 3/5


​FRANKENSTEIN (EUA, 1931, dir. James Whale)
A imagem clássica do monstro de Frankenstein – cabeça chata, parafusos no pescoço – foi instituída neste clássico do terror, em que a criatura ganha a interpretação marcante de Boris Karloff (que não era russo como o nome sugere, mas um britânico chamado William Pratt), acompanhado por um não menos expressivo Doutor Frankenstein (Colin Clive) em um cenário expressionista. Algumas cenas parecem teatrais demais e bem que uma trilhazinha ajudaria no suspense, mas era o início do cinema falada, demos um desconto. Nota 4/5


CABO DO MEDO (Cape Fear, EUA, 1991, dir. Martin Scorsese)
Caramba, que filme tenso. Mesmo quando a situação toda fica bem inverossímil, nas sequências finais, eu já estava tão grudado que nem me importava. De Niro rivaliza com o Javier Bardem de Onde os Fracos Não Têm Vez como o "ultimate badass", mas talvez o mais angustiante seja a tendência da esposa e a filha de Nick Nolte (Jessica Lange e Juliette Lewis) de bandear pro lado do vilão. Nota 5/5


AS AVENTURAS DE BUCKAROO BANZAI (The Adventures of Buckaroo Banzai Across the 8th Dimension, EUA, 1984, dir. W. D. Richter)
Eu achei que fosse nerd o bastante pra curtir esta maluquice, mas pelo visto não passei no teste. São algumas boas sacadas (como a referência à transmissão de Guerra dos Mundos por Orson Welles) que se perdem em uma história nonsense demais para engajar o espectador e uma mistureba de estilos e referências que parecem implorar pra virar cult. Outro problema é que o herói Buckaroo Banzai (Peter Weller) é tratado como fodão por todo mundo mas nunca consegue transmitir essa imagem pra nós, em parte devido à sua falta de carisma – não é à toa que o papel mais famoso de Weller foi como Robocop, de quem só se via o queixo. Se é pra ver comédia com aliens disfarçados de humanos, prefira Homens de Preto; se o lance é uma ficção científica divertida dos anos 80 com um protagonista guitarrista e a participação de Christopher Lloyd, fique com De Volta Para o Futuro. Nota 2/5

07/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 10

Finzim de fevereiro e comecim de março:


AMANHÃ NUNCA MAIS (Brasil, 2011, dir. Tadeu Jungle)
A premissa é simples: Lázaro Ramos é um anestesista sempre ocupado que precisa levar um bolo de aniversário para a filha no trânsito caótico de São Paulo. O início do filme é construído quase como um videoclipe, com imagens ritmadas que apresentam o personagem de Ramos e sua situação familiar. Quando começa sua jornada pela cidade, a coisa fica mais irregular, principalmente porque os coadjuvantes são muito díspares, e vários deles (como a velhinha gagá, o traveco e as senhorinhas no casamento) soam absurdos demais para funcionar. Mas a atuação de Lázaro Ramos, com sua passividade que dá uma reviravolta no final, e alguns peças-raras, como seu colega desbocado vivido por Milhem Cortaz, valem o filme. Nota 3/5


MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The Girl with the Dragon Tattoo, EUA/Suécia/Reino Unido/Alemanha, 2011, dir. David Fincher)
Em geral, é um filme melhor que a adaptação sueca de 2009. Mas não tããão melhor assim pra justificar assistir de novo à mesma história, se você já viu a outra versão. As melhores cenas são aquelas protagonizadas por Lisbeth Salander – mas essas já eram as melhores cenas do filme sueco, e se Rooney Mara é uma Lisbeth bem eficiente, Noomi Rampace também era. O roteiro enxuga o texto palavroso do filme e livro originais, usando recursos mais visuais que disfarçam o excesso de personagens e backgrounds que somos obrigados a conhecer pra entender a trama. Mas não consegue esconder que, embora tão detalhista, a história não é lá grandes coisas. E lá vou eu reclamar da mesma coisa de novo: pra que manter a ambientação na Suécia e colocar não só os personagens conversando em inglês, como a maioria dos textos impressos também na língua de Hollywood? Nota 3/5


