10/04/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 15


A NOIVA DE FRANKENSTEIN (Bride of Frankenstein, EUA, 1935, dir. James Whale)
Seqüência direta do clássico de 1931, traz de volta o mesmo elenco e começa até com uma recapitulação do primeiro filme. E é uma obra mais bem acabada, com uma trilha sonora mais presente e conceitos que extrapolam as idéias do original, como a noiva do título e o cientista ainda mais louco vivido por Ernest Thesiger. Tem ainda a participação da própria Mary Shelley como personagem, numa reencenação da famosa história da criação do livro. Só soa bizarro o momento em que o filme sai da ficção-científica e escorrega para a fantasia, mostrando "mini-pessoas" engarrafadas; mas isso é rapidamente deixado de lado e não compromete o clássico. Nota 5/5


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and Her Sisters, EUA, 1986, dir. Woody Allen)
As comédias de Woody Allen são quase sempre ótimas, mas quando têm uma pitada de melancolia ficam melhor ainda. Hannah e Suas Irmãs alterna várias tramas, todas envolvendo – dã! – a personagem-título (Mia Farrow) e as outras filhas de seus genitores (Barbara Hershey e Dianne Wiest). Temos Michael Caine envolvido em uma doída paixonite pela cunhada, Woody metido numa crise existencial provocada por um falso alarme médico, e a relação de todos eles com as três irmãs. Já entra no meu top 5 de Allen. Nota 5/5


JOHN CARTER - ENTRE DOIS MUNDOS (John Carter, EUA, 2012, dir. Andrew Stanton)
Nos melhores momentos, é uma aventura competente que quase alcança a qualidade do trabalho de Andrew Stanton em Wall-E e Procurando Nemo. Nos piores, é um filme insosso. As cenas envolvendo John Carter como peixe-fora-d'água, os alienígenas quadribraçais (?!), a luta na arena e a montagem entre Carter brigando com marcianos e enterrando entes queridos na Terra funcionam muito bem. Por outro lado, eu não poderia ligar menos para todos aqueles humanos (humanóides?) e o casamento arranjado da princesa. O roteiro tenta juntar muitas subtramas e poucas são tão interessantes assim; falta o humor presente nas cenas da cadeia na Virgínia, e criatividade na concepção das criaturas marcianas – lagartão agindo como cachorrinho, sério? A sensação é de que a estréia de Stanton no live-action podia ter sido mais Pixar e menos Cowboys & Aliens. Nota 3/5


LOUCA OBSESSÃO (Misery, EUA, 1990, dir. Rob Reiner)
Vi Louca Obsessão há dez anos durante uma aula – longe de ser o melhor lugar do mundo para se prestar atenção a um filme. Mesmo assim, ainda me lembrava de cenas inteiras, provavelmente devido aos pouquíssimos cenários e ao número ainda mais reduzido de personagens, mas graças também à tensão marcante que permeia o filme todo. A direção de Rob Reiner é enxuta e competente, James Caan pouco lembra o cabeça esquentada que era seu Sonny Corleone, e Kathy Bates é uma das vilãs-mor de Stephen King. Imaginem um encontro de Annie Wilkes com Jack Torrance, ele com o machado, ela com o martelo. Nota 4/5


TEETH (EUA, 2007, dir. Mitchell Lichtenstein)
Um daqueles filmes que arruinam um conceito curioso por medo de explorá-lo até as últimas conseqüências. Você não imaginaria que fariam um filme quase politicamente correto sobre uma vagina com dentes, mas fizeram. A protagonista é uma carolinha e sua intérprete não ajuda. O filme é lento e demora quase 40 minutos para a primeira cena "dentada", o que já deveria ter sido resolvido logo no início. Há um excesso de personagens e historinhas que não levam a nada (a doença da mãe da garota, a relação do pai com o irmão estereotipicamente bad boy). Falta o humor que o tema prometia – cadê a menina visitando o dentista, por exemplo? Quem quer ver pênis decepados sendo atacados por animais vai se regozijar; se quer ver as situações bizarras que poderiam ter rolado, talvez seja melhor procurar em filmes X-rated japoneses... Nota 2/5

