12/09/2009

Anotações sortidas aeroportuárias

 

Guarulhos, 9 de setembro de 2009, 4:47 pm. 

Se for amarrar alguma coisa na sua mala pra ficar mais fácil de achá-la no desembarque, não escolha fitas vermelhas. Nada menos do que quatro malas pretas com fitas vermelhas apareceram na esteira antes que a minha despontasse no horizonte. 

A livraria Laselva tem o nome mais apropriado possível. Lá vale a lei da natureza: quem tem mais pressa e malas maiores atropela quem só está de bobeira, tentando folhear uma revista. 

Passagem trocada por milhas não dá direito a mais milhas. Parece óbvio, mas não custava perguntar, né? Pois é, perguntei e não dá mesmo não. 

O tempo para percorrer a pé da Asa A à Asa D do aeroporto de Guarulhos é de 6 minutos. (Sim, eu fiquei a tarde toda sem ter muito o que fazer.) 

Frankfurt, 10 de setembro de 2009, 3:38 pm. 

Estou sentado no balcão de uma lanchonete chamada Collection. Não pretendia comer nem nada, mas o garçom (Herr Schlotthauen, segundo o crachá) me viu folheando o cardápio, perguntou o que eu queria e acabei pedindo um refrigerante, pra não ficar escrevendo no balcão deles de mãos abanando. De acordo com o cardápio do Collection, todos os anos 50 milhões de pessoas passam por esse aeroporto. 50 milhões de passageiros com sede, porque não vi nenhum bebedouro por aqui. Ou talvez a água da pia seja potável e eu é que não arrisquei experimentar.

Acabo de ver o Bóris Feldman entrando na Relay, livraria-revistaria aparentemente onipresente em Frankfurt (só na área do aeroporto onde estou tem umas três). Deve ter algum evento automobilístico acontecendo na cidade: até onde eu sei, ele não viria até aqui para ver só o Jaguar antigo em exposição no aeroporto, o Opel Insignia aberto para curiosos e o carro pregado no teto de cabeça pra baixo (esses germânicos são loucos).

Ao lado da Relay tem o Quicker's, onde mais cedo degustei um saboroso pão com chocolate. Daqui dá pra ver lá dentro o coração em espiral da Kibon, só que aqui se chama Langnese. É a única marca que conheço que tem um nome diferente a cada país (Streets na Austrália, Ole na Holanda, etc). No meio do saguão, 8 telões de LCD informam aos transeuntes os vôos que vêm a seguir: Estocolmo, Cracóvia, Copenhagen, Düsseldorf, Istambul, Hong Kong. A Lufthansa opera a imensa maioria deles, e conta até com uma lojinha própria aqui dentro, vendendo malas, camisas, aviõezinhos.

A fauna humana varia: muitos alemães, muitos asiáticos, um ou outro árabe barbudo de turbante, uma africana de roupa longa colorida. Mas o prêmio de melhor figurino vai para um gordinho que usava camisa vermelha e macacão azul. Olhei pra ele e comecei a rir sozinho, sem ter pra quem verbalizar a piada pronta: estou diante de ninguém menos que o Super Mario em pessoa! 


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Primeiro dia na China


É engraçado você chegar quase aos 25 anos e de repente voltar a ser analfabeto. Me senti feito um recém-nascido, que vê um monte de coisas, ouve um monte de coisas, mas não entende lhufas e não sabe se eles tão discutindo o preço de uma compra, contando um caso ou rindo da sua cara.

Este primeiro texto será um amontoado de notas sem muito rigor, escritas enquanto estou em frente ao Ramble Cafe, dentro do campus da BLCU, esperando abrirem para o café da manhã. Depois, espero, virão textos mais coesos, sobre assuntos específicos, com um mínimo de embasamento.

Vôo da Lufthansa tranqüilo, apesar das nove horas de pescoço doído de dormir sentado. Vim ao lado de duas alemãs que estão indo ao interior da China visitar um hospital para ursos (!!).

O aeroporto de Beijing é enorme, mas estava bem mais vazio do que eu imaginava. Todos os agentes da imigração usavam máscara (e no avião distribuíram questionário perguntando se estávamos tossindo, o nariz escorrendo...), e não tive trabalho algum pra passar na alfândega. O cara não me fez nem perguntas: pegou o passaporte, carimbou e tchau.