AMOR SEM ESCALAS (Up in the Air, EUA, 2009, dir. Jason Reitman)
Disfarçado de comédia romântica e por trás de seus vários momentos divertidos, há um filme quase melancólico, que lida com rejeição, desconexão emocional, rumos da vida. George Clooney é uma variação de seu personagem de O Amor Custa Caro, não faltando nem a cena em que ele abandona uma palestra por não acreditar mais no que prega. A montagem ilustra bem seu completo domínio dos procedimentos de viagens, criando seqüências ritmadas em que ele faz as malas, chega ao aeroporto, faz o check-in, tudo coreografado. Anna Kendrick é competente como a jovem executiva que tenta mostrar como é segura de si ("I type with purpose."), embora no fundo seja uma pós-adolescente de terninho. Vera Farmiga é tanto "um George Clooney com vagina" (em suas próprias palavras) como uma Anna Kendrick mais experiente e menos ingênua. O final, maduro, é a cereja do bolo. Nota 4/5


ARTHUR - O MILIONÁRIO SEDUTOR (Arthur, EUA, 1981, dir. Steve Gordon)
Já assisti a este filme pelo menos umas dez vezes desde 2005. E ainda que hoje eu enxergue alguns probleminhas que não via antes, como planos longos e burocráticos que provavelmente só tinham a intenção de deixar os atores improvisarem, Arthur permanece um filme "do coração". Todos os personagens, do motorista Bitterman até o pai da personagem de Liza Minelli, têm seus grandes momentos, com destaque para o eloqüente mordomo Hobson e sua relação paternal com o crianção bêbado Arthur Bach. Recentemente lançaram um remake de Arthur protagonizado por Russell Brand, um sujeito que não suporto. Eu tinha até a intenção de conferir, mas vi um clipe do filme na internet e me deu vontade de vomitar. Não aceite imitações. Nota 5/5


O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ (The Man Who Wasn't There, EUA/Reino Unido, 2001, dir. Joel & Ethan Coen)
Este é notoriamente o único filme preto-e-branco dos irmãos Coen, mas quando coloquei o dvd... estava colorido! Bizarro mas explicável: ele foi fotografado em cores e convertido em p&b na pós-produção. Em alguns mercados, porém, com receio de um fiasco nas bilheterias, lançaram a versão colorida; a cópia a que assisti era uma dessas. Sem problemas: usei o VLC Player e mudei pra p&b manualmente. O Homem Que Não Estava Lá homenageia os filmes noir daquele jeito coeniano, distorcendo tudo: o protagonista, por exemplo, não é um detetive ou investigador, mas um cabeleireiro (Billy Bob Thornton, que não sorri uma só vez). Há muitas reviravoltas, rimas visuais (os cortes de cabelo que abrem e encerram o filme) e personagens mais contidos do que de costume na obra dos irmãos, além da habitual fotografia primorosa, que aqui se esbalda com o preto-e-branco, luzes entrando por frestas e planos onde a claridade é mais importante que as sombras. E com isso completo a filmografia dos Coen – pelo menos até lançarem o próximo. Nota 4/5

28/02/2012

Bibimbap-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!

 

Morando na China, é fácil dar um pulo na Coréia do Sul. O vôo de Beijing pra Seul dura coisa de uma hora e meia, e a maioria dos povos – brasucas inclusos – não precisa de visto. No último ano-novo chinês, feriadão que muda de data a cada ano e neste começou em 23 de janeiro, zarpamos para Seul. Só tínhamos três dias pra ficar lá, mas entre uma Beijing com clima de Beagá no carnaval e um novo carimbo no passaporte, bora viajar. 