03/04/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 14


RASHOMON (Rashômon, Japão, 1950, dir. Akira Kurosawa)
Um homem é assassinado e a versão de cada testemunha – incluindo um notório bandido, a esposa da vítima e o próprio morto – difere entre si. Belissimamente filmado e sem oferecer uma solução propriamente dita para o crime, este clássico de Kurosawa é tão influente que gerou vários filmes com estrutura parecida (como Herói) e deu origem até a uma expressão, "efeito Rashomon", que se refere à subjetividade de diferentes pontos de vista ao se recontar um fato. Nota 5/5


NA CHINA COMEM CÃES (I Kina Spiser de Hunde, Dinamarca, 1999, dir. Lasse Spang Olsen)
O título passa a impressão errada, já que não tem nada a ver com a China nem com cachorros. Este filme dinamarquês é uma comédia de humor negro misturada com filme de ação: há uma boa dose de tiros, perseguições e sangue, entremeados por diálogos mórbidos e sarcásticos. A premissa é altamente improvável – um bancário bonzinho entra na vida do crime para ajudar a família de um bandido que ele ajudou a prender. Se é difícil acreditar nas motivações do protagonista Dejan Cukic, Kim Bodnia convence bastante como seu irmão "do mal" que tem todo o know-how necessário para a empreitada fora-da-lei. As cenas de ação funcionam bem, provavelmente devido à experiência do diretor na área – o IMDB lista 60 participações suas como dublê. Mas o destaque é mesmo o humor negro, tanto nos diálogos ("Ela está na sala... e também na cozinha") quanto na sequência de situações que dão errado. Nota 4/5


PETER PAN (EUA, 1953, dir. Clyde Geronimi, Wilfred Jackson & Hamilton Luske)
Se alguns reclamam que o Peter Pan da Disney omite muitas das passagens sombrias do original de J.M. Barrie (nunca li, mas não duvido), por outro lado não lhe falta o que hoje chamam de politicamente incorreto: há crianças fumando cachimbo da paz, gente levando tiro por motivo besta, índios retratados quase como uma raça inferior. De qualquer forma, é uma animação bacana, muito mais coesa do que o filme anterior da Disney (e também adaptação de uma obra inglesa), Alice no País das Maravilhas – que pra mim é mais uma salada de situações nonsense e canções chatinhas. Nota 4/5


VAMPIROS DE ALMAS (Invasion of the Body Snatchers, EUA, 1956, dir. Don Siegel)
Outro título enganador: não é um filme de vampiros, mas de invasão alienígena. Clássico da ficção científica dos anos 50, também pode ser lido como uma crítica à conformidade. Há alguns pontos mal contados no roteiro (nunca entendi o que acontece com os corpos humanos quando os aliens assumem sua forma) e um pouco de overacting aqui e ali ("You're next, you're next!" – imaginem se em vez do Kevin McCarthy fosse o Charlton Heston), mas em geral é um suspense sci-fi bastante eficiente. Nota 4/5


CAMINHOS PERIGOSOS (Mean Streets, EUA, 1973, dir. Martin Scorsese)
Um dos primeiros filmes de Scorsese, tem muita coisa que viria a se tornar sua marca registrada, ao menos no imaginário coletivo – o submundo de Nova York, quase-gângsters que ainda têm muito o que aprender, a culpa católica, trilha rock'n'roll, Robert De Niro, Harvey Keitel. O que a maioria lembra de filmes posteriores e mais famosos como Taxi Driver e Os Bons Companheiros já estava ali, no Martin de 30 anos. Nota 5/5

01/04/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 13


UM BARCO E NOVE DESTINOS (Lifeboat, EUA, 1944, dir. Alfred Hitchcock)
Um dos filmes-experimentos de Hitchcock, feito bem antes de Festim Diabólico e Janela Indiscreta. Neste aqui, a ação se passa toda em um barquinho no meio do oceano, depois do naufrágio de um navio. Sessenta anos antes de Lost, temos sobreviventes tendo que lidar com um bebê, uma amputação improvisada, traição e disputas pela liderança. Um filme meio esquecido do tio Alfred, que vale a pena desenterrar. Nota 4/5


