25/05/2009

Voa passarinho voa



"Não vou me render ao Twitter". Escrevi essa frase no décimo terceiro dia de abril passado, pronto para iniciar um texto sobre minha resistência ao mais novo (ou nem tão novo) fenômeno efêmero da internet terráquea. Abandonei porque quatro dias depois eu me rendi e criei um perfil cujo endereço, www.twitter.com/lucaspaio, não divulguei pra ninguém. Ainda assim consegui 10 seguidores, sendo seis conhecidos e quatro de quem nunca ouvi falar.

Não foi minha primeira experiência na ferramenta microblóguica. Nos finalmentes de 2007, criamos um perfil na agência onde eu trabalhava que funcionava como aquelas notícias de última hora sobre os participantes do Big Brother: huguinho saiu pra beber água, zezinho anunciou que está com fome, luizinho não pára de cantar. Uma diversão que durou dois dias e algumas centenas de nanoposts, depois acabou como qualquer modismo. (Infelizmente o troço saiu do ar, ou sou eu que não lembro o endereço nem a pau).

Daí quando me rendi e criei o @lucaspaio, fiz mais pra ver se eu viciava, e por umas semanas até atualizei com certa freqüência. Dos 35 minitextos de 140 caracteres ou menos, foram 4 sobre filmes ("...E o Vento Levou - Victor Fleming, 1939: épico com suas ressalvas, mas bem conduzido. 4 estrelas em 5"), 7 sobre o Comida di Buteco ("Ali-Ba-Bar: kafta ao molho, mandioca com manteiga e couve. Bem bom, principalmente os molhos"), 4 descrições de almoço ("arroz com bacon, frango, bife à parmegiana, batata frita, mandioca frita, milho, alface e ovo de codorna"), 5 comentários sobre discos ("Já fui muito fã de Green Day e gostei bastante do American Idiot, mas este 21st Century Breakdown não me convenceu..."), 2 links interessantes ("Portal pra quem quer fazer cinema: http://filmmakeriq.com - tutoriais e dicas de produção, roteiro, direção, edição..."), 3 links para posts do Biselho, 6 observações sortidas sobre o cotidiano ("Carro é foda. Depois de arrumar suspensão, escapamento, trocar óleo e alinhar, agora foi a luz do freio que deu pau"), 1 sobre Lost ("The Variable"), 1 sobre Futurama (DVDs da primeira temporada), 1 sobre uma HQ ("Wolverine: Origem") e 1 sobre shows ("Conexão Vivo 21/04: valeu o Samuel Rosa no final tocando Skanks antigos e a participação surpresa do Milton Nascimento no bis").

Agora me desrendi, ou pelo menos perdi a vontade de ter mais uma obrigação virtual, ainda mais uma que exige uma constância tão rígida. Fica igual a maioria dos portais jornalísticos: na ânsia de atualizar a página principal com notícias urgentes, destacam-se manchetes como "Jurado diz que foi beijado por Susan Boyle" ou "Naiá fala mal de Priscila na TV" (fonte: G1 e Folha Online, minutos atrás). Citando um amigo meu citando Caetano, quem lê tanta notícia? Quem precisa saber que Susana Vieira tomou o microfone das mãos de um repórter do Video Show, ou que eu comi ovo quente com sal e pimenta-do-reino hoje de manhã?
Além do mais, deve ter algo de errado com um site que faz a Jennifer Aniston terminar com você.

De qualquer forma, não achei no Twitter foi uma utilidade verdadeiramente exclusiva. Pra escrever textos tenho o Biselho e A Saga de Tião, pra divulgar o Biselho e o Tião tenho as mensagens de MSN, pra falar de filmes tenho a planilha online e o Cinema de Buteco, pra conversar com os outros sem privacidade tenho o scrapbook do Orkut. Ou sei lá, às vezes amanhã me rendo de novo e passo a compartilhar com o mundo minhas análises sobre o pôr-do-sol, minhas recomendações dos melhores sabores exóticos de sorvete disponíveis no meu quarteirão ou minha descoberta de uma nova rede social diferente de tudo o que existe. Vai saber.

08/05/2009

Maria Antonieta entre dois séculos



Maria Antonieta
(Marie Antoinette, 2006, de Sofia Coppola)

Texto produzido para a aula de Introdução à Crítica, da Escola Livre de Cinema.

O rei da França joga cartas, as damas da corte discutem a vida alheia e a rainha Maria Antonieta, amuada em meio à corte e sonhando com o amante, pede licença para deixar a sala. Enquanto percorre os corredores do palácio rumo ao seu quarto, a música que a acompanha não é um tema triste de piano ou um vigoroso concerto de cordas típicos do século 18, mas um rock dos anos 2000, tocado com instrumentos que nem tinham sido inventados ainda, e uma letra que manifesta: “Eu quero ser esquecido / Eu não quero ser lembrado”.

A trilha anacrônica não é mero capricho de Sofia Coppola. Uma obra geralmente tem a cara da época em que foi produzida, e a diretora eleva isso a um outro nível. Sua Maria Antonieta, forçada a se casar aos 14 anos com um garoto que não conhecia e feita rainha sem que soubesse muito bem pra quê, é uma personagem deslocada. Não está apenas fora de lugar, como os protagonistas de Encontros e Desencontros, filme anterior de Coppola, mas principalmente fora de seu tempo. A menina nada tem de visionária ou revolucionária: é que simplesmente, em essência, poderia ser uma nova-iorquina rica mantendo um casamento de aparências com outro jovem, ou mesmo uma brasileira de classe média-alta que faz uma faculdade que não lhe interessa e curte a noite em boates de shopping center. A diferença, e é o que provocou tanta polêmica, é que aqui a retratada é uma célebre personalidade histórica.

A obra de Sofia Coppola, no entanto, não quer o compromisso com uma suposta fidelidade a fatos. O filme pertence a Maria Antonieta: sua visão do mundo, seus problemas pessoais. Não é à toa que o primeiro ato investe em muitos planos subjetivos, compartilhando com a protagonista sua descoberta das pessoas, costumes e minúcias do Palácio de Versailles. Até a introdução de personagens ao espectador é feita com esse intuito: o delfim Luís Augusto é enquadrado bem de longe ao aparecer pela primeira vez, e só quando sua futura esposa Maria Antonieta é apresentada a ele, alguns minutos depois, é que seu rosto é mostrado para nós. Da mesma forma, o importante cenário político da França do século 18 só é abordado no final do filme, quando a revolução já bate à porta e a rainha não pode mais ignorá-la.

