27/10/2006

A Volta do Malandro ou: Paratodos?



O maior evento cultural em Beagá ontem foi a fila do ingresso pro show do Chico Buarque. 12 horas de diversão debaixo de sol quente, praticamente uma rave. A fila começava na porta do Palácio das Artes, subia a Carandaí e abraçava o Parque Municipal. Tudo pra ver o velho gago. E, enquanto as vendas lá dentro caminhavam a passos de formiga, do lado de fora estavam centenas de desocupados de todas as idades esperando, esperando, esperando, esperando a sorte. Vendedores de cerveja aproveitaram pra fazer uma graninha e ativistas do Green Peace convocavam a galera a lutar por um mundo melhor. Não tardaram a aparecer a TV e os jornais, e eu e meus amigos até concedemos uma entrevista ao SBT, mas não era ao vivo e parece que ficou abandonada na sala de edição. Pelo menos apareci fazendo cara de paisagem ao fundo, enquanto a repórter comentava sobre o quilométrico amontado de pessoas que fazia da calçada da Afonso Pena sua segunda casa. Resumo da ópera do malandro: os ingressos camaradas se esgotaram às 8 da noite, graças à estúpida cota de 30% de meias-entradas estipulada por não-sei-quem. Mas pra quem já fizera todas as refeições do dia ali mesmo, o papelzinho com data, hora e lugar marcado tinha virado questão de honra. E a recompensa vem em dezembro: ver o malandro na praça, pela primeira vez.

15/10/2006

10/10/2006

04/10/2006

Carcaça imunda e vil



O crítico Pablo Villaça, do Cinema em Cena, publicou hoje em seu blog:

Más notícias para todos nós: "Muito Gelo e Dois Dedos D'água" não é só o pior filme do ano; é o pior filme do século 21 até agora.

Declaração perigosa. Nunca confiei muito em filmes do Daniel Filho e não duvido que o roteiro de Fernanda Young possa ter patinado, mas daí a colocá-lo no posto de pior longa-metragem dos últimos 6 anos me parece exagero de calor do momento. Aliás, hoje mesmo ouvi comentários de que o filme é até bacana. A discrepância ímpar de opiniões, claro, só aguça a curiosidade. E, como Pablo apenas deu uma palhinha de seu desgosto mas ainda não publicou a crítica completa, só resta imaginar qual o motivo tão grave é capaz de tamanha repulsa - e se realmente é pra tanto.

Um disco ruim é relativamente fácil de se fazer: é só juntar um punhado de canções terríveis, estão aí sendo produzidas e lançadas às dúzias todos os dias. Pra que saia um livro ruim, basta um escritor sofrível e um editor sem senso crítico (não confundir com tino comercial). Mas um filme demanda tanto planejamento, tanta gente e tanto dinheiro que mesmo as bombas completas têm lá seu ponto positivo: um efeito especial convincente, uma sacada interessante perdida no meio do diálogo, uma boa idéia desperdiçada cuja essência ainda permanece. Sem falar no célebre limiar da ruindade, cujo mote "É tão ruim que é bom" garantiu o título de "cult" a centenas de pérolas trash.

Na verdade, os filmes realmente ruins são os que não conseguem atravessar esse limiar e ficam ali no meio termo. É a comédia sem sal, o terror que não gera medo nem humor involuntário, o "difícil entendimento" usado como desculpa para a inabilidade do diretor em transformar suas pretensões em algo palatável. A pior laia talvez seja a dos aproveitadores do sucesso de outrém, sendo "Esqueceram de Mim 4" o exemplo mais emblemático. Não satisfeitos com a parte 3, que usava o peso do nome "Home Alone" pra contar a história de um menino com catapora (!!), resolveram vilipendiar o legado da família McCallister e puseram os personagens dos dois primeiros filmes nas mãos de um elenco insosso - e ainda tiveram a insolência de reunir tudo depois num box único de DVDs, como se Joe "Harry" Pesci e John "Polka Polka" Candy tivessem algo a ver com aquela palhaçada. Pra suportar, talvez só mesmo um cachorro engarrafado, com muito gelo e uns dois dedos d'água.