A CONVERSAÇÃO (The Conversation, EUA, 1974, dir. Francis Ford Coppola)
Coppola estava particularmente inspirado nessa época: A Conversação foi dirigido entre os dois primeiros O Poderoso Chefão, e também é um filmaço. Parte estudo de personagem (Gene Hackman faz um especialista em escutas paranóico e antissocial), parte trama intrincada construída com extrema competência. O filme usa um recurso narrativo que acho genial – repete várias vezes a tal conversa do título, gravada em fita, e cada vez ela parece se encaixar de forma diferente com o que está sendo mostrado. Este é daqueles filmes que, quando termina, imediatamente dá vontade de começar de novo. Nota 5/5


DEIXA ELA ENTRAR (Låt den Rätte Komma In, Suécia, 2008, dir. Tomas Alfredson)
Em tempos crepusculísticos, é sempre bom ver um filme de vampiro que respeita a mitologia clássica das criaturas – temem a luz, precisam ser convidados para entrar em uma casa. Deixa Ela Entrar também acerta na atmosfera fria (bom, filmar na Suécia ajuda bastante) e em não ficar explicando a história pregressa dos personagens – nunca descobrimos a real natureza de Eli nem de sua relação com o homem que mora com ela. O que interessa aqui é a história de Oskar, do bullying que ele sofre e de como uma presença vampiresca pode mudar essa situação. Nota 4/5


TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone Says I Love You, EUA, 1996, dir. Woody Allen)
Um musical em que os personagens não cantam bem – pra se ter idéia, até o próprio Woody Allen arrisca seus versos tímidos. As cenas não musicais me atraíram mais, principalmente as cenas em Veneza em que Woody tenta pegar a Julia Roberts fingindo conhecer todos os seus segredos. Mas o final, em que Woody dança com Goldie Hawn na beira do Sena, está entre as cenas de musicais mais marcantes que já vi: simples, mas cheia de efeitos especiais; totalmente irreal, e igualmente poética. Nota 4/5


A BOLHA ASSASSINA (The Blob, EUA, 1988, dir. Chuck Russell)
Um filme ruim? Sim, mas daqueles bem divertidos. O elenco, encabeçado por Kevin Dillon (o irmão mais feio e menos famoso de Matt Dillon) e a bonitinha e inexpressiva Shawnee Smith, só está lá para ser fagocitado pela bolha alienígena que se alimenta de gente e não pára de crescer. As cenas trash vão ficando cada vez mais exageradas e lembram os trabalhos de Peter Jackson no início da carreira (Náusea Total, Fome Animal). Mas o filme não se diverte só com elas, investindo também em cortes cômicos que lembram de alguma forma a bolha assassina, como um menino comendo gelatina molenga e um casal dando um beijo bem molhado. Vale conferir para dar umas risadas, de preferência de estômago vazio. Nota 3/5

29/03/2012

Sob o solo de Seul

 

Vou de metrô, cê sabe... 

Que inveja do metrô de Seul. E olha que Beijing não faz feio, com suas 14 linhas (e mais um monte em construção) que te levam aos confins mais remotos por apenas R$ 0,50. Mas enquanto Seul tem um número parecido de linhas, a rede é muito mais entrelaçada e você escapa de enfrentar baldeações longuíssimas pra ir ali no bairro vizinho. Meu amigo coreano tem até um aplicativo para smartphone falando o número exato do vagão que você precisa pegar para transferir mais rápido. Isso é que é vontade de chegar logo. 

A título de comparação: o metrô de Seul atual... 
 

...e o de Belo Horizonte, incluindo as linhas que ainda não estão prontas. 
 

Pra te agarrar de volta ao subsolo, as estações estão cheias de lojinhas de bugigangas, barraquinhas de lanche e 7 Elevens. Algumas oferecem até entretenimento: telonas touchscreen com opções que vão do prosaico jogo-da-velha até programinhas que usam a câmera pra mudar sua roupa na tela. E todas as estações trazem plano de fuga, várias mascaras anti-gás e placas de abrigo subterrâneo – o que é compreensível, dada a presença de uns certos primos loucos ao norte da fronteira. 