Tive a sorte de ser recebido pela Penny, uma conhecida do meu pai que fala russo e inglês fluente. Com a ajuda dela, do sr. Sheng Gen (que é professor de inglês e alemão na BLCU) e do motorista, Lao Wang (que ainda não aprendeu a pronunciar "thank you"), consegui me registrar no dormitório do campus, fazer um cartão de débito, comprar um laptop e um celular com número chinês.

É bem difícil achar chineses falando inglês compreensível, inclusive dentro do campus de uma universidade cheia de estrangeiros. O vendedor do laptop tentava me falar: "tao lao", "tao lao", até que ele escreveu num papel e pude entender: era "download". Ele também tentou pronunciar "Brasil", mas só saía "Plazil".

No caminho do aeroporto pra universidade, vi o Ninho de Pássaro e o Cubo d'Água. As estradas são largas e pegamos um engarrafamento já esperado. Se em Beagá que é roça grande o trânsito pára todo dia, o que dizer de uma metrópole com 16 milhões de habitantes?

A mulher do dormitório preenchendo minha ficha: primeiro escreveu "LUCAS" no campo "Sobrenome". Depois, no campo "Primeiro nome", olhou o passaporte e não teve dúvidas: colocou "BRASILEIRO".

Meu quarto é bem ajeitado: cama, armário, escrivaninha, bule para chá, frigobar, televisão com trocentos canais – inclusive em inglês, espanhol e coreano. A privada é ocidental, grazadeus. Sanitário no chão não é de todo ruim, e certamente é mais higiênico – até a descarga você aciona com o pé – mas todo dia não dá.

Tem um mercadinho atrás do meu prédio, onde comprei papel higiênico e água. Ainda vou explorá-lo de forma mais aprofundada. Vou ver se encontro um rodo, porque meu chuveiro não tem box nem cortina, e fica tudo alagado.

Meu primeiro almoço não foi chinês, mas vietnamita. Muita carne (boi, frango, porco, camarão, por enquanto nada de insetos), arroz com frutos do mar e abacaxi picado, tudo em grande quantidade.

O shopping onde comprei o laptop é só de eletrônicos. Enorme, vários andares, zilhares de produtos, lojinhas, estandes. Os vendedores te abordam assim que você passa perto, e não é no estilo cortês de perguntar o que o senhor deseja: eles começam a gritar, todos ao mesmo tempo, para que você os acompanhe e confira suas ofertas imperdíveis. Aí você vai andando atrás, subindo escadas sinistras, entrando em elevadores lotados; chega numa salinha nos fundos do topo do prédio e pechincha até sair feliz.

Ainda não tenho internet no meu quarto, mas aqui no café tem rede wireless e dá pra mexer tranqüilo. MSN, Google, Hotmail, Gmail e Orkut entraram sem problemas. Quanto ao Facebook, YouTube e blogs em geral – inclusive este – não posso dizer o mesmo. Tô escrevendo e postando através de e-mail.

Não vi ninguém de tênis Mike ou agasalho Adadis, mas notei a blusa de uma garota com as letras da Diesel, só que escrito "DSELEI".

Lição final do dia: nunca mais comprar um picolé de feijão! Tinha de morango, chocolate, mas não: resolvi pegar o de feijões verdes e vermelhos. Não bastasse a crosta externa, quase impenetrável de tão gelada, o recheio era feijão de verdade. E não tinha nem um arrozinho pra fingir que era PF. 



Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

09/09/2009

Have a Rice Day

 

Muito antes de imaginar que um dia moraria na China, comecei a usar como imagem de MSN um desenho feito por meu chapa Bernardo Silveira, baseado na capa do disco " Have a Nice Day " do Bon Jovi. O smile estilizado com expressão irônica virou um sorridente chinês bigodudo, e o Nice Day original se transformou num apropriado "Have a Rice Day". 

Pretendíamos fazer da imagem a camiseta oficial da nossa Gina'n'Gina Bon Jovi Cover, e o Silveira até mandou a estampa para a Camiseteria , devidamente acrescida de cumbuca e pauzinhos. Mas só semana passada resolvemos pôr a mão na malha e levar o arquivo do Corel para transformar o Bon Jovi oriental em vestimenta. Ainda pesquisei como se diz "Bon Jovi" em mandarim - "Bāng Qiáofēi" - e os ideogramas correspondentes (邦乔飞) ganharam espaço no canto esquerdo. E pronto: camisa novinha pra pisar na China sexta-feira de manhã feeling like a Saturday night. New Jersey nunca esteve tão perto de Beijing.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

Boca de Gafanhoto


Fui pra China.