Tão sem passarinhos



Semi-leitura do momento: "Chega de Saudade - A História e as histórias da Bossa Nova", do Ruy Castro. Semi porque as histórias me apetecem mais que a História, e preferi por isso uma leitura descompromissada, um capítulo aqui antes de dormir, um trecho ali depois do almoço, sem a linearidade que me indicam os números no rodapé. Aproveitando meus derradeiros meses como estudante, colhi o livro na biblioteca da faculdade, talvez influenciado pelo documentário Vinícius, que aluguei há pouco tempo por 1 real. (Fabulosa promoção da locadora aqui perto de casa, que também oferece o combo 7 filmes por 15 reais e uma semana pra devolver, além de ganhar uma coca dois litros.)

Enfim, sobre o livro: embora eu tenha visto comentários por aí de que os verdadeiros entendidos de êmepêbê consideram a narrativa de Ruy Castro algo como uma ficção-científica, as histórias ali contadas são deliciosas, ainda mais levando-se em conta minha especial predileção por making-ofs. Como Tom Jobim e Newton Mendonça decidindo compôr um samba "que parecesse uma defesa dos desafinados, mas tão complicado e cheio de alçapões dissonantes que, ao ser cantado por um deles, iria deixá-lo em apuros". Ou a mulher (uma das) de Vinícius implicando com um verso de "Chega de Saudade": "Que coisa mais boba, rimar peixinhos com beijinhos", e a resposta de Vininha, "Ora, deixe de ser sofisticada". Ou a letra original de uma das mais famosas músicas de todos os tempos, que ostentava uma primeira parte um tanto pessimista: "Vinha cansado de tudo / De tantos caminhos / Tão sem poesia / Tão sem passarinhos / Com medo da vida / Com medo do amor..."

>> Na biografia dos Mamonas há um rascunho da primeira versão de "Vira-Vira", escrita por Júlio Rasec e Adilson de Matos em 1984, que trazia o refrão: "Vira vira santo, não vira ninguém / Pegaram o Padre Lino na sacristia com alguém / Vira abre a roda, o coroinha também / Ó amador favor me acuda / Pois a vela é muito dura / Comprida, grossa e acende bem"

>> Mas o prêmio de melhor letra inédita para um mega-hit, sem dúvida, vai para Paul McCartney e seu clássico: "Scrambled eggs / Oh my baby how I love your legs..."

03/10/2006

Democracia chinesa



Outubro sempre me passa a idéia de que o ano está acabando, e os panetones que já estão à venda nas melhores casas do ramo não contribuem exatamente para dissipar essa sensação. Ano passado, memsa época, fiz uma lista enxuta de resoluções para os últimos meses de 2005 e não cumpri metade. Não caio mais nessa. De prazos no dia-a-dia, me bastam os inescapáveis. E já nem ligo mais de inacabar projetos. Há tempo pra tudo. Vejam o Tolkien. Deixou tanta coisa por terminar que até lançaram um "Contos Inacabados" pra supernutrir a conta bancária dos filhos. Um dos rebentos, Christopher Tolkien (na verdade o "pimpolho" já é octogenário) recentemente anunciou que vai lançar "The Children of Hurin", livro iniciado pelo pai em 1918 e terminado por Christopher em 2006. Seguindo essa lógica, posso deixar o Druida da Pocilga para que algum de meus futuros herdeiros finalize e publique até 2093, ainda a tempo de figurar nas listas de final de século. Quem sabe uma "Os 100 Maiores Quase-Escritores do Século XXI Misteriosamente Assassinados Por Leitores Enfurecidos"?

21/09/2006

Vai, meu irmão

Cheguei em casa após uma madrugada etílica e encontrei um pacote sobre o sofá. Os relatos que já tinha lido a respeito vinham de São Paulo, principalmente. Por isso não imaginava que, tão cedo, um daqueles daria o ar da graça aqui na roça grande. Mas lá estava ele, um grande envelope branco, estampando dois touros escarlate que se encaravam ante um círculo dourado.

Dentro havia uma carta. Já na primeira frase, uma mentira: "Após tanta espera, crises de abandono, de ciúmes, motins e revoltas, o tão esperado dvd do Red Bull Paper Wings ficou pronto!" A inverdade não está nas crises de abandono ou nas revoltas mencionadas, que realmente existiram, ainda que virtualmente, por e-mails, orkuts e êmeésseênes. É só que não havia apenas um dvd dentro do pacote, mas dois, cada qual mostrando audiovisualmente uma etapa do inusitado campeonato de aviõezinhos de papel: a final brasileira, de que participei (e perdi), e a gran-finale mundial, que teve palco em terras austríacas.