  

 
Sem falar que os vagões têm braços e pernas e posam pras fotos à maneira asiática. 

A de amor, Bieup de baixinho... 

 

À primeira vista, o idioma coreano escrito parece um mundaréu de tracinhos impenetráveis e formas infinitas. Mas por baixo dessa casca hieroglífica há um simples alfabeto de poucas letras, como o nosso – a única diferença é que eles são agrupados por sílabas e não um atrás do outro, dando essa impressão de que são milhares como no chinês. É só na China mesmo que você precisa decorar 10 mil símbolos diferentes pra poder ler um jornal. 

Para escrever "saram" (pessoa), por exemplo, você faz assim: 
 
Se a gente usasse o mesmo sistema... 
 

​Segundo o dito popular, o alfabeto Hangeul é tão fácil que um homem sábio pode terminar de aprendê-lo antes do almoço e um idiota consegue o mesmo até a hora de dormir. Meu amigo fala que 30 minutos bastam, mas ele é coreano e aí não vale. Eu posso dizer por experiência própria que uma ou duas tardes ociosas no trabalho são suficientes pra você sacar o básico. ​Recomendo o site Korean Wiki Project , que ensina passo-a-passo como se alfabetizar em coreano. Em algumas horas você já consegue escrever soju, kimchi, makgeolli e Kim Jong-il usando os tracinhos do Hangeul. E visitar a Coréia sabendo pronunciar placas e cardápios, mesmo sem conhecimento algum do idioma, já dá um tchan diferente à sua viagem. 

Falar a língua é outra história, com suas palavras compridas e inúmeras flexões verbais. Eu só aprendi o básico: annyeonghaseyo ("oi"), gamsahamnida ("obrigado") e maekju ("cerveja"). Foi o suficiente. 

Tá na mesa, pessoal! 

Era tanto cartaz e resenhas nas revistas sobre o tal do Nanta que resolvemos conferir. E foi um barato. Nanta é um espetáculo sul-coreano apresentado ininterruptamente desde 1997 e que já foi até pra Broadway, onde recebeu o nomeCookin' . No Brasil, provavelmente viraria Uma Cozinha do Barulho . Imagine uma mistura do Stomp, grupo de percussão que usa objetos do cotidiano, com aqueles esquetes dos Trapalhões fazendo bolo. 

 

Quem vê o panfleto imagina que os pobres atores têm uma jornada de trabalho escravagista: são nove apresentações por dia em quatro teatros espalhados por Seul. Na verdade, há dez elencos diferentes, cada qual com seu Gerente mandão, o Sobrinho mala, o "Rapaz Sexy" em clima de azaração, a Garota aprontando altas confusões e o Chef de Cozinha tentando pôr ordem na casa. 

O fiapo de história – os cozinheiros precisam preparar um imenso banquete de casamento em apenas uma hora – serve como desculpa para os improvisos musicais e as situações pastelão. Eles usam colheres, garfos, facas e cutelos para batucar pratos, panelas, tábuas de madeira e latas d'água; despedaçam cebolas, repolhos, alfaces e pepinos, zoneando o palco sem perder o ritmo; batem uns nos outros, fazem acrobacias e caretas e botam gente da platéia pra cozinhar e fazer papel de bobo em público. 

Fui tentar tirar foto e uma mulher do teatro veio correndo dizer que não podia, mas este vídeo faz um trabalho melhor do que eu faria: 

24/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 12

Filmes de 17 a 23 de março:


SUMMER PALACE (Yihe Yuan, China/França, 2006, dir. Ye Lou)
A capinha do DVD estampa orgulhosamente a frase: "banido pelo governo chinês". Mas acho que a censura teve mais a ver com as inúmeras cenas de sexo do que com o contexto político, presente o filme inteiro mas usado apenas como pano de fundo para as histórias dos personagens. Se a "heroína" (Hao Lei) às vezes surge antipática e confusa demais, os dois coadjuvantes principais (Guo Xiaodong e Hu Lingling) protagonizam momentos intensos, como o destino dessa última. O filme termina com aqueles letreiros típicos de histórias reais, deixando no ar se aquelas pessoas existiram mesmo ou não (suspeito que não). Nota 4/5