Não é piada e nem eufemismo pra falar que o blog acabou. O Biselho continua firme e forte, mas com atualizações menos freqüentes. Minhas atenções nos próximos meses estarão mais voltadas para o Boca de Gafanhoto, blog que criei para depositar minhas impressões sobre o país mais populoso do mundo, onde morarei a partir desta semana.
Com um inédito domínio ponto com (até o Biselho que já tem cinco anos ainda é ponto blogspot)e uma logo criada pelo renomado sabinopolense Daniel de Pinho, o Boca de Gafanhoto já conta com 5 posts no ar, e isso que eu ainda nem saí de Belo Horizonte. Comentem, divulguem, xinguem, mas acessem: http://www.bocadegafanhoto.com/

06/09/2009

Henfil na China

 

Esse livro esteve lá em casa desde sempre e só há pouco tempo resolvi tirá-lo da prateleira. Henfil - pseudônimo do genial cartunista mineiro Henrique de Souza Filho, 1944-1988 - visitou a China em 77, quando o país ainda era comunista até o pescoço, e registrou tudo em 300 páginas de texto fácil, detalhista e bem-humorado. Henfil olha pra tudo, pergunta e descreve transporte, comida, serviços, banheiros. Narra suas passagens por hospitais, escolas, fábricas, comunas, casas, asilos e até abrigos atômicos subterrâneos (" Pensei de ir para as montanhas, passar por guardas armados, dizer senhas, passar por raio X, pra ver se eu levava equipamentos de espionagem e por fim entrar numa caverna como nos filmes de James Bond. E o que eu vejo? Na parede de uma lojinha de tecidos, vi um botão ser apertado e o chão se abrir "). Esmiúça não só as diferenças entre os comunistas de olhos puxados e os brasileiros de então, mas entre os chineses pré e pós-Mao. E ainda dá de brinde noventa e nove cartuns excelentes, satirizando da ostensiva propaganda comunista ao destino agrário que eles dão para o cocô humano. 

Quem vê acha que ele ficou lá um ano inteiro. Mas foram apenas 16 dias, sendo mais da metade em Pequim e o restante em Shanghai, Cantão e Hong Kong. A visita de Henfil coincidiu com a queda do Bando dos Quatro - nome dado ao grupo que mandava e desmandava no país, formado pela ex-esposa de Mao, Jiang Qing, e seus asseclas - e a imensa comemoração popular que se seguiu (" Olho pra calçadas e não vejo ninguém assistindo à passeata dos 3 milhões. Ninguém, ninguém. Todos estão na passeata "). 

Obviamente, de 22 anos pra cá muita coisa mudou. O próprio subtítulo do livro - antes da Coca-Cola - já deixa isso explícito. Em 1978, pouco depois de Henfil pôr os pés em solo oriental, a China começou a se abrir para o mundo capitalista, e dá-lhe Ferrari e McDonald's tomando conta, e dinheiro entrando, e obras se levantando. Quando a gente lê no livro: " Apesar de ser uma potência mundial, o aeroporto da capital da China me lembra mais o aeroporto de Natal (onde descem três aviões comerciais por dia) que o Galeão, no Rio. Parece um campus de uma universidade nas férias ", não dá pra não lembrar que, hoje, esse mesmo aeroporto é um dos maiores e mais movimentados do mundo. 

Henfil na China é um registro histórico, uma reportagem competente e um livro divertido, tudo no mesmo pacote. É uma pena seu autor ter nos deixado tão cedo, antes de poder compartilhar sua visão de todo o resto do mundo com a gente. Quem sabe o que ele não teria a dizer sobre este Brasilzão de agora? 

"Henfil na China (antes da Coca-Cola)" 
Henfil, 1980, Editora Record 
Onde encontrar: hoje em dia, só em sebos mesmo. A Estante Virtual é um bom começo.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

04/09/2009

Chinese Bureaucracy

Em um mundo ideal, as pessoas sairiam de um país e entrariam noutro como a gente vai de Beagá pra Juatuba: sem vistos, sem alfândegas, sem burocracias prévias. Mas ainda teremos que conviver com taxas consulares e serviços de imigração por um bom tempo. E se a China não tem aquela chatice do visto norte-americano, com entrevista e atestado de não-valadarense, também não é só chegar com sorriso no rosto e entrar sem pedir licença. 