É claro: Sofia Coppola sabe evitar o exagero e mescla com equilíbrio os elementos cronologicamente conflitantes. Na cena do baile a fantasias, por exemplo, é suave a transição entre a música clássica e a moderna. A trilha nunca é verdadeiramente diegética, não há bandas de rock ensaiando na garagem do Palácio ou fazendo jam sessions com os músicos da corte.

No entanto, há duas concessões. A primeira é a opção pela língua inglesa em detrimento do idioma original, o que geralmente me incomoda – vide o recente Operação Valquíria e seu Hitler falando em inglês com seus compatriotas – mas que aqui cai bem. A segunda é a breve aparição de um All Star na cena em que Maria Antonieta experimenta seus sapatos, ingenuamente tratada como erro por alguns espectadores. Não é um erro e nem é pra ser levado tão a sério: é uma piada rápida e sagaz, como se ela tivesse cogitado usar o tênis mas intuisse que ainda era cedo demais. De resto, a direção de arte é suntuosa como se esperaria, figurinos e cenários foram reproduzidos com precisão e o filme inclusive foi rodado no próprio Palácio de Versailles, que hoje em dia virou museu, o que contribui ainda mais para a sensação de anacronismo: a Maria Antonieta de Kirsten Dunst é quase a visitante de um museu vivo.

Maria Antonieta guarda muitas semelhanças com Encontros e Desencontros. O tema da distância – geográfica, temporal ou emocional – é central em ambos os filmes. Os personagens de Bill Murray, Scarlett Johansson e Kirsten Dunst compartilham da mesma aversão a solenidades despropositadas, da mesma falta de diálogo com seus cônjuges e do mesmo cotidiano morto, tentando aproveitar como podem uma vida vazia. Diferente de Encontros e Desencontros, porém, a trama de Maria Antonieta não se desenrola em poucos dias, mas em um período de duas décadas. O filme não perde unidade com isso, porque o foco continua nas impressões de sua protagonista, e nem é necessário que nos esforcemos para preencher lacunas de informações.

É interessante, aliás, notar como pouco envelheceram os personagens mesmo após tanto tempo, especialmente Maria Antonieta e Luís XVI. Certamente não foi descuido da equipe de maquiagem deixá-los quase adolescentes mesmo depois dos trinta. Tanto o rei quanto a rainha parecem não compreender exatamente o panorama político em que estão inseridos e quão graves são as conseqüências de suas decisões tomadas de forma descuidada, juvenil. Maria Antonieta, como figura histórica, sempre carregou o fardo de ser uma governante que não se importava com seus governados. O filme de Sofia Coppola tenta mudar essa imagem? Em partes. Ao mesmo tempo em que a rainha declara nunca ter dito a desdenhosa frase “que comam bolo”, quando os franceses reclamavam a falta de pão, ela continua mais preocupada com a unha que com a fome dos súditos, e nem entende porque as pessoas não a acompanham mais quando ela puxa aplausos ao assistir uma ópera. No fundo, ela continua a menina marota que escapa do palácio para ir a festas disfarçada. Como na música dos Strokes, ela não quer ser lembrada, não quer ser o centro das atenções. Já que não tem escolha, ela faz o que pode.

05/05/2009

Funeral

Lucas Paio, maio/2009
Quando tinha seus dezoito anos, num boteco, surgiu o papo do enterro. Como vocês imaginam o seu próprio funeral? Ele pintou na mente uma tela invejável. Manhã ensolarada, multidão. A bandeira do Brasil sobre o caixão, discreta, e outra do América ocupando todo o resto. A viúva, aos prantos, amparada por familiares. Sua filha controlando a emoção para discursar. Os amigos conversando entre si, nostálgicos: esse foi um cara legal. A banda toca um tango, a neta enxuga uma lágrima, fim. Anos depois, vendo a esposa comer com as mãos sobre o balcão da cozinha, a filha entrar em casa fedendo a pinga, o neto malcriado chutando o cachorro e o América naquela situação, doar o corpo para a faculdade de Medicina não parecia tanto um disparate.

17/04/2009

Devia ser proibido



Todo mundo fala do Latino ou do Calypso, mas uma das letras mais picaretas da música brasileira recente vem da afamada e aclamada senhora Marisa de Azevedo Monte, junto de seus comparsas Dadi e Seu Jorge. Senão vejamos:

Jujuba, bananada, pipoca,
Cocada, queijadinha, sorvete,
Chiclete, sundae de chocolate.

Começa com uma estrofe claramente sem critério. Não que seja ruim escrever uma letra só com nome de doces - George Harrison já fez isso em "Savoy Truffle" (do Álbum Branco), acrescentando que seu interlocutor poderia se deliciar com tudo aquilo, mas teria que arrancar todos os dentes depois da trufa de Savóia. Também não falo mal da falta de rimas: grandes clássicos do cancioneiro popular já foram feitos só com versos brancos ("A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica / Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada"). Mas "Jujuba, bananada, pipoca"? "Chiclete, sundae de chocolate"? Qualquer turma de maternal escreve um disco assim em uma tarde de brincadeiras.

Paçoca, mariola, quindim,
Frumelo, doce de abóbora com coco,
Bala juquinha, algodão doce e manjar.

Aqui o caso é diferente. Relendo as prosaicas sobremesas encaixadas na primeira estrofe, os autores nitidamente tentaram se superar adicionando nomes de doces menos usuais, como a mariola e o frumelo. Pode averiguar: nunca a Bala Juquinha e o doce de abóbora com coco foram empregados tão gratuitamente quanto aqui.

Venha pra cá, venha comigo!
A hora é pra já, não é proibido.
Vou te contar: tá divertido
Pode chegar!

As primeiras rimas dão as caras. Um primor: "Venha pra cá" com "A hora é pra já", "contar" com "chegar", "comigo" com "proibido". De fazer inveja em Fernando Pessoa. Mas o ponto principal que quero abordar sobre este trecho é que ele é um refrão de axé disfarçado. Não faltam nem os verbos no imperativo. Eu não me surpreenderia se uma cantora baiana cantasse essa música no próximo Carnaval. Opa, espera aí: a Ivete Sangalo já fez isso.