TAXI DRIVER (EUA, 1976, dir. Martin Scorsese)
Um grande estudo de personagem. Vejo muita influência de Travis Bickle no Rorschach de Watchmen, como o desejo por uma "chuva" que "lave a escória de Nova York" – Watchmen abre com o diário de Rorschach fazendo declarações muito parecidas. Mas enquanto os esforços de vigilantismo de Rorschach só o tornam mais detestados pela sociedade, o desajustado e desconectado Bickle ironicamente vira herói ao promover um massacre. Todas as escolhas do filme são boas, inclusive alguns movimentos de câmera mais enigmáticos (como o enquadramento que se afasta lateralmente de De Niro enquanto ele faz um telefonema constrangedor). Clássico obrigatório e que melhora a cada revisão – gostei muito mais hoje do que sete anos atrás. Nota 5/5


QUIZ SHOW (EUA, 1994, dir. Robert Redford)
Dá pra pegar este Quiz Show e o igualmente ótimo Rede de Intrigas e fazer uma sessão dupla sobre os bastidores sórdidos da televisão. Baseado em um escândalo real nos anos 50 e com ótimas atuações de John Turturro e Ralph Fiennes (além de uma ampla gama de coadjuvantes, incluindo até o Scorsese), o filme ilustra bem como quase tudo na TV é uma bela de uma farsa, muitas das quais seriam consideradas crimes no "mundo real" mas que ali são relevadas porque "não passam de entretenimento". Nota 5/5


FUGA DE NOVA YORK (Escape from New York, EUA/Reino Unido, 1981, dir. John Carpenter)
Transcorre que nem videogame: o background da trama futurista é mostrado logo no início, em diagramas; o herói é chamado para uma missão suicida de resgate; recebe equipamentos e deadline, e começa a enfrentar vilões bizarros com um crescente grau de dificuldade. O grande trunfo é o anti-herói Snake Plissken (talvez o papel mais icônico de Kurt Russell), mas falta ao filme a diversão de outras parcerias John Carpenter/Russell, como Os Aventureiros do Bairro Proibido. Nota 3/5


BROADWAY DANNY ROSE (EUA, 1984, dir. Woody Allen)
Uma grande conversa de bar entre velhos comediantes dá início a esta história sobre um empresário artístico (Woody Allen) que só agencia sub-talentos (um xilofonista cego, um ventríloquo gago, um papagaio) e acaba se metendo em altas confusões com a máfia, à la Quanto Mais Quente Melhor. Há um tom melancólico, ajudado pela fotografia em preto-e-branco e a trilha às vezes triste, que convive bem com os momentos de comédia escrachada, principalmente o tiroteio em uma fábrica de gás hélio que deixa todos os personagens falando fininho. Nota 4/5

15/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 11

Uma seleção eclética:


STAR WARS UNCUT - DIRECTOR'S CUT (EUA, 2012, dir. Casey Pugh)
Uma recriação do Episódio IV feita por centenas de fãs entusiásticos e costurada pelo idealizador do projeto. A maior diversão não é quando as recriações das cenas são fiéis, e sim quando se tornam imprevisíveis: gente que filma na mesa da sala, usa a avó como a Princesa Léia, corre com toalha na cabeça pra fingir que é a Millennium Falcon, transforma espremedores de alho em dróides e cria animações rupestres no Paintbrush. Mal posso esperar para participar de um The Empire Strikes Back Uncut. Nota 4/5
(Resenha completa no Cinema de Buteco)


A VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS (Around the World in Eighty Days, EUA, 1956, dir. Michael Anderson)
Não acho que ninguém vá adquirir uma vontade louca de conhecer o mundo depois de assistir a este filme. Os países parecem atrações do Epcot Center de tão estereotipados – a Espanha é só flamenco e tourada, a Índia é um grande culto a deuses bizarros e os ingleses interrompem uma investigação importante só porque é hora do chá. Sem falar que o protagonista (David Niven) contraria quase todos os mandamentos do viajante, recusando-se até a provar a comida local. Também não me agrada que inúmeras cenas sejam indiscriminadamente filmadas com uma grande-angular que distorce formas e rostos. Apesar de tudo, o filme tem seus momentos divertidos (como Cantinflas tentando tourear na Índia ou uma ponta de Sinatra) e suas quase 3h fluem sem aborrecer. Nota 3/5