Acontece que o ano-novo coreano também obedece ao calendário lunar e é celebrado no mesmo dia do chinês. O feriado não dura 15 longos dias de restaurantes fechados e fogos de artifício barulhentos e ininterruptos, como na China – não ouvi um foguete sequer em Seul, aleluia saravá! – mas, por três dias, a maior parte das lojas fecha as portas. Justamente os três dias em que estivemos por lá. 

 

Saímos do hotel e encontramos aquelas avenidonas desertas, com pouquíssimos transeuntes – o que é especialmente incomum para uma metrópole de 10 milhões de habitantes. A barriga roncava e não havia nem uma carrocinha de cachorro-quente pra salvar o dia. Um mercado aberto compridão oferecia peixes, camarões, lulas, algas marinhas, raízes, pimentas, temperos e até sacões enormes de pipoquinhas estilo Aritana (!), mas nada que pudesse saciar o bucho de um visitante ali,in loco 

 

 

 

 

 

 

A essa altura já tínhamos desistido de encontrar um restaurante: os únicos estabelecimentos abertos, por alguma razão que me foge à compreensão, pareciam ser as lojas de lâmpadas e abajures (mentira: também vi uma vendendo serras elétricas). Qualquer misto quente, méquidônalde ou espetinho de gato estava valendo. E finalmente, depois de muito caminhar, cantar e seguir a canção, deparamo-nos com o impensável: um restaurante! De comida coreana! Aberto! 

A comida coreana é popular aqui em Beijing, onde vivem dezenas de milhares de sul-coreanos (e também não é tão difícil encontrar norte-coreanos). Minha predileta é o churrasco, que até já ganhou um post aqui no Boca. Mas nunca fui viciadão na comida da península, minha maior ressalva sendo o sabor assaz apimentado quase onipresente nos pratos. Minha primeira providência antes de sair nas ruas de Seul, aliás, foi pedir para o camarada do hotel anotar num papelzinho como é que se diz "not spicy, please" no idioma local. 

Mas todas as minhas experiências gastronômicas na Coréia foram jóia, a começar por esse primeiro almoço. Pedi um prato famoso com nome que lembra groove de bateria: bibimbap. É basicamente um mexidão tudoaomesmotempoagora, com arroz no fundo, uma espessa camada de vegetais sortidos e quiçá uma carninha, além de um ovo de gema mole por cima. Você mistura tudo com afinco e manda pra dentro. Também pedimos uma panqueca de frutos do mar que foi uma boa pedida, embora carinha que só. 

 


Garçonete-mãos-de-tesoura 

Todos os pratos, não importa se fossem bibimbap, churrasco, panqueca ou macarrão, vinham sempre acompanhados de diversos pratinhos complementares, geralmente apimentados e incluindo o indefectível kimchi. O repolho picante é praticamente um símbolo do país e Seul abriga até um Museu do Kimchi, que segundo o site exibe mais de 80 variedades diferentes do troço. Não, obrigado – se fizessem um museu sobre soju ou makkeoli, as bebidas tradicionais da Coréia, eu até pensava em visitar. 

 
Quem me falar o que exatamente tinha nesses 6 pratinhos ganha um brinde do blog. 

 
Makkeoli, vinho de arroz que se bebe nessa cumbuquinha de metal. 

 
Deliciosos espetinhos de batata frita em espiral. 

Já com a pança cheia, continuamos nossas andanças e descobrimos que aquele clima de "Eu Sou a Lenda" não se espalhava por toda a cidade: nós é que demos o azar de escolher hotel numa região onde todo mundo saiu de férias. Felizmente, havia muitos mercados, cafés, bares e atrações abertas, bastava só se aventurar por outras bandas. A noite de ano-novo (lunar), por exemplo, passamos em uma ruazinha repleta de bares, na companhia de alguns amigos que também fugiram de Beijing por uns dias. Perto da meia-noite brindamos soju e fizemos contagem regressiva, mas os coreanos nas outras mesas nem tchum. É que ao contrário do nosso reveillón, em que o momento fugaz entre as 23h59min50s e a meia-noite é o ponto alto da comemoração, no ano-novo lunar você não fica com a sensação de ter perdido a festa se por acaso estiver no banheiro ou dormindo na hora da virada. 