A intenção aqui é detalhar os procedimentos para tirar passaporte, se inscrever numa escola chinesa e pegar o visto. Se você não tem interesse algum em visitar a China um dia, pode pular este post sem peso na consciência. Mas se essas informações forem úteis pra você de alguma forma, acompanhe comigo: 

Passaporte 

Está muito mais fácil que da última vez que fiz, em 2005. Na época, fiquei a tarde inteira na fila da Polícia Federal, passando fome sob um sol de lascar. Agora, pelo menos em Belo Horizonte, o processo mudou e tudo se resolve rápido. Claro que, para isso, o preço quase dobrou: os antigos R$ 89,71 viraram uma facada de R$ 156,07. 

Passo a passo: 

1. Você entra no site da Polícia Federal e agenda um dia pra ir lá. Eu acessei o site numa terça e marquei pra quinta cedo, pra dar tempo de pagar o boleto que você imprime pelo site. 
2. No dia marcado, leve os documentos: identidade, CPF, título de eleitor, comprovante de votação na última eleição, certificado de reservista do Exército, comprovante de pagamento da taxa e passaporte anterior (se tiver e não levar, o preço sobe para absurdos R$ 312,14). 
3. Não precisa mais de foto 5x7 com data, fundo branco, aquela ladainha. Cada guichê agora tem uma câmera digital no tripé, e o cara já tira sua foto na hora. Tire as remelas do rosto antes de ir. 
4. Também não precisa carimbar o polegar: você coloca os dedos num scanner e as impressões digitais vão direto pro sistema. Assim também é a assinatura: você escreve já numa mesinha digitalizadora. 

O passaporte fica pronto em poucos dias. Fui lá numa quinta, e na segunda já recebi um e-mail dizendo que podia buscá-lo.

Inscrição na BLCU 

Se inscrever na BLCU (Beijing Language and Culture University) , a escola onde vou estudar, é relativamente fácil. O bom é que dá pra escanear os documentos e mandar tudo por e-mail, poupando tempo, dinheiro e encheção de saco. O mais trabalhoso - e dispendioso - é pagar a taxa de inscrição, que custa 600 (cerca de R$ 165). Eu tive a sorte de ter uma amiga do meu pai na China, que fez o pagamento pessoalmente e mandou o recibo escaneado. O único outro jeito é portelegraphic transfer , que custa uma boa grana e eu não sei te explicar como faz. 

Documentos necessários: 

1. Passaporte 
2. Passaporte do seu contato de emergência (no caso, meu pai) 
3. Formulário de admissão preenchido, com foto 3x4 
4. Diploma acadêmico, se tiver (finalmente o meu serviu pra alguma coisa!) 
5. Recibo de pagamento da taxa de inscrição 

Enviei tudo por e-mail no dia 10 de junho. Eles dão um prazo de 2 meses pra responder, mas 19 dias depois já tinha chegado o envelope na minha casa, com carta dizendo que eu fui aprovado, formulário pra encaminhar para o Consulado na hora de pedir o visto e até mapinha da universidade. 

Exames médicos 

Sim: para pisar na China você tem que fazer exames médicos. E se descobrir que é HIV-positivo, melhor escolher outro lugar pra passar as férias - simplesmente não deixam entrar quem é portador do vírus. Mas pra pedir o visto não basta só um exame de sangue. E é melhor que tenha convênio, porque senão é mais uma grana que vai pelo ralo. 

A lista que tive que seguir: 

1. Consulta com uma médica - acho que era clínica geral. Nessa primeira visita, só me passou três pedidos de exames para eu fazer por fora, enquanto ela saía de férias e passeava pelo deserto do Marrocos. 
2. Exame de sífilis e HIV: tirei sangue numa sexta de manhã, peguei o resultado segunda à tarde. Preço: R$ 48. 
3. Raio-X de tórax: fiz numa quinta, peguei na sexta. R$ 84. 
4. Eletrocardiograma: fiz numa quarta, peguei na sexta. R$ 20. 
5. A consulta propriamente dita com a médica. Mediu peso, altura, pressão, pôs estetoscópio no meu peito e costas, fez exame de vista (letrinhas à distância) e de daltonismo (abriu uma página na internet com as famosas bolinhas coloridas e pediu pra identificar os números). Ela cobrou R$ 200 para um exame que qualquer vestibulando de Medicina faria. E pra preencher o formulário em inglês. 

Fora isso, ainda tomei vacina de febre amarela e fui na Anvisa trocar meu cartão pelo certificado internacional. Esse não tem taxa não. 

Visto chinês 

Resolvi tirar o visto através de um despachante depois de notar a boa vontade dos consulados chineses no Brasil. Pra se ter idéia, você liga e diz "Bom dia, quem fala?" e a mulher responde: "Não preciso falar meu nome, não". Por isso, melhor evitar a fatiga e mandar por um intermediário acostumado a fazer aquilo todo dia. 