Vai ser nesse fim de semana
Manda um e-mail para a Joana vir

Marisa Monte mostra como está antenada com as novas tecnologias, num apropriado uso da palavra "e-mail" em uma letra. Nos próximos álbuns certamente ela vai mandar um scrap para o Pepe e um Twitter para o Peter. E a Joana em questão é tão importante para Marisa que não vai receber um telefonema nem uma mensagem de celular, que são instantâneos, mas um e-mail que ela pode nem chegar a abrir. Sorte a dela.

Não precisa bancar o bacana
Fala para o Peixoto chegar aí!

O primeiro verso é cantado com duvidosa dicção e eu sempre entendia algo como "Não precisa esquentar a cama". Acho que o meu virundum é melhor. O segundo é coberto de mistérios: será que ela se refere ao ilustre Floriano Peixoto, segundo presidente do Brasil? Ou a Alvarenga Peixoto, poeta e inconfidente exilado na África? Talvez ao médico, político, escritor e crítico literário Afrânio Peixoto? Fica a pergunta.

Traz todo mundo, tá liberado, é só chegar.
Traz toda a gente, tá convidado, é pra dançar,
Toda tristeza deixa lá fora, chega pra cá!

Esse refrão sem-vergonha é um axé por si só. Dava pra encaixar fácil aí no meio um "O povo do gueto mandou avisar". E como boa música de axé, é nesse ponto que Marisa começa a repetir a letra inteira novamente, sem faltar os numerosos "Uh!" que ela solta ao longo da canção. Pobre de nós.

Este post vai para a Bella, que ontem me mandou uma mensagem assim: "Tem uma infeliz sentada atrás de mim no ônibus cantando a música da jujuba da Marisa Monte. Mato ela ou não?", e para o De Pinho, que é fã de Marisa Monte mas me ajudou a descascar a letra de "Não É Proibido" em merecedores comentários sarcásticos.

08/04/2009

Number nine




É sabido que uma alta porcentagem dos participantes do Big Brother é de boçais sem muito o que acrescentar ao mundo, o que não é nem culpa deles, mas de quem os colocou ali dentro. Sempre achei a seleção dos participantes mal feita e nesta nona edição continuou rigorosamente previsível. Até os idosos, que puseram pra fingir inovação, eram boçais disfarçados de avós: uma velha escandalosa, um velho tarado. Na final de ontem, como de praxe, os participantes eliminados fizeram uma última aparição - provavelmente pelo resto de suas vidas, porque dali pro limbo é uma semana e olhe lá. As gostosas ainda garantem sobrevida mostrando as partes na mídia impressa, o que talvez explique porque elas nunca tenham vencido um Big Brother. Mas quem neste mundão se lembra de Sammy ou Rafael Valente, terceiros lugares em edições relativamente recentes?

No entanto, a idéia do programa não é ruim. E, embora eu tenha ignorado solenemente os quatro primeiros, nos últimos anos acompanhei com curiosidade, tanto para desenvolver mais repertório para esculachar, quanto porque admiro um programa de televisão bem produzido. Confinar pessoas em uma casa e fazê-las passar por situações ridículas é divertido. Ver o pau quebrar e a galera avançar umas nas outras também. O problema com o Big Brother, e que foi ainda mais visível em 2009, é que ele é bonzinho demais.

Porque confinar o povo e deixar um casal sair pra voar de helicóptero ou pular Carnaval é que nem deixar os jogadores do Survivor escolherem entre minhoca ou chocolate. Confinamento é confinamento: prisão domiciliar, sem direito a visitas ou regalias. Nesse sentido, nada mudou e nem vai mudar, mas nesta edição fizeram três tentativas para tentar variar um pouco. Todas furadas.

Uma: separar a casa em dois grupos, divididos por um muro. A intenção era jogar uma turma contra a outra quando eles se juntassem, o que realmente ocorreu, mas como óbvio efeito colateral gerou panelinhas de gente insuportável que duraram até o fim. Duas: a casa de vidro. Juntaram quatro dos boçais e puseram numa espécie de bolha em um shopping center. Mas os participantes podiam ver o povo lá fora! Que chulé na cabeça é esse, pessoal? Em vez de interagirem entre si e proporcionarem ao público a inusitada experiência de presenciar um reality show ao vivo, os quatro ficavam rebolando e fazendo mímica para a platéia, como um chipanzé que joga bosta pra chamar a atenção. E três, o quarto branco. Foi a melhor idéia: um confinamento dentro do confinamento, só que de verdade dessa vez, ouvindo o Pedro Bial só pela voz, a luz acesa o tempo todo, sendo desistir a única possibilidade de sair dali. Só não deu certo porque o chorão que foi pra lá pediu pra sair em poucas horas, acabando com a graça.

Desde o primeiro programa, com aquele sorteio suspeito de lado A e lado B e erros nítidos de direção - os participantes/personagens chegavam e não eram mostrados de frente pelas câmeras - já dava pra ver que, em muitos momentos, nem a Globo, nem o Boninho e nem o Bial sabiam direito o que estavam fazendo. Se as festas sempre foram constrangedoras e a presença do Latino cantando "Hoje é festa aqui no BBB" não surpreende, as provas do líder, por exemplo, costumavam ser mais criativas. A regra aqui foi vender a prova para grandes marcas. Como publicitário, devo reconhecer que descobriram ali um bom negócio - para a Globo e para os anunciantes - mas como espectador é frustrante notar a preguiça mental dos produtores em idealizar competições mais interessantes. A única com alguma emoção foi a tirolesa de ponta-cabeça com os participantes colados pelo pé (e mesmo assim já tinham feito coisa semelhante). De resto, um monte de provas de sorte, provavelmente rabiscadas pelo estagiário às pressas para que o chefe apresentasse logo ao cliente.

O alento é saber que, quanto mais insosso e risível é o espetáculo, maior a chance de originar bons comentários sarcásticos. Na próxima edição, podiam contratar o pessoal do Big Bosta.

06/04/2009

Hail Freedonia



Fale em Marx hoje em dia e a imagem imediata ainda será o barbudão do Karl, mesmo que a maioria de suas idéias tenha ficado soterrada sob a poeira do muro de Berlim. Mas o cinema já presenteou o mundo com uma trupe de comediantes em família que, ainda mais com tanta comédia acéfala surgindo por aí nas telas grandes e pequenas, merece ser revista sempre para lembrar que pode existir mais do que escatologia no humor: os irmãos Marx.