Apareço como figurante no dvd brasileiro, mas brincando de onde está wally consegui me identificar em pelo menos três cenas. Em duas delas, lá estou eu no fundo, dobrando papéis e me esforçando em confeccionar um avião digno. Na terceira cena, estou tacando um dos aviões, na mais ridícula de minhas duas tentativas, que me valeu um vergonhoso 3.3 em 10. Mas tudo bem, apareço de costas, uma possível carreira na aeronáutica de celulosa não está totalmente prejudicada.

Já no dvd da final mundial, pude conferir os vôos dos terráqueos que subiram ao pódio na Áustria. O Diniz, brasileiro que tinha sido até entrevistado no Jô, venceu na categoria melhor tempo de vôo. Os dois outros títulos (maior distância percorrida e melhor vôo acrobático) ficaram, respectivamente, com um croata e um israelense.

Minha tristeza maior, no entanto, foi que no devedê não puseram as cenas do aeroporto de Congonhas e as entrevistas gentilmente cedidas no interior do ônibus que nos levou a Jundiaí. Mas taí o YouTube pra não nos decepcionar:

05/09/2006

Apertem os cintos...



Fui lá conferir o Vôo 93, de quem a crítica tão bem falou. Parte de uma premissa curiosa: narrar a história do único vôo do 11 de setembro que não caiu no alvo planejado pelos terroristas, pois os próprios passageiros se rebelaram antes e conseguiram desviar a rota. A recriação cinematográfica, comandada pelo Paul Gramaverde de A Supremacia Bourne, conta pontos pelo realismo e por não se render ao sentimentalismo patriótico maniqueísta um tanto difícil de fugir numa trama como essa. Mas sei lá, sabe o tipo de filme que você vê, acompanha e tal, e no final não acha nada de mais?

Antes da película aérea passou um trailer interessante de um filme sobre o fim da humanidade. É um tema que particularmente me agrada, esse. O problema é que o desenvolvimento do roteiro quase sempre avacalha tudo. Vide a porcaria que foi Impacto Profundo. Ou o recente Extermínio, que começa bacana, o cara acorda e não tem mais ninguém na Terra, pensamos “ó, um bom filme pela frente”. Só que começam a aparecer uns zumbis, e aí o terreno fica perigoso porque é praticamente impossível trabalhar com zumbis e evitar comparações negativas com a obra máxima do gênero, Fome Animal. Ainda assim, vá lá, temos um bom filme trash. Mas de repente entram os militares, aí não tem zumbi com gosma escorrendo pelo canto da boca torta que salve.

Bom, o tal trailer sobre o fim da humanidade. Dessa vez, nada de meteoros, zumbis ou era glacial. O que sucede é uma infertilidade em massa, ninguém mais consegue ter filhinho, e as previsões são de uns 50 anos pra humanidade sumir de vez. O início do trailer parecia bom, o cara mais novo do mundo morre aos 18 anos, a anarquia reina ao lado do caos. Mas quando começa aquela história de “a última esperança para a humanidade está nas mãos deste homem”, haja paciência. Ainda mais com um título horroroso desses: Filhos da Esperança.

Podiam mesmo era fazer uma adaptação de “Blecaute”, do Marcelo Rubens Paiva, onde apenas três pessoas continuam vivas numa São Paulo deserta após um apocalipse qualquer. Será que a produtora lá do Fernando Meirelles não topa patrocinar? Principalmente agora que roubaram o laptop dele com todos os seus roteiros inéditos, talvez ele esteja precisando de umas idéias novas...

Recentemente saiu uma reportagem na Super Interessante chamada "E se a espécie humana desaparecesse da Terra?". Fiquei fascinado com as projeções. Em vinte anos o Tietê estaria 100% limpo. Em cinqüenta, o buraco na camada de ozônio estaria totalmente restaurado. Em mil, todo o lixo produzido pelo homem já teria sumido. Em 5 mil, o verde bandeira da Mata Atlântica engoliria São Paulo. E não bastariam mais que alguns milhões de anos para que o petróleo voltasse a abundar. Agora me digam: qual é o incentivo que tá faltando pra alguém espalhar um daqueles vírus mortíferos por aí?

02/09/2006

The Sixth Nonsense



Cinefilamente falando, Dois Mil e Seis não vem sendo dos melhores pra mim. Minha média de filmes assistidos despenca mês a mês, e se nos anos passados já era ínfima comparada à de quem realmente vê filme a rodo, agora beira o risível.