Documentos necessários (e nada de escanear e mandar por e-mail, todos têm que ser originais): 

1. Passaporte 
2. Formulário que a escola mandou, mais a carta dizendo que eu fui aceito 
3. Formulário médico devidamente preenchido (não precisa anexar raio-X, eletrocardiograma, só o formulário mesmo) 
4. Duas fotos 3x4 
5. Taxa de R$ 210, relativo ao visto de uma entrada 
6. Passagem (não sei se é obrigatório, mas eu já estava com a minha e mandei junto) 

Solicitei o visto com validade pra 6 meses, que é o tempo de duração do meu curso, mas eles só me deram o de 30 dias e recomendaram que eu procurasse o serviço de imigração chinês com a documentação da minha escola pra poder estender o visto. É aquela história: se pode complicar... Pelo menos, veio rápido: em uma semana, o passaporte já tinha voltado às minhas mãos.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

03/09/2009

A China que a gente ouve falar

 

A China permanece uma grande desconhecida para nós. Mesmo com Beijing dia e noite na TV durante as Olimpíadas, notícias aos milhares por toda a internet, feng shui pra cá, tai chi chuan pra lá, nossa tendência é generalizar e enfiar um bilhão de olhos-puxados no mesmo saco. Continuamos com a convicção de que todos os homens têm dentes podres e cara de bolacha, mulheres não têm peito nem bunda e que a única chinesa gostosa é a Chun-Li, mas essa não vale porque é de mentira. Comem de tudo: insetos, ratos, cobras, macaco, praia, jornal - e não passeie com o seu poodle perto deles, porque eles pegam e fritam. Os restaurantes são sujos, os cozinheiros só andam suados e sem camisa, cuspir no prato é regra de etiqueta. Eletroeletrônicos são de péssima qualidade, mas também, de que adianta ter um computador que presta se o governo não permite acessar o Twitter? A população é tão grande que se todos pulassem ao mesmo tempo, a Terra sairia do eixo. E não satisfeitos em terem o país mais cheio do mundo, ainda abrem uma filial em cada grande metrópole e chamam de Chinatown. Chinês é disciplinado. Chinês é submisso. Chinês tem bafo de esgoto. Chinês é sábio e imortal, a julgar pelo Pai Mei e o Lo-Pan dos Aventureiros do Bairro Proibido. Chinês é exagerado: sua Grande Muralha é a única construção humana que dá pra ver da Lua - embora, estranhamente, não seja muito nítida quando a gente dá zoom-out no Google Earth. Chinês começa a trabalhar desde criança, escravizado nas linhas de produção dos tênis Nike. 

Tudo mito? Tudo verdade? Ou uma mistura nem tão radical, nem tão estereotipada, mas ainda exótica e instigante o bastante para ter muito o que falar a respeito? 

Vai ser divertido descobrir. E também vai ser bem curioso desvendar a imagem que eles têm dos brasileiros.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

02/09/2009

Quem é Rei Momo...



Depois de quatro anos sem lançar música inédita, o ABUNN retorna com duas novas canções.

"Festa Junina em Banheiro" é uma ode à celebração da festa de São João nos lugares mais improváveis da casa. A música é minha e a letra é criação da banda toda numa noite de ócio. Não estranhe: ela só tem 34 segundos mesmo.

"Pequena Morsa" narra a história de uma garota rechonchuda que resolveu dar tudo de si para adquirir uma boa forma. A letra é parceria minha com o Daniel de Pinho, que também escreve A Saga de Tião. Fizemos a letra pelo MSN quando ele morava nos Estados Unidos: os versos ímpares são meus e os pares dele, exceto na última estrofe, quando invertemos.

Formação da banda nesta gravação: Lucas Paio (voz, guitarra e teclado), Bruno Paio (baixo), Gustavo Gomes (guitarra solo) e Adriano Domeniconi (bateria).

Onde ouvir? No nosso MySpace. Lá também você escuta "Que Pena", "Opesdol", "A Song With No Name" e "Capitão Garrancho", todas da safra 2004/2005.

01/09/2009

Prólogo

 

Vou morar na China. 

É engraçado ver a reação das pessoas quando eu solto essa frase. Não variam muito. Geralmente é um "nossa, que legal", ou um "puxa, que coragem", não raro um incrédulo "ah, cê tá de brincadeira". Seja qual for a primeira frase, a segunda é sempre uma pergunta: por