No próximo post: como se alfabetizar em coreano, um espetáculo cômico-culinário e que inveja do metrô de Seul. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

26/02/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 9

Praticamente um especial do Oscar:


DRIVE (EUA, 2011, dir. Nicolas Winding Refn)
Tem muita violência, perseguições e batidas de carro, com um protagonista que é dublê por profissão e motorista de bandido nas horas vagas. Mas Drive não é um filme de ação: há muitos momentos silenciosos e coisas mais importantes para os personagens do que ganhar a mocinha no final. O filme acerta ao manter a aura de mistério do "Driver", que não tem nome nem passado e permanece calmo quase o filme inteiro. O elenco coadjuvante também está ótimo, incluindo Carey Mulligan (a garota de Educação, que aqui já tem até filho) e um fragilizado Bryan Cranston (o Walt de Breaking Bad). Nota 4/5


A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo, EUA, 2011, dir. Martin Scorsese)
Taí um filme que eu queria muito ver no cinema, mas não está na lista de estréias próximas ou futuras aqui na China. E não dá pra entender: filme em 3D pra toda a família, sem temas "sensíveis" ou cenas "reprováveis", seria um prato cheio para a chinesada; em vez disso preferiram exibir Happy Feet 2. A coincidência em ser lançado na mesma época que O Artista é curiosa, pois são duas obras que homenageiam o cinema mudo de formas diametralmente opostas: enquanto o filme francês se passa em Hollywood e emula as técnicas cinematográficas de quase um século atrás, Hugo – um filme americano que se passa em Paris – usa o que há de mais moderno, incluindo 3D, computação gráfica, câmeras "voadoras" que atravessam vidros e estações de trem. Também vejo um paralelo com Bastardos Inglórios: um diretor se aventurando em um terreno bem diferente do seu habitual (Tarantino na Segunda Guerra, Scorsese no "filme-família") movido principalmente por sua paixão pelo cinema. O Hugo do título fica quase em segundo plano quando percebemos que tio Martin fez seu filme para homenagear e resgatar Georges Meliès, um cara que merece todo tipo de resgate e homenagem. (Recomendo também o último episódio da ótima minissérie Da Terra à Lua, que aborda Meliès.) Quando tenta ser engraçadinho, Hugo escorrega – as cenas com os coadjuvantes na estação encabeçados por Sasha Baron Cohen não funcionam muito, e um conflito no final (quando Hugo vai buscar o automaton) soa particularmente como encheção de lingüiça. Mas a inventividade visual de Scorsese e sua paixão pelo cinema, que transparece na tela (ele se permite até uma rara ponta como um fotógrafo), compensam e muito. Nota 4/5