Fazendo um rápido estudo em minhas reminiscências, posso apontar algumas razões para essa queda. Entre elas: a quantidade de jogos da Copa em horário assistível; a ausência de tardes livres nas minhas férias de julho; o aumento de cinqüenta centavos na locação do DVD lá perdicasa; e os oito devedês de Lost vistos em aproximadamente um mês, que representaram mais de 30 horas de ilha deserta, ocupando o espaço de pelo menos uns quinze filmes iranianos de vanguarda.

A inauguração de um cinema bacana no meu bairro deveria ter aumentado um pouco a média, mas sei lá o que houve, que nem Piratas do Caribe 2 eu vi ainda. E o Indie ainda coincidiu com a semana mais caótica (até agora...) do meu curso inteiro.

Em dezembro de 2005, publiquei por essas bandas um top 10 particular dos longas mais aguardados para 2006. Foram eles:

10. Carros
09. A Dama na Água
08. Piratas do Caribe 2
07. X-Men 3
06. Os Três Patetas
05. O Código Da Vinci
04. Superman Returns
03. V de Vingança
02. Sin City 2
01. Os 300 de Esparta

Seis já foram. E o saldo, felizmente, tem sido positivo. Carros carecia de história e personagens mais carismáticos (carrismáticos?), mas visualmente é supimpa à beça. X-Men 3 tem seus poréns, mas foi bem-sucedido em cruzar tramas paralelas e juntar aquele mundaréu de mutantes, além da coragem de assassinar protagonistas como nunca feito antes em filmes de heróis. V de Vingança superou expectativas e não se curvou ao roliudianismo. Superman Returns gerou controvérsias e deve muito aos filmes originais (Marlon Brando, John Williams), mas ainda é entretenimento de primeira. (Sem contar que ainda vi de graça numa pré-estréia, antes de todo mundo, embora tenha ganhado um supertorcicolo de brinde por sentar na fileira da frente.) Só Código Da Vinci foi o fiascão que a gente já esperava, mas quem se importa?

Esse fim-de-semana estréia mais um da lista, A Dama na Água. Dizem que é do bom, dizem que não presta, o que é de praxe sempre que se lança um longa shyamalânico. Excelente, no sentido cinco estrelas da palavra, não imagino que seja. Acho que a auto-indulgência do cara vai atrapalhar como atrapalhou no desconjuntado A Vila. Mas que o mundo politicorreto de hoje precisa de umas coisas assim meio nonsense de vez em quando, isso precisa.

Top 1 filme mais aguardado para o fim-de-semana:

01. Vôo United 93

22/08/2006

Aniversariante do dia

E os nossos parabéns de hoje vão para o cozinheiro, pintor, tocador de cavaquinho, orquidófilo e pescador André Paio.

Meu comparsa de bagunças, bebedeiras, pescarias, jogos de tênis, aulas de italiano, sushis, Star Treks, futebóis de botão, viagens, idéias, divagações sobre a origem do universo.

A quem devo inspirações e aspirações
e meus futuros cabelos brancos
(não por preocupações ou excesso de stress,
mas porque a danada da genética é implacável!)

Congratulazioni, grande vecchio!

09/08/2006

Morcegando



O próximo filme do Batman vai se chamar "The Dark Knight". Christian Bale, atual encarnação do orelhudo, recentemente comentou a respeito: "Eu simplesmente adoro esse título. Vocês sabem, nada está confirmado ainda, mas eu gosto muito do fato de que não há ‘Batman’ escrito nele."

Devo dizer que concordo inteiramente com Bale. Mas tenho a triste convicção de que, para os distribuidores brasileiros, não bastará uma tradução literal como "O Cavaleiro das Trevas". Vão tratar de preceder o nome do filme com o "Batman" de praxe, sumindo com o ineditismo e tornando a película homônima da clássica HQ "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (que no original é "Batman: The Dark Knight Returns"). E enganando muito bobo por aí, já que a trama do tio Frankie não deve servir nem de inspiração distante para a história do novo longa.

Top 3 melhores títulos de filme de todos os tempos:

> "Enchente: Quem Salvará Nossos Filhos?"
> "Matou a Família e Foi ao Cinema"
> "Meu Primeiro Amor 2"

08/08/2006

Bye bye Brasil



Conversando pelo msn com uma das suecas que conheci em Salvador, resolvo pedir pra ela umas músicas em sua língua materna. Ela me manda um samba. Em sueco. Diz que é dos anos 70 ou 80, e que o cara canta sobre Copacabana. Especifica mais: a canção é sobre Deidre, "uma prostituta ou algo assim". E ainda me traduz um trecho: "se tiver tempo e dinheiro, você vai comprar meu samba". Vá lá, penso eu, esses carnavais não devem mesmo passar uma boa imagem nossa lá fora. Mas eis que a música começa, uma coisa latina pouco sambada, e ouço o cantor entoar uma melodia um tanto familiar. Poucos versos bastam pra que caia a ficha: a música em sueco é uma versão cara-de-pau de "Quem Te Viu, Quem Te Vê" do Chico Buarque!