​FRANKENSTEIN (EUA, 1931, dir. James Whale)
A imagem clássica do monstro de Frankenstein – cabeça chata, parafusos no pescoço – foi instituída neste clássico do terror, em que a criatura ganha a interpretação marcante de Boris Karloff (que não era russo como o nome sugere, mas um britânico chamado William Pratt), acompanhado por um não menos expressivo Doutor Frankenstein (Colin Clive) em um cenário expressionista. Algumas cenas parecem teatrais demais e bem que uma trilhazinha ajudaria no suspense, mas era o início do cinema falada, demos um desconto. Nota 4/5


CABO DO MEDO (Cape Fear, EUA, 1991, dir. Martin Scorsese)
Caramba, que filme tenso. Mesmo quando a situação toda fica bem inverossímil, nas sequências finais, eu já estava tão grudado que nem me importava. De Niro rivaliza com o Javier Bardem de Onde os Fracos Não Têm Vez como o "ultimate badass", mas talvez o mais angustiante seja a tendência da esposa e a filha de Nick Nolte (Jessica Lange e Juliette Lewis) de bandear pro lado do vilão. Nota 5/5


AS AVENTURAS DE BUCKAROO BANZAI (The Adventures of Buckaroo Banzai Across the 8th Dimension, EUA, 1984, dir. W. D. Richter)
Eu achei que fosse nerd o bastante pra curtir esta maluquice, mas pelo visto não passei no teste. São algumas boas sacadas (como a referência à transmissão de Guerra dos Mundos por Orson Welles) que se perdem em uma história nonsense demais para engajar o espectador e uma mistureba de estilos e referências que parecem implorar pra virar cult. Outro problema é que o herói Buckaroo Banzai (Peter Weller) é tratado como fodão por todo mundo mas nunca consegue transmitir essa imagem pra nós, em parte devido à sua falta de carisma – não é à toa que o papel mais famoso de Weller foi como Robocop, de quem só se via o queixo. Se é pra ver comédia com aliens disfarçados de humanos, prefira Homens de Preto; se o lance é uma ficção científica divertida dos anos 80 com um protagonista guitarrista e a participação de Christopher Lloyd, fique com De Volta Para o Futuro. Nota 2/5

07/03/2012

Filmes de Dois Mil e Dôuze - Parte 10

Finzim de fevereiro e comecim de março:


AMANHÃ NUNCA MAIS (Brasil, 2011, dir. Tadeu Jungle)
A premissa é simples: Lázaro Ramos é um anestesista sempre ocupado que precisa levar um bolo de aniversário para a filha no trânsito caótico de São Paulo. O início do filme é construído quase como um videoclipe, com imagens ritmadas que apresentam o personagem de Ramos e sua situação familiar. Quando começa sua jornada pela cidade, a coisa fica mais irregular, principalmente porque os coadjuvantes são muito díspares, e vários deles (como a velhinha gagá, o traveco e as senhorinhas no casamento) soam absurdos demais para funcionar. Mas a atuação de Lázaro Ramos, com sua passividade que dá uma reviravolta no final, e alguns peças-raras, como seu colega desbocado vivido por Milhem Cortaz, valem o filme. Nota 3/5


MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The Girl with the Dragon Tattoo, EUA/Suécia/Reino Unido/Alemanha, 2011, dir. David Fincher)
Em geral, é um filme melhor que a adaptação sueca de 2009. Mas não tããão melhor assim pra justificar assistir de novo à mesma história, se você já viu a outra versão. As melhores cenas são aquelas protagonizadas por Lisbeth Salander – mas essas já eram as melhores cenas do filme sueco, e se Rooney Mara é uma Lisbeth bem eficiente, Noomi Rampace também era. O roteiro enxuga o texto palavroso do filme e livro originais, usando recursos mais visuais que disfarçam o excesso de personagens e backgrounds que somos obrigados a conhecer pra entender a trama. Mas não consegue esconder que, embora tão detalhista, a história não é lá grandes coisas. E lá vou eu reclamar da mesma coisa de novo: pra que manter a ambientação na Suécia e colocar não só os personagens conversando em inglês, como a maioria dos textos impressos também na língua de Hollywood? Nota 3/5