Dos quatro, o mais famoso é Groucho Marx. O bigode estranhamente pintado e os óculos redondos, lembrando aqueles óculos de plástico com nariz e bigode acoplados, tornaram seu rosto icônico, e muitas de suas frases ainda são célebres - não é difícil encontrar algumas, como "Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio", em assinaturas de e-mails ou fóruns de discussão. Mas se Zeppo Marx definitivamente não tinha a mesma graça, Chico e Harpo também eram palhaços de primeira linha.

"Diabo a Quatro" ("Duck Soup", 1933, direção de Leo McCarey) traz os irmãos Marx em sua melhor forma, com gags físicas bem ensaiadas e tantas piadas por minuto que é difícil acompanhar tudo de primeira. Também há uma abundância de trocadilhos, então certifique-se que a legenda seja bem traduzida. Eu assisti a uma cópia com legenda lusitana, do tipo que escreve "oiro" em vez de "ouro". Uma cousa de doudo.

No filme, Groucho Marx é o líder de um pequeno e fictício país, a Freedonia. Ter Groucho como governante é um disparate tão grande quanto ver Carlitos comandando a Tomania em "O Grande Ditador" ou, sei lá, George W. Bush presidente dos Estados Unidos. Ele não tem pudor em sacanear seus ministros, nem em declarar guerra pelos motivos mais bestas - chegando, ele próprio, a lutar nas loucas batalhas que encerram o filme.

Chico e Harpo, por sua vez, são dois espiões com a missão de roubar informações do líder da Tomania. Os dois são excelentes, mas o destaque é Harpo, que não diz uma palavra, tem a mania de cortar coisas alheias (cabelos, pedaços de roupas) com sua tesoura e vive tirando objetos absurdos do bolso, como um Pernalonga em carne e osso. A melhor seqüência do filme é quando Chico e Harpo se disfarçam como Groucho, incluindo o pijama com gorrinho que ele vestia na hora, dando origem a cenas memoráveis como a do espelho, tão imitada posteriormente em zilhões de filmes e cartuns.

Mesmo com seu tempo curto (meros 70 minutos), "Diabo a Quatro" é freqüentemente citado na lista dos melhores. O American Film Institute, por exemplo, o elegeu como o sexagésimo melhor filme de todos os tempos e a quinta melhor comédia. Não sei se o considero perfeito desse jeito - admito que os números musicais não me apetecem muito - mas fica a dica de um humor diferente, para quem costuma evitar a prateleira de comédia da locadora achando que tudo é Adam Sandler ou Todo Mundo em Pânico. E quantos filmes têm a honra de terem sido proibidos por Benito Mussolini em pessoa?

>> Também publicado no Cinema de Buteco.

04/04/2009

Whatever happened, happened

Vi Lost uma vez no AXN e não gostei. Era o episódio em que Sayid tortura Sawyer porque ele tinha escondido uns remédios, e lembro que me incomodou bastante ver um monte de gente numa ilha deserta permanecendo limpos e bem maquiados. Mas depois me emprestaram os DVDs com a primeira e a segunda temporada completas, que vi tudo em um mês e o estrago já estava feito: mais um viciado no mundo. Pelo menos não foi como no vídeo Previously on Lost, sobre um cara que resolve assistir a todos os episódios em dois dias e meio. E como eu acho que nunca falei sobre Lost no Biselho (exceto neste post), acho que vale uns comentários.


1a temporada (2004-2005)

O primeiro episódio de Lost custou 11 milhões de dólares. Foi o piloto mais caro da história da TV: também, o que você esperava de uma série filmada em 35mm em uma ilha do Havaí, com um elenco populoso e a reconstituição detalhada de um desastre de avião? Sempre gostei de histórias sobre ilhas desertas - Náufrago, Robinson Crusoé, A Cidadela dos Robinsons - e o início da primeira temporada de Lost cumpre bem o papel de apresentar os personagens e mostrar sua sobrevivência (ou não) no meio da selva. Aos poucos, percebemos que a ilha não é só plantas e javalis: ali tem monstros, habitantes nativos e mistérios a rodo, levando a infindáveis conspirações - a sinistra aparição de um urso polar fez muita gente crer que aquilo fosse, na verdade, uma propaganda disfarçada da Coca-Cola. A estrutura de cada episódio é similar: cenas na ilha entremeadas por flashbacks centrados em um personagem. Ficamos conhecendo o passado de todos os personagens principais, e se alguns não são tão interessantes, quando a gente descobre as peripécias de Kate ou Locke antes de caírem na ilha a reação é sempre a mesma: "Nóóóóó!". A história vai ficando intrincada, e as recapitulações no começo ("Previously on Lost...") passam a servir não só para relembrar o episódio anterior, mas para situar o espectador após tantas reviravoltas. Tanto que na quarta temporada ainda tinha cena da primeira sendo recapitulada. Entre episódios mais calmos e outros de tensão excruciante - "Do No Harm", com a morte de um personagem e o nascimento de outro, é um dos melhores - a temporada termina mostrando que Os Outros não são aborígenes como eu pensava (sei lá, acho que tinha em mente as tribos estranhas de King Kong ou A Lagoa Azul) e que aquilo ainda vai dar muito pano pra manga. O plano que encerra "Exodus", o último episódio, é um exemplo perfeito.


2a temporada (2005-2006)

"Make Your Own Kind of Music", canção de Mama Cass Elliot, abre o primeiro episódio da segunda temporada de Lost. Logo nos primeiros minutos, descobrimos que o buraco é literalmente mais embaixo: escondido sob a escotilha misteriosa que os personagens encontraram na selva no meio da primeira temporada, há um bunker com camas, comidas, discos e livros, um habitante e um computador onde a cada 108 minutos você tem que digitar uma seqüência de números - 4, 8, 15, 16, 23 e 42 - porque senão... bem, ninguém sabe direito o que acontece. Os passageiros da cauda do avião, que todos julgavam mortos (o avião rachou no meio ainda no ar e cada pedaço foi para um lado) dão o ar da graça, embora alguns saiam da história antes de descobrirmos o suficiente a seu respeito, como a Libby. O começo da temporada é excelente, mas depois começa a ficar meio chato. Muita enrolação, com Charlie preocupado com o bebê de Claire e flashbacks que não dizem muito. No entanto, quando entra em cena Henry Gale - que se tornaria o melhor personagem da série - Lost volta ao seu melhor, encerrando com vários episódios tensos, a revelação do que acontece quando não se digitam os números e um gancho para a terceira temporada ainda melhor que o anterior.