Não crê? Pois escute a Rádio Biselho ali do lado, é a primeira da lista. E pra você que é fluente no idioma de Greta Garbo, um pedaço da pérola cantada por Cornelis Vreeswijk:

"Mellan Praia de Flamengo
och det fagra Ipanema
finns de rikas heta stränder.
Men dom fattiga i Rio
bor högt över alla andra,
högsta berget bor jag på.
Vinden svalkar, solen bränns.
Där finns sorg som inte känns
- dansa samba med mej.
Ay ay ay ay.
"

06/08/2006

12/07/2006

Os Três Porquinhos de Liverpool



Depois do musical da Chapeuzinho Vermelho usando clássicos da música popular tupiniquim, resolvi partir para projetos broadwayanos mais temáticos. Acho que seria interessante, por exemplo, uma versão de João e Maria com canções dos Titãs. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, diria João à velha bruxa, como desculpa por se alimentar das belas e suculentas paredes de sua casa.

Ou um Romeu e Julieta apenas com composições de Chico Buarque. “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, declararia o jovem Montéquio ao pai de sua amada. “Acorda, amor”, suplicaria Julieta ao ver o corpo inerte de Romeu.

Ou então, se McCartney, Starr e Jackson permitissem, uma releitura da fábula dos Três Porquinhos só com músicas dos Beatles. Lobão reprisaria seu papel de antagonista, como no musical da Chapeuzinho. João Gordo seria um dos suínos, talvez. Para o título, pensei em algo como “Os Três Porquinhos de Liverpool”. Ou simplesmente “Piggies”.

O roteiro poderia ser assim:

Palhaço, o porquinho preguiçoso, descansa tranqüilo em sua casa de palha.

Palhaço: Everybody seems to think I’m lazy. I don’t mind… think they’re crazy! Nothing’s gonna change my world…

Surge o Lobo, caminhando por perto, feliz e bonachão. Quando passa ao lado da casa de palha, fareja no ar um delicioso cheiro de carne de porco.

Palhaço percebe a misteriosa sombra que ronda as redondezas.

Palhaço: Very strange.

O Lobo olha pela janela e abre um largo sorriso.

Lobo: Ah. Look at all the lonely people!

O primeiro impulso de Palhaço, assustado, é levantar correndo.

Palhaço: Help! I need somebody’s help!
Lobo: Cry, baby, cry. Make your mother sigh.

Mas ele nota que gritar não vai adiantar muito, e então tenta demonstrar segurança.

Palhaço (próximo à porta): Listen. Do you want to know a secret? When I’m home, everything seems to be right!
Lobo: Oh yeah? I’ll tell you something. I think you’ll understand.

E, com um mero sopro, o Lobo põe abaixo a casa de palha.

Palhaço: I should have realized a lot of things before. The way things are going, they’re gonna crucify me.

O porquinho só vê um meio de escapar da fúria glutona do Lobo: correr até a casa de seu irmão Palito, mais segura e confiável por ser feita de madeira.

Mas, para seu desespero, ninguém atende quando ele esmurra a porta.

Palhaço (triste): I call your name… but you’re not there…

Ele tenta de novo. Nada.

Palhaço (suplicante): Won’t you please, please help me?

Silêncio. Lucas Paio 2006

Palhaço: Tell me, tell me, tell me the answer!
Lobo (sorrindo enquanto se aproxima): There will be an answer: let it be!

O Lobo está prestes a alcançar Palhaço quando a porta se abre e de dentro da casa surge Palito, que logo coloca o irmão pra dentro. Palhaço ainda tem tempo de olhar pra trás e mostrar a língua pro Lobo.

Palhaço: I get by with a little help from my friends!

O Lobo nem se irrita. Afinal, agora são dois porquinhos em vez de apenas um.

Lobo: It’s getting better all the time...

O instante de sossego na casa de madeira só dura até que o Lobo bata à porta novamente.