AMOR SEM ESCALAS (Up in the Air, EUA, 2009, dir. Jason Reitman)
Disfarçado de comédia romântica e por trás de seus vários momentos divertidos, há um filme quase melancólico, que lida com rejeição, desconexão emocional, rumos da vida. George Clooney é uma variação de seu personagem de O Amor Custa Caro, não faltando nem a cena em que ele abandona uma palestra por não acreditar mais no que prega. A montagem ilustra bem seu completo domínio dos procedimentos de viagens, criando seqüências ritmadas em que ele faz as malas, chega ao aeroporto, faz o check-in, tudo coreografado. Anna Kendrick é competente como a jovem executiva que tenta mostrar como é segura de si ("I type with purpose."), embora no fundo seja uma pós-adolescente de terninho. Vera Farmiga é tanto "um George Clooney com vagina" (em suas próprias palavras) como uma Anna Kendrick mais experiente e menos ingênua. O final, maduro, é a cereja do bolo. Nota 4/5


ARTHUR - O MILIONÁRIO SEDUTOR (Arthur, EUA, 1981, dir. Steve Gordon)
Já assisti a este filme pelo menos umas dez vezes desde 2005. E ainda que hoje eu enxergue alguns probleminhas que não via antes, como planos longos e burocráticos que provavelmente só tinham a intenção de deixar os atores improvisarem, Arthur permanece um filme "do coração". Todos os personagens, do motorista Bitterman até o pai da personagem de Liza Minelli, têm seus grandes momentos, com destaque para o eloqüente mordomo Hobson e sua relação paternal com o crianção bêbado Arthur Bach. Recentemente lançaram um remake de Arthur protagonizado por Russell Brand, um sujeito que não suporto. Eu tinha até a intenção de conferir, mas vi um clipe do filme na internet e me deu vontade de vomitar. Não aceite imitações. Nota 5/5


O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ (The Man Who Wasn't There, EUA/Reino Unido, 2001, dir. Joel & Ethan Coen)
Este é notoriamente o único filme preto-e-branco dos irmãos Coen, mas quando coloquei o dvd... estava colorido! Bizarro mas explicável: ele foi fotografado em cores e convertido em p&b na pós-produção. Em alguns mercados, porém, com receio de um fiasco nas bilheterias, lançaram a versão colorida; a cópia a que assisti era uma dessas. Sem problemas: usei o VLC Player e mudei pra p&b manualmente. O Homem Que Não Estava Lá homenageia os filmes noir daquele jeito coeniano, distorcendo tudo: o protagonista, por exemplo, não é um detetive ou investigador, mas um cabeleireiro (Billy Bob Thornton, que não sorri uma só vez). Há muitas reviravoltas, rimas visuais (os cortes de cabelo que abrem e encerram o filme) e personagens mais contidos do que de costume na obra dos irmãos, além da habitual fotografia primorosa, que aqui se esbalda com o preto-e-branco, luzes entrando por frestas e planos onde a claridade é mais importante que as sombras. E com isso completo a filmografia dos Coen – pelo menos até lançarem o próximo. Nota 4/5

28/02/2012

Bibimbap-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!

 

Morando na China, é fácil dar um pulo na Coréia do Sul. O vôo de Beijing pra Seul dura coisa de uma hora e meia, e a maioria dos povos – brasucas inclusos – não precisa de visto. No último ano-novo chinês, feriadão que muda de data a cada ano e neste começou em 23 de janeiro, zarpamos para Seul. Só tínhamos três dias pra ficar lá, mas entre uma Beijing com clima de Beagá no carnaval e um novo carimbo no passaporte, bora viajar. 

Acontece que o ano-novo coreano também obedece ao calendário lunar e é celebrado no mesmo dia do chinês. O feriado não dura 15 longos dias de restaurantes fechados e fogos de artifício barulhentos e ininterruptos, como na China – não ouvi um foguete sequer em Seul, aleluia saravá! – mas, por três dias, a maior parte das lojas fecha as portas. Justamente os três dias em que estivemos por lá. 