3a temporada (2006-2007)

Depois de um mês assistindo três ou quatro episódios por dia, em DVD, me vi na obrigação de acompanhar a série como todo mundo: um episódio por semana, e olhe lá. O "olhe lá" fica por conta da estrutura adotada na terceira temporada: foram 6 episódios em outubro e novembro, e o restante só a partir de fevereiro. Se na primeira o foco era a ilha e na segunda foi a escotilha, na terceira destrincha a vida e a história d'Os Outros. O episódio inaugural, "A Tale of Two Cities", começa com uma cena genial. No entanto, a expectativa que se construiu para esses 6 primeiros capítulos não se confirmou. Achei algumas explicações meio furadas ou mesmo decepcionantes, e os flashbacks chegaram ao limite. Quem agüenta tanto Jack brigando com o pai? Além disso, a tão alardeada participação de Rodrigo Santoro (alardeada só no Brasil, claro) se restringiu a algumas cenas dispensáveis. Mas do meio pro fim, o negócio foi melhorando: reviravoltas, pessoas mudando de lado, flashbacks que realmente acrescentam - finalmente descobrimos por que Locke foi parar na cadeira de rodas - e um final de temporada excelente, como de praxe. O último episódio, "Through the Looking Glass" apresenta uma inovação surpreendente, trocando o flashback pelo flashforward. E quando um dos personagens grita, desesperado - "We have to go back!" - as perguntas mudam de "o que vai acontecer agora?" para "que porra é essa que aconteceu?" e "como diabos isso aconteceu?", gerando zilhões de lacunas para a temporada seguinte.


4a temporada (2008)
Oito longos meses depois, Lost voltou ao ar com uma temporada bem mais enxuta. Em vez dos habituais 22 ou 25 episódios, foram apenas 14 - culpa da greve dos roteiristas. Mas foi até bom: pararam com a enrolação e começaram a ir direto ao ponto, principalmente depois que anunciaram o número exato de temporadas até o fim do seriado (vai até a sexta). Diferentemente do ano anterior, em que eu ainda pegava os DVDs emprestados com um ex-colega de trabalho, comecei a baixá-los na quinta-feira, horas após a exibição na TV americana. Os flashforwards, como era esperado, trouxeram um novo frescor à série. Como em outras ficções que imaginam o futuro de personagens já conhecidos (The Dark Knight Returns, O Reino do Amanhã...), é um bom exercício tentar descobrir quem são os Oceanic Six, o que eles estão fazendo da vida e como chegaram ali. E se era óbvio supor que todos escapariam da ilha apenas no último episódio da última temporada, foi uma surpresa agradável ver essa cena aparecer a duas temporadas inteiras do final.

Sobre a quinta temporada, que venho assistindo toda quinta-feira no horário de almoço, comento quando ela terminar, lá pro final do mês que vem.

Veja também: resumão bem editado das temporadas 1 a 3
E ouça: "Make Your Own Kind of Music"

30/03/2009

Junk Food Journal



Menu do dia: Pringles sabor Spicy Guacamole

O abacate é uma fruta subestimada. Não existe sorvete de abacate da Kibon, abacate não dá um bom waffer recheado, Bubbaloo de abacate está fora de cogitação. Nem a Fanta, que lança refrigerante de tudo que tem semente - tem até Fanta Chinotto, pelo qual deviam ser presos- ousou criar uma versão com a Persea americana. Abacate é uma das palavras mais chatas de se escrever no celular (as cinco primeiras letras ficam todas na tecla 2) e sua relevância na cultura pop se restringe à vitamina verde que Linda Blair vomita em O Exorcista. E fala a verdade: você confia numa fruta que também é conhecida como "pêra-de-advogado"?

Foi com desconfiança, pois, que topei com um novo produto na prateleira do supermercado: batata frita sabor guacamole. Se em restaurantes mexicanos, regados a tequila, o purê abacate com pimenta cai até bem, prensado em fatias de chips a história muda. E a Pringles já cometeu há pouco tempo a famigerado batata de
Carvão Grelhado, um ícone do mau-gosto com toque de classe. Eu tava com um amigo meu quando vimos a Pringles Spicy Guacamole e a reação foi unânime:

- Deve ser ruim pra caralho. Vamos comprar.

Mas no final das contas, nem era tão assim tão hedionda. Ligeiramente picante (daí o "Spicy", dispensável adorno no nome do produto), não tem o poder viciante de uma Sour Cream & Onion, e nem é tão desgostosa como andaram pintando por aí. O mais curioso, na verdade, foi encontrar na lista dos ingredientes a estranha indicação: "Contém um ou mais dos seguintes: óleo de milho, óleo de semente de algodão e/ou óleo de algodão". Como é que é: vocês tem uma receita ou é na sorte mesmo?

28/03/2009

Se é assim mesmo, que assim seja


Os Paralamas do Sucesso - Brasil Afora
Primeira audição comentada

Fiz essa experiência há quase dois anos com o sétimo disco de Rogério Skylab, e agora retomo com o novo dos Paralamas, banda por quem sempre tive apreço. A primeira audição de um álbum não significa muito e vários dos meus preferidos só comecei a gostar de verdade depois do terceiro ou quarto contato. De qualquer forma, é interessante voltar depois e ler quais foram essas primeiras impressões. Vamos, portanto, ao "Brasil Afora":

14h04 - Metais e um toque latino abrem "Meu Sonho", como grande parte da obra paralamesca. Não parece uma canção muito memorável, mas o clima dela é bem legal. O tema da introdução se repete por toda a música, variando só na hora do interessante solo do meio.

14h10 - A introdução com violões e uma guitarra abafada promete, mas em seguida ela vira um reggae, e devo dizer que tenho certa preguiça de reggae. Mas uma coisa é o reggae vagabundo de mineiros cantando sobre mar e surfe sem conhecimento de causa, outra são os Paralamas. O "All right" do primeiro verso leva a crer que a letra é em inglês, mas o verso seguinte ("O céu tá bonito lilás") desfaz a impressão. O reggae vira rock depois do primeiro minuto e a participação de Carlinhos Brown (também autor da música) nem incomoda. Tem uns versos que são muito o estilo dele, como "Não vou me enganar, hein". Apesar de não ser fã de Brown, ele tem parcerias excelentes com os Paralamas, como "Uma Brasileira". Bom, gostei dessa música. O nome dela é "Sem Mais Adeus".