CAVALO DE GUERRA (War Horse, EUA, 2011, dir. Steven Spielberg)
Tinha um livro quando eu era criança chamado Brim Azul: A História de Uma Calça. Do pouco que eu lembro, era um relato episódico de uma calça jeans que ia passando de mão em mão (ou perna em perna) e acumulando um dono atrás do outro. Cavalo de Guerra é praticamente a mesma coisa, mas com um cavalo no lugar. A cada meia hora há uma reviravolta e o bicho se vê em um novo ambiente. Primeiro, é criado em uma fazenda pelo filho de um agricultor; o filme leva 50 minutos pra estabelecer a melosa relação entre o garoto e o eqüino, tirando o primeiro da jogada assim que a guerra começa. Em seguida o cavalo vai para as mãos de um capitão inglês, depois para dois irmãos alemães, para uma família francesa, para soldados de novo, e aí parei de contar. Irrita essa mania de todo mundo falar inglês – pra que contratar atores alemães, fazer o exército alemão gritar ordens em alemão e botá-los conversando entre si em inglês com sotaque carregado? O filme tem seus momentos inspirados, como o ataque-surpresa a um acampamento alemão, o fuzilamento de dois garotos e a cena em que o cavalo corre sozinho pelas trincheiras. Mas do Spielberg a gente sempre espera mais. Ou será que, nesse caso, seria menos? Menos trilha sonora sentimental, menos personagens, menos diálogos expositivos, menos coincidências no roteiro... O pior momento é quando um personagem diz: “Quando ouvi falar do cavalo milagroso, viajei 3 dias pra chegar aqui”. Milagroso? O lazarento só traz desgraça pra todo mundo que se afeiçoa a ele! Sou fã do Spielberg e acho ruim quando alguém desdenha do cara que fez Indiana Jones, E.T., Tubarão, Jurassic Park, O Resgate do Soldado Ryan e tantos outros; mas se eu precisasse escolher 5 ou 10 ou mesmo 15 obras de sua filmografia, Cavalo de Guerra não estaria entre elas. Nota 2/5


HISTÓRIAS CRUZADAS (The Help, EUA, 2011, dir. Tate Taylor)
Não é nada assim memorável, mas também não achei execrável como estão falando por aí. O elenco é irregular e as interpretações variam do sutil (Viola Davis) ao exagerado (Octavia Spencer). E traz umas participações curiosas, como Sissy Spacek (Carrie, a Estranha) e Mary Steenburgen (a namorada do Doc Brown em De Volta Para o Futuro III). Quanto às acusações de racismo, é complicado: as intenções do filme são boas, mas não ajuda que a heroína seja uma garotinha branca e que a personagem de Octavia Spencer seja responsável por uma vingancinha escrota e deplorável, situação que é tratada como piada pelo filme e seus personagens. Histórias Cruzadas patina de vez a partir do momento da revelação do "ingrediente secreto" da tal torta, quando investe em motivações artificiais e injustificáveis – como o flashback da mãe de Skeeter ou a mesa de comida preparada pela patroa, que "dá forças a Minny para abandonar o marido" (o que é explicado em uma simples frase narrada). Mais injustificável ainda é toda o prestígio que esse filme tem recebido nas premiações desta temporada. Nota 3/5


TÃO FORTE E TÃO PERTO (Extremely Loud & Incredibly Close, EUA, 2011, dir. Stephen Daldry)
O mais malhado dos indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano (tem inclusive um atestado de "podre" no tomatômetro), Tão Forte e Tão Perto merece as críticas. Quando o protagonista de um filme dramático é um moleque chato e malcriado e o principal recurso narrativo é uma narração em off redundante e repetitiva, temos problemas. Até o compositor Alexandre Desplat, que fez a bela trilha de A Árvore da Vida, entrega aqui um trabalho burocrático e meloso – todas as vezes que alguém menciona a expressão "11 de setembro", sobe o som da orquestra implorando pro espectador chorar. O pentelho Thomas Horn lembra uma versão infantil do Sheldon de Big Bang Theory, mas sem o tino cômico que torna o personagem do seriado suportável. As raras cenas em que o pirralho não aparece (como o telefonema entre Tom Hanks e Sandra Bullock) saem beneficiadas. A narração é outro pé no saco, repetindo pela enésima vez tudo o que acabamos de ver ("Se havia uma chave, também havia uma fechadura. Se havia um nome, também havia uma pessoa. Tinha que haver uma fechadura." Vontade de socar o moleque). Tão Forte e Tão Perto tem uma história parecida com A Invenção de Hugo Cabret e uma execução xinfrim como Os Descendentes – mas eu queria mesmo é que fosse mudo como O Artista. Nota 2/5

Bonus track - minha lista dos candidatos a Melhor Filme em ordem de preferência:

1. O Artista
2. O Homem que Mudou o Jogo
3. A Invenção de Hugo Cabret
4. A Árvore da Vida
5. Meia-Noite em Paris
6. Os Descendentes
7. Histórias Cruzadas
8. Cavalo de Guerra
9. Tão Forte e Tão Perto

Bonus track 2 - meus palpites para os vencedores da noite. (Update pós-Oscar: acertei 16 das 24 categorias, até que não fui mal. Os chutes em curtas e documentários foram todos pra fora. Categorias como Montagem, Fotografia e Efeitos Visuais foram surpresas pra quase todo mundo; e Atriz estava bem dividido de qualquer forma.)