Lobo (voz mansa): Believe me when I tell you: I’ll never do you no harm!
Palito: Get back! Get back! Get back to where you once belonged!
Lobo: I said something wrong?

O sopro do Lobo, desta vez, não surte efeito na primeira tentativa. Mas é só ele caprichar no fôlego que a casa de madeira construída por Palito vai ao chão.

Lobo: This happened once before, when I came to your door.
Palito: Such a dirty old man!
Palhaço: With every mistake we must surely be learning…

Sem a proteção das paredes de madeira, a única alternativa para Palito e Palhaço é fugir às pressas.

Palito: You’d better run for your life if you can!
Palhaço: Life is very short and there’s no time!
Lobo (correndo atrás): See how they run!

Movidos pelo desespero, os porquinhos conseguem alguns minutos de vantagem sobre o Lobo. Correr sem rumo, no entanto, não é suficiente.

Palito (irônico): Oh, that magic feeling. Nowhere to go!
Palhaço (tendo uma idéia): There are places I remember.

Momento flashback: Palhaço se divertindo à beça na lama e na sujeira, enquanto Pedrito, envolvido na construção de sua casa, carrega pedras e tijolos.

Palhaço: Won’t you come out to play?
Pedrito: It’s been a hard day’s night, and I’ve been working like a dog.
Palhaço (olhando para as pedras): Boy, you’re gonna carry that weight a long time…
Pedrito: Try to see it my way: only time will tell if I am right or I am wrong.

Termina o flashback. Os porquinhos chegam à casa de Pedrito, essa sim grande e segura, forte e resistente. Pedrito vem atender à porta, solícito.

Pedrito: If there’s anything that you want, if there’s anything I can do…
Palito: Take a good look around you.

E Pedrito vê, no fim do horizonte, o sorridente Lobo que se aproxima.

Pedrito: Yesterday all my troubles seemed so far away…
Palhaço (apreensivo): Would you lock the door?

O Lobo esbanja empolgação.

Lobo: Have you seen the little piggies crawling in the dirt? And for all the little piggies life is getting worse!

Trancados na casa de Pedrito, uns têm medo, outros demonstram confiança.

Palhaço: I’m so tired, I don’t know what to do.
Pedrito: All you can tell you is: brother, you have to wait.
Palhaço: But every now and then I feel so insecure! I’ve got a feeling…
Palito: Don’t you know it’s gonna be alright?
Palhaço: Oh yeah. Alright.

Feliz, embora um pouco cansado da corrida, o Lobo finalmente chega à casa de pedra.

Lobo: The long and winding road that leads to your door...

Ofegante, tenta um sopro poderoso e não acontece nada. Puxa mais ar, infla as bochechas, sopra com toda a força que seus pulmões podem agüentar, e a casa nem treme. Desapontado, ele põe-se a pensar.

Lobo: How can I even try? I can never win…

É aí que ele observa a chaminé que enfeita o telhado da casa de Pedrito, e uma solução tão simples quanto genial desenha-se em sua mente.

Lobo: It took me so long to find out. And I found out.

Pedrito, o mais sagaz dos três, logo percebe o que o Lobo está tentando fazer, e tem uma idéia para surpreendê-lo. Sai da sala e volta pouco depois, arrastando um enorme caldeirão com água fervendo.

Pedrito (sorrindo): Let me tell you how it will be.

Enquanto isso, o Lobo se esgueira pela diminuta chaminé.

Lobo (resmungando sozinho): It’s wonderful to be here. It’s certainly a thrill.

Pedrito pede ajuda aos irmãos para que consigam colocar o caldeirão no lugar da lareira.

Pedrito: All together now! One and one and one is three!

Palito aproveita o momento pra provocar o Lobo.

Palito: Come together, right now, over me!

Não dá outra: o Lobo termina de descer, com raiva, e desaba sobre o caldeirão de água fervente. O fogo que sobe e o calor escaldante queimam-lhe todo, enquanto os porquinhos comemoram às gargalhadas.

Lobo: I can see them laugh at me...

Coberto de queimaduras, o Lobo foge pela porta da frente pra nunca mais voltar, fazendo a alegria dos porquinhos.

Palhaço: I feel fine!
Palito: I feel good, in a special way!
Pedrito: The smiles returning to their faces...

A última visão que eles têm do Lobo é de um animal correndo em disparada, urrando de dor e gritando:

Lobo: I’ve got blisters on my fingers!
Lucas Paio 2006

04/07/2006

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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