14h13 - Chega a vez do primeiro single, "A Lhe Esperar". É um skazinho reggado que lembra Cidade Negra. A estrutura de 2 acordes é bem simples, mas tem barulhinhos incrementando. O trecho mais legal é a terceira estrofe ("Água venha, água vá / Arda lenha, cave pá / Chove chuva, vire curva / Gire roda, quebre mar...") Curiosamente, a música escolhida para ser a primeira de trabalho é a que menos gostei até agora. Observação: "Lhe" é uma palavra muito esquisita quando escrita com letra maiúscula.

14h18 - "El Amor (El Amor Despues Del Amor)" é bonita, mas não me pega muito. A voz do Herbert está mais grave que o habitual, lembrando vagamente (mas vagamente mesmo) um Frejat da vida.

14h20 - "El Amor" é colada na canção seguinte, "Quanto ao Tempo". Outro skazinho, mais lento que "A Lhe Esperar". Um verso cita Roberto: "Os detalhes tão pequenos de nós dois ficaram pra depois". Outro trecho já acho forçadão: "Lágrimas não são forever / Dores já não são together". Já foram 5 músicas e até agora o décimo segundo álbum de estúdio dos Paralamas não me agradou tanto. Mas esta é a primeira audição. Quando comecei a ouvir o "Nove Luas", hoje um dos meus discos nacionais preferidos, costumava pular as faixas pares.

14h24 - "Aposte Em Mim" é um pop rock bacana, que remete ao Skank pós-2000. O refrão tem uma harmonia previsível e não contagia muito. A estrutura dela é uma constante em todo o álbum: letras curtas, repetidas na íntegra por duas ou três vezes.

14h27 - Começa "Mormaço", que tem participação do Zé Ramalho. O estilão é bem nordestino. Zé começa a cantar mesmo na quarta estrofe, mas contribui com um grave grunhido na introdução.

14h30 - "Taubaté ou Santos". Baladinha meio... sei lá, "lounge"? O solo é muito bom, embora dure pouco - tinha potencial pra mais.

14h33 - A faixa-título, "Brasil Afora", abre pesadona, surpreendendo - ainda mais depois do fade out tranqüilo da canção anterior. O vocal quase falado lembra um repente e não me apetece, mas o instrumental pesadão é bom.

14h35 - "Tempero Zen". A melodia vocal lembra Zeca Baleiro. Gosto dos primeiros versos: "No íntimo sinto que todo mundo se sente um tanto único /Sinto que não há qualquer tempero zen que apague essa impressão". O solo final é uma mistura do órgãozinho do The Doors e uma guitarra a la Santana, só que mais lento.

14h38 - Outra que começa roqueira. Vamos ver que rumo toma. O nome é "Tão Bela". Como em "Brasil Afora", gosto muito do instrumental e nem tanto da melodia. Letras faladas são boas quando apropriadas, tipo "O Caminho Pisado", do Nove Luas ("Da cama pro banho, do banho pra sala, o sono persiste, o sol já não tarda / É tudo igual, igual, igual, igual...") Um solo bacana encerra a última música disco.

15h27 - A chuva cai lá fora enquanto termino de editar o post pensando se dou nota pro álbum ou não. Acho que 3 estrelas em 5 seria justo, mas vou evitar quantificar antes de uma boa digestão. Agora é esperar os Paralamas em Beagá para o show da turnê. A julgar pelo nome do disco, eles devem rodar o país de leste a oeste, de norte a sul. E embora seja uma das minhas bandas brasileiras preferidas ainda na ativa, só presenciei duas apresentações ao vivo, salvo engano: no Pop Rock Brasil de 1997 (Independência), ainda com o repertório do "Nove Luas" (uma pena que eu não conhecesse o disco tanto quanto hoje) e na turnê Paralamas + Titãs em 2007, no calor infernal do Chevrolet Hell. Aliás, devo dizer que faz tempo que não vou há um show bom de banda nacional. Em Cabo Frio teve Blitz (sim, ainda existe), mas ficamos no Bar do Don Nicola bebendo antes e chegamos no bis. Em compensação, assistimos ao show do Netinho na íntegra. Uma honra, não?

27/03/2009

Salada não leva a nada



Quando se é criança, legumes e verduras são ameaças diárias. Você está lá tranqüilo assistindo TV Colosso, e quando o cozinheiro encerra o programa bradando a plenos pulmões: "Tá na horra de matar a fomê! Tá na mess pessoaaal", sua mãe avisa que o almoço encontra-se pronto, quente e devidamente posto à mesa. Então você se regozija com a perspectiva de bater um pratão de lasanha com batata frita, regado a coca-cola e seguido por uma caixa de Bis, mas o que encontra é uma decepcionante combinação de arroz com lentilhas, carne moída com azeitonas, quiabo, abobrinha e rúcula.

E o pior é que mãe tem argumento pra tudo. Do tenebroso "é saudável" ao autoritário "se não comer, não tem sobremesa", estão todos na ponta da língua, prontos pra fazer você parar de chiar e mastigar logo a refeição. Algumas cogitam até a violência física, situação exemplificada no clássico poema "Menino Luxento":

Menino luxento,
Você quer empada?
-Não, mamãezinha,
Está muito salgada.

Menino luxento,
Você quer pudim?
-Não, mamãezinha,
Está muito ruim.

Menino luxento,
Você não quer nada?
Menino luxento,
Pois tome palmada.

Há ainda uma variação muito perigosa: "como você sabe que é ruim, se nunca experimentou?". Perigosa porque mãe é uma espécie com memória convenientemente curta para certas coisas. Não importa que anteontem você tenha feito o maior esforço do mundo pra engolir aquele guisado diabólico. Ela vai botar outra colherada no seu prato e pedir pra você tentar de novo. Sem falar que, nesses casos, dificilmente as aparências enganam. Você bate o olho e sabe que dessa consistência e desse cheiro não pode sair coisa boa. (Uma exceção digna de nota são as pipocas Aritana, que parecem isopor queimado mas viciam como a mais vil das pimentinhas.)

Talvez você se vingue daqui a vinte anos, quando levar sua mãe para uma viagem a Bali.