Filme – O Artista
Diretor – Michel Hazanavicious (O Artista)
Ator – Jean Dujardin (O Artista)
Atriz – Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Ator Coadjuvante – Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Atriz Coadjuvante – Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Roteiro Adaptado – Os Descendentes
Roteiro Original – Meia-Noite em Paris
Animação – Rango
Filme Estrangeiro – A Separação
Fotografia – A Árvore da Vida
Direção de Arte – Hugo
Figurino – O Artista
Documentário – Paradise Lost 3
Curta Documentário – Incident in New Baghdad
Montagem – O Artista
Maquiagem – A Dama de Ferro
Trilha Sonora Original – O Artista
Canção Original – Os Muppets
Curta Animação – La Luna
Curta – Pentecost
Edição de Som – Hugo
Mixagem de Som – Hugo
Efeitos Visuais – Planeta dos Macacos

14/02/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 8

Filmes vistos entre 9 e 13 de fevereiro:


O ABISMO PRATEADO (Brasil, 2011, dir. Karim Aïnouz)
"Faroeste Caboclo" vai virar filme em breve, mas "Olhos nos Olhos", do Chico Buarque, saiu na frente e ganhou uma adaptação livre estrelada pela Alessandra Negrini. Abandonada pelo marido no início da trama, acompanhamos a moça pelas ruas do Rio durante 24 horas. O filme é bem dirigido e Alessandra mata a pau na dura tarefa de transmitir seu turbilhão de emoções em poucos diálogos. Mas o fato de ser uma adaptação da música acaba gerando uma decepçãozinha, justamente por não seguir a letra à risca. Quando lembramos de versos como "Quantos homens me amaram / Bem mais e melhor que você", imaginamos a atriz despirocando geral, mas o roteiro prefere passear por outras praias. E a própria canção inspiradora dá as caras no final, mas numa versão chatinha que nem se compara com a do Chico ou da Bethânia. Nota 3/5


E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ? (O Brother, Where Art Thou?, EUA/Reino Unido/França, 2000, dir. Joel & Ethan Coen)
Engraçado: revendo o filme em meio à minha maratona coeniana, e comparando com outras obras dos irmãos, não achei tão bom quanto da primeira vez. A trama (uma adaptação amalucada da Odisséia do Homero) é episódica demais, faltando a lógica orgânica de uma-coisa-leva-a-outra tão presente nos roteiros dos Coen. Mas minhas cenas preferidas continuam excelentes – em especial a das sereias e todas aquelas que envolvem os Soggy Bottom Boys. E tem um momento específico que, assim que revi, lembrei que da primeira vez fiquei voltando e assistindo umas cinco vezes seguidas. E, revendo agora, fiz o mesmo da vez passada. É quando John Turturro, disfarçado com uma barba falsa, diz aos companheiros: "Crazy! No one's ever going to believe we are a real band!". A forma como Turturro mexe a boca quando diz band (em 1h21m04s) é uma nuance brilhante de interpretação. Nota 3/5