 

Saímos do hotel e encontramos aquelas avenidonas desertas, com pouquíssimos transeuntes – o que é especialmente incomum para uma metrópole de 10 milhões de habitantes. A barriga roncava e não havia nem uma carrocinha de cachorro-quente pra salvar o dia. Um mercado aberto compridão oferecia peixes, camarões, lulas, algas marinhas, raízes, pimentas, temperos e até sacões enormes de pipoquinhas estilo Aritana (!), mas nada que pudesse saciar o bucho de um visitante ali,in loco 

 

 

 

 

 

 

A essa altura já tínhamos desistido de encontrar um restaurante: os únicos estabelecimentos abertos, por alguma razão que me foge à compreensão, pareciam ser as lojas de lâmpadas e abajures (mentira: também vi uma vendendo serras elétricas). Qualquer misto quente, méquidônalde ou espetinho de gato estava valendo. E finalmente, depois de muito caminhar, cantar e seguir a canção, deparamo-nos com o impensável: um restaurante! De comida coreana! Aberto! 

A comida coreana é popular aqui em Beijing, onde vivem dezenas de milhares de sul-coreanos (e também não é tão difícil encontrar norte-coreanos). Minha predileta é o churrasco, que até já ganhou um post aqui no Boca. Mas nunca fui viciadão na comida da península, minha maior ressalva sendo o sabor assaz apimentado quase onipresente nos pratos. Minha primeira providência antes de sair nas ruas de Seul, aliás, foi pedir para o camarada do hotel anotar num papelzinho como é que se diz "not spicy, please" no idioma local. 

Mas todas as minhas experiências gastronômicas na Coréia foram jóia, a começar por esse primeiro almoço. Pedi um prato famoso com nome que lembra groove de bateria: bibimbap. É basicamente um mexidão tudoaomesmotempoagora, com arroz no fundo, uma espessa camada de vegetais sortidos e quiçá uma carninha, além de um ovo de gema mole por cima. Você mistura tudo com afinco e manda pra dentro. Também pedimos uma panqueca de frutos do mar que foi uma boa pedida, embora carinha que só. 

 


Garçonete-mãos-de-tesoura 

Todos os pratos, não importa se fossem bibimbap, churrasco, panqueca ou macarrão, vinham sempre acompanhados de diversos pratinhos complementares, geralmente apimentados e incluindo o indefectível kimchi. O repolho picante é praticamente um símbolo do país e Seul abriga até um Museu do Kimchi, que segundo o site exibe mais de 80 variedades diferentes do troço. Não, obrigado – se fizessem um museu sobre soju ou makkeoli, as bebidas tradicionais da Coréia, eu até pensava em visitar. 

 
Quem me falar o que exatamente tinha nesses 6 pratinhos ganha um brinde do blog. 

 
Makkeoli, vinho de arroz que se bebe nessa cumbuquinha de metal. 

 
Deliciosos espetinhos de batata frita em espiral. 

Já com a pança cheia, continuamos nossas andanças e descobrimos que aquele clima de "Eu Sou a Lenda" não se espalhava por toda a cidade: nós é que demos o azar de escolher hotel numa região onde todo mundo saiu de férias. Felizmente, havia muitos mercados, cafés, bares e atrações abertas, bastava só se aventurar por outras bandas. A noite de ano-novo (lunar), por exemplo, passamos em uma ruazinha repleta de bares, na companhia de alguns amigos que também fugiram de Beijing por uns dias. Perto da meia-noite brindamos soju e fizemos contagem regressiva, mas os coreanos nas outras mesas nem tchum. É que ao contrário do nosso reveillón, em que o momento fugaz entre as 23h59min50s e a meia-noite é o ponto alto da comemoração, no ano-novo lunar você não fica com a sensação de ter perdido a festa se por acaso estiver no banheiro ou dormindo na hora da virada. 

No próximo post: como se alfabetizar em coreano, um espetáculo cômico-culinário e que inveja do metrô de Seul. 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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