- Mas mãe, esse morcego tá com uma cara tão boa, você tem que experimentar.

Já caí muito nesse tipo de golpe. Comi sopa de funghi achando que era caldo de feijão estragado, passei horas em frente a uma salada amarga e encarei boas doses de abobrinhas, rúculas, beterrabas, berinjelas e jilós.

- Mãe, eu não gosto de jiló.
- Mas você nunca experimentou...

Um dia me cansei. Mastiguei o jiló na frente dela, peguei um papel e escrevi: "Já provei jiló e não gostei". Diante de um documento irrefutável, ela teria que mudar de argumentos.

Mas a vida passa e os gostos mudam. Foi assim com a comida japonesa, que provei aos 11 anos e considerei hediondo. Sete anos depois, decidi concedê-la uma segunda chance e foi uma agradável surpresa descobrir que meu paladar se adaptava muito bem ao peixe cru com raiz forte.

Na última segunda-feira, por ocasião do aniversário de um amigo, aceitamos sua sugestão de pedir um prato de jiló crocante. A impressão inicial não foi das melhores: algo não vai bem com um tira-gosto que fede. O aniversariante enfrentou primeiro o desafio e fingiu satisfação com sua escolha. Logo criou-se uma regra: só podia comer o pão que vinha junto quem provasse antes o jiló. De olho na recompensa, olhei para o fruto da Solanum gilo, coberto por uma crosta de fritura, e dei-lhe uma dentada sem pensar demais. A crocância era até razoável, lembrando vagamente uma piabinha frita. Mas quando cheguei ao cerne do alimento, o gosto desgostoso veio à tona e me lembrei do pseudo-documento escrito há quase quinze anos. Provei jiló de novo, continuo sem gostar e uma terceira chance, talvez daqui a uns vinte anos.

Os textos inacabados do Biselho # 20

Em fevereiro de 2009...



Leitura dos últimos dias: Walt Disney - O Príncipe Sombrio de Hollywood, de Marc Eliot. Você sabia que titio Walt foi agente do FBI por vinte e cinco anos, delatando ao governo todo mundo que ele achava que era comunista? Que enfrentou greves em seu estúdio durante anos porque se recusava a pagar salários decentes para seus animadores? Que ele nunca desenhou Mickey Mouse e que a famosa logo com a assinatura não era exatamente parecida com sua verdadeira assinatura? Que, no entanto, ele foi o dublador do Mickey por sete anos até que exibiu um dos curtas à sua mãe e ela disse que o camundongo "tinha voz de mulherzinha"?

O livro não apenas descasca e revela os podres de Walt Disney, mas traça um bem escrito panorama de sua vida como dono de estúdio, produtor de cinema e idealizador de parques temáticos; um cara com excelente visão de mercado (aproveitou na hora certa a chegada do som e das cores no cinema), que tinha o dom de escolher os seus projetos e comunicava as idéias - dizem que a cena representando

*****

Em março de 2009...

Você não conhecia esse lado B do tio Valdisney, conhecia? O livro vale muito a pena, e vale mais ainda conhecer todas essas animações que fizeram a fama dos Estúdios Disney, como o curta dos Três Porquinhos (era disso que eu ia falar no parágrafo que acabou no meio), a primeira aparição de Mickey Mouse em Steamboat Willie ou a orquestra pirada de The Band Concert.

26/03/2009

Os textos inacabados do Biselho #19

Em julho de 2008...

Adaptation.

Enquanto Ensaio Sobre a Cegueira não chega, cinco livros que eu gostaria de ver nos cinemas:



5 - O Clube dos Anjos (Luis Fernando Verissimo)

Divertido livro do Verissimo em que dez amigos glutões se reúnem mensalmente para comer e beber bem, mas começam a morrer misteriosamente um a um, envenenados, após os banquetes. Humor, gastronomia e crimes já deram certo no recente Estômago, e Paulo Miklos, que vem se mostrando apropriado para papéis exóticos, bem que poderia encarnar o cozinheiro Lucídio. Porém...

Poderia dar errado: Verissimo já foi adaptado várias vezes para a TV, em programas geralmente bem-sucedidos (lembra do "Comédias da Vida Privada"?). Mas no cinema são poucas as experiências, sendo "Ed Mort" - que não vi, mas não costumo ouvir boas críticas - o exemplo mais famoso. Além disso, é batata: se é filme brasileiro e não tem favela ou ditadura, colocam o Jorge Fernando pra dirigir e aí danou-se. Um elenco de globais bem maquiados não faria jus aos personagens envelhecidos e decadentes que o livro apresenta.



4 - Blecaute (Marcelo Rubens Paiva)

Três amigos se perdem numa caverna e quando conseguem sair, alguns dias depois, São Paulo é uma cidade fantasma, habitada por pessoas estáticas, como se fossem de plástico. O tema de gente sozinha no mundo me agrada bastante e seria interessante ver a situação num cenário tupiniquim. A grana economizada no elenco poderia ser aplicada nos efeitos especiais, incluindo a antológica cena em que a Avenida Paulista, de cima a baixo, é pintada de vermelho. Porém...

Poderia dar errado: Convenhamos. Uma coisa é a Nova York deserta de "Eu Sou a Lenda", com uma Hollywood inteira por trás. Quando teríamos isso num filme nacional? Mesmo com um elenco enxuto, seria fácil a produção brasileira mais cara de todos os tempos. Imagine a cena em que uma Avenida Paulista deserta é pintada de vermelho de cima a baixo...



3 - O Homem Que Matou Getúlio Vargas (Jô Soares)

Um assassino sérvio com seis dedos em cada mão, especializado em matar tiranos - ou pelo menos em tentar -, resolve dar um fim ao presidente Vargas. O protagonista é divertido e o livro é cheio de cenas engraçadas. Sem falar que metade do elenco de Agosto poderia arranjar emprego novamente.

Poderia dar errado: Vamos por partes. "O Xangô de Baker Street", o livro, também tinha um protagonista divertido e várias cenas engraçadas - mas nem pro isso o filme conseguiu passar a mesma coisa na telona. "O Homem Que Matou Getúlio Vargas" é ainda mais ambicioso: compreende cerca de 40 anos de História mundial, indo de momentos tão díspares quanto a Primeira Guerra e a morte de Vargas, personagens tão diversos quanto Mata Hari e Franklin Roosevelt e cenários tão antagônicos quanto Sarajevo e a Ilha dos Leprosos. Vá tentar espremer isso num filme de duas ou, vá lá, três horas. Junte um protagonista com seis dedos (não vale chamar a Cicarelli), locações em três continentes e a óbvia dificuldade de fazer piadas literárias funcionarem na telona e temos a receita do caos.