NA RODA DA FORTUNA (The Hudsucker Proxy, EUA/Reino Unido/Alemanha, 1994, dir. Joel & Ethan Coen)
Talvez o único filme com efeitos de computador dos irmãos Coen, Na Roda da Fortuna assume um tom de fantasia no final que lembra muito A Felicidade Não Se Compra. A história de Tim Robbins como o zé mané alçado a presidente da empresa é bacana, mas o que gostei mesmo neste filme foram os detalhes – a burocracia infernal do sistema de correspondências com códigos quase iguais (3-37, 37-3...), o minuto de silêncio que pedem pela morte do presidente e depois dizem que será deduzido do pagamento, o ascensorista piadista ("Mr. Kline, up to nine. Mrs Dell, personnel. Mr. Levin, thirty-seven." "Thirty-six." "Walk down!"). E ainda tem uma das melhores seqüências de todos os filmes dos Coen, a que acompanha o bambolê desde o início de sua fabricação até o fracasso nas vendas e a subseqüente reviravolta quando um exemplar solitário vagueia pelas ruas e é encontrado por uma criança. Nota 4/5


OS MERCENÁRIOS (The Expendables, EUA, 2010, dir. Sylvester Stallone)
O conceito era promissor: juntar todos os heróis de ação dos anos 80, hoje cinqüentões ou sessentões, em uma porradaria nostálgica. O problema é que o filme não vai muito além disso. As piadas não funcionam, as cenas de ação são meio nhé, e muitas participações soam como a ponta de Keith Richards em Piratas do Caribe 3: só estão ali para falarmos "porra, é o fulano!", pois não acrescentam mais nada. O maior exemplo é a cena que reúne Stallone, Schwarzenegger e Bruce Willis. Se ela parece meio desconjuntada, é porque é mesmo: foi filmada com os atores separadamente usando fundo verde. Os Mercenários 2 vai trazer de volta Sly, Schwarza, Dolph Lundgren, Jason Statham e Jet Li, e ainda contará com Van Damme e Chuck Norris. O elenco, mais uma vez, promete. Esperemos que o resto funcione dessa vez. Nota 2/5


GOSTO DE SANGUE (Blood Simple, EUA, 1984, dir. Joel & Ethan Coen)
Filme de estréia dos Coen, já trazia todas as marcas registradas da dupla, e muito bem executadas. A direção é segura, fazendo o dever de casa ao estabelecer com calma personagens, motivações e objetos futuramente importantes. Dan "Dois Queixos" Hedaya está ótimo como o corno vingativo que ordena o assassinato da esposa e o amante, M. Emmet Walsh é um detetive/mercenário adequadamente asqueroso, e os protagonistas John Getz e Frances McDormand são responsáveis pelas duas cenas mais angustiantes do filme: a que Getz enterra um personagem vivo ("respeitosamente" começando pelas pernas, mas mudando para o rosto quando a coisa aperta) e a que McDormand espeta uma faca na mão de Walsh. Filmaço. Nota 5/5

08/02/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 7

Filmes vistos na primeira semana de fevereiro:


AJUSTE FINAL (Miller's Crossing, EUA, 1990, dir. Joel & Ethan Coen)
Um filme de gângster que só não fez o sucesso merecido porque teve a infelicidade de estrear junto com Os Bons Companheiros – isso é que é timing ruim. O roteiro é intrincado mas não é difícil de seguir, girando em torno do personagem de Gabriel Byrne e suas idas e vindas de uma gangue para outra. O grande destaque no elenco é John Turturro, que aparece pouco mas sempre rouba a cena. A fotografia (de Barry Sonnenfeld, futuro diretor de Homens de Preto) e a montagem (que aqui não é dos Coen como de praxe, mas de Michael R. Miller) criam transições belíssimas como em uma cena crucial no "Miller's Crossing" do título original. Nota 4/5