2 - O Restaurante do Fim do Universo (Douglas Adams)

Seqüência de "O Guia do Mochileiro das Galáxias", continua a aventura de Arthur Dent, Ford Prefect, Trillian, Beeblebrox e o robô-emo Marvin pelos confins do Universo, após a destruição total da Terra. Mais divertido e ambicioso que o primeiro, o livro traz situações tão diversas quanto o fim do universo, o encontro com o homem que rege o universo e a Terra pré-histórica de dois milhões de anos atrás.

Poderia dar errado: O livro não tem propriamente um final, e qualquer tentativa de fechar a história soaria falsa.



1 - Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez)

A saga da família Buendía ao longo de mais de cem anos. Quem não consegue imaginar a cena inicial, com o coronel Aureliano Buendía diante do pelotão de fuzilamento, lembrando daquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo?

Poderia dar errado: O livro é grande demais e todas as páginas são indispensáveis. Talvez uma mini-série da HBO, com 20 episódios de uma hora, falados em espanhol, fosse mais fiel. Um filme só não daria conta do recado mesmo - uma trilogia já ajudaria.

*****

Em março de 2009...

Gostaria muito de assistir a qualquer um desses filmes, mas legal mesmo seria uma animação 2D dos Saltimbancos, com o áudio integral do disco original...

25/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 18

Em maio de 2008...



Shut up and drive

Meu sonho de consumo na categoria videogames de carros sempre foi um GTA situado em Belo Horizonte. Não que esteja na minha lista de prioridades, no mundo real, explodir um tanque na Praça Sete ou afundar um Cadillac na Lagoa da Pampulha. Mas dirigir numa cidade real que eu conheça bem, como se não houvesse amanhã ou normas de conduta em sociedade, seria uma experiência interessante.

E olha, acho que isso não tá longe não. Primeiro o Google Earth lançou uma versão em 3D de Berlim, com minúcias como a bandeira da Alemanha que flamula sobre o Parlamento. Agora inventaram o Google Drive, um aplicativo simples que permite que você dirija sobre os mapas do Google Maps - todos os mapas, do mundo inteiro. Não chega aos pés nem do primeiro GTA (tá mais pro Enduro do Atari, aliás), mas tem tudo lá: é só digitar o nome da cidade (London, New York, Belo Horizonte, Birigüi) e guiar o carrinho pelos becos. Bom para quem, como eu, só guarda caminho se dirigir por ele antes.

*****

Em março de 2009...

Ainda não lançaram o GTA Belo Horizonte, mas achei um plug-in pro Vice City do De Volta Para o Futuro que é fantástico. Dá pra dirigir o DeLorean, voar, pilotar a locomotiva... Missões? Não tem nenhuma, mas o que interessa é atropelar pessoas e viajar no tempo!

24/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 17

Em novembro de 2007...



Top Secret Area

Cartucho de hoje: Street Fighter II

Ganhei o Street Fighter II junto com o Super Nintendo, numa época em que o II Turbo já possibilitava jogar com os chefões, repetir personagens e teleportar o Dhalsim. O Street Fighter II não trazia essas mamatas. Você tinha que jogar no braço e ganhar de todos os personagens pra ver a cara do M. Bison (e não Mr. Bison, como muita gente achava). Como as opções eram poucas, a gente explorava ao máximo

*****

Em março de 2009...

"Top Secret Area" era uma seção que eu tinha imaginado sobre jogos de videogame que marcaram minha infância. Street Fighter foi, sem dúvida, o principal. (Com Super Mario World vindo em segundo lugar.) Quando tinha 9 anos, minha rotina diária era escola, almoço e Street Fighter. Em 1995, fizemos um campeonato de Super Street Fighter II lá em casa. O filme é um dos piores de todos os tempos, mas na época assisti duas vezes no cinema. Lançaram o Street Fighter IV esses dias e vem filme novo por aí, mas a melhor adaptação vai continuar sendo o brilhante Street Fighter - Later Years, do College Humor.

23/03/2009

Os textos inacabados do Biselho # 16

Em outubro de 2007...



Lamento

- A tecnologia tá matando a arte, sabia?
- É mesmo?
- Bom era quando tinha LP. O disco grandão, com cara de disco, com capa de disco. Aquele encarte gigante, com as letras enormes, que dava pra ler. Não essas letrinhas miúdas de hoje. Eu não quero precisar de óculos pra apreciar um disco, sabe?
- Sei, sei.
- Mas o melhor era o conceito de dois lados. Lado A, lado B. Uma obra com duas metades. O cara tinha que preocupar com a música de abertura do disco, a música que fechava o lado, a música que abria o lado B... as canções que ficam nos extremos são muito importantes. Dão uma cara pro disco. Sabe como é?
- Sei.
- Aí surgiu o CD. Eliminaram o lado B. Estraguei meu primeiro som assim. Tentando ouvir o lado B do CD. Não fazia sentido pra mim eles terem eliminado a segunda metade.
- É. Complicado.
- Mas o álbum, como obra, um disco inteiro, várias músicas pensadas pra serem ouvidas naquela ordem, isso continuou existindo. Mas aí começou a onda de pegar música na Internet. Percebe o que aconteceu?
- O que aconteceu?
- Todo mundo só baixava música avulsa. Uma faixa de cada vez. Um artista de cada vez. É como se todo mundo assistisse só as cenas ao invés do filme inteiro. Lamentável. Lamentável, cê tá me entendendo? A arte acabou. O lado A e o lado B se condensaram, se desmembraram e agora são só isso, retalhos musicais, canções soltas sem identidade. Tá entendendo como isso é ruim? Tá me ouvindo?
- Tô te ouvindo, tô te ouvindo. Mas pelo amor de Deus, pô. Vira o disco!

*****

Em março de 2009...

O pior de tudo é que a indústria passou a década sem conseguir se adaptar, e ainda lança mão de recursos duvidosos como proibir a comunidade Discografias. Ainda ouço muito vinil e baixo muita mp3, mas só Deus sabe a última vez que comprei um CD...

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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