BATMAN - O HOMEM-MORCEGO (Batman, EUA, 1966, dir. Leslie H. Martinson)
O único longa-metragem com o Batman e Robin de Adam West e Burt Ward tem todos os ícones camp do seriado de TV: a galhofa, as piadas infames, os bordões do Robin ("santa festa a fantasia!"), as onomatopéias pipocando na tela, os milhares de bat-trecos. Batman enfrenta nada menos que quatro vilões (toma essa, Joel Schumacher!): Coringa, com aquele bigodinho safado sob a maquiagem; Pingüim, com seus gritos de qüen-qüen e disfarces infames como "P. N. Gwynne"; Mulher-Gato (que aqui não é a Julie Newmar da TV, mas uma Lee Meriwether que capricha no sotaque russo de sua falsa alter-ego Kitka); e Charada, responsável por charadas tão ridículas, mas tão ridículas, que acabam sendo ótimas. Um exemplo: "O que é amarelo e escreve?" E o Robin: "Uma banana esferográfica!" E o Batman: "Precisamente, Robin! O único significado possível." Os bat-trecos não são apenas absurdos, mas aparecem todos identificados com plaquinhas redundantes: "instant costume change lever", "bat-escada", "bat-spray repelente de tubarão" (sem falar em bat-sprays repelentes de baleia, arraia e barracuda). A história é uma sucessão de cenas nonsense, culminando na "desidratação" do Conselho de Segurança de um órgão estilo ONU – todos os delegados viram pozinhos coloridos. E as coincidências do roteiro? O batcóptero sofre uma pane mas aterrissa em terreno macio; quando vão ver, caíram sobre a "Convenção de Atacadistas de Espuma de Borracha". Batman – O Homem-Morcego sabe que é infame, e se diverte muito com isso. Nota 4/5


UM DRINK NO INFERNO (From Dusk Till Dawn, EUA, 1996, dir. Robert Rodriguez)
São dois filmes em um. A primeira metade é bem tarantinesca, com diálogos espertos e situações tensas – seu Quentin, não por acaso, escreveu o roteiro e é um dos personagens principais. George Clooney faz aqui sua estréia no cinema, meio tardiamente e já agrisalhando. A segunda metade muda o tom completamente e abraça o trash sem pudor, com direito a pistola de água benta, guitarra feita de membros humanos, muita gosma e mortes absurdas. O conceito dois-em-um ganha pontos por ser original e reverter expectativas, mas com isso o filme perde um pouco a unidade e acaba sendo só um bom divertimento. Nota 3/5


O AMOR CUSTA CARO (Intolerable Cruelty, EUA, 2003, dir. Joel & Ethan Coen)
Este é o mais próximo que os Coen chegaram de fazer uma comédia romântica – e mesmo assim, só o terceiro ato pode ser encaixado nessa classificação. George Clooney e Catherine Zeta-Jones estão ótimos como o advogado canalha e a beldade atrás de marido rico, e os coadjuvantes incluem uma galeria de personagens bizarros típicos dos Coen: o detetive particular, o "barão" afetado, o velhinho advogado com o pé na cova e o assassino asmático. Só há uma cena de morte no filme mas é uma das mais criativas (e das mais inverossímeis) da carreira dos irmãos. E os diálogos estão cheios de pérolas como essa:
"Attila the Hun, Ivan the Terrible, Henry the Eight – what did they have in common?"
"The middle name?"
Nota 4/5


MATADORES DE VELHINHA (The Ladykillers, EUA, 2004, dir. Joel & Ethan Coen)
Filme com a pior reputação da carreira dos Coen, Matadores de Velhinha é sem dúvida irregular, mas funciona como bom passatempo de humor negro. A quadrilha de bandidos bizarros é heterogênea: Tom Hanks está quase sempre ótimo como o eloqüente Professor Dorr (deslizando apenas nas risadinhas de Sheldon Cooper), J.K. Simmons só não funciona quando é obrigado a encenar piadas de peido, e o General feito pelo hongkonês Tzi Ma é excelente e responsável por pouquíssimas e memoráveis falas (a do provérbio budista me fez gargalhar sozinho). Por outro lado, Marlon Wayans e principalmente Ryan Hurst (o brutamontes bobalhão) parecem muito fora de lugar num filme dos Coen. O roteiro depende de coincidências demais, mas a intenção é ser mesmo galhofa, e mesmo um Coen menor ainda vale a pena conferir. Nota 3/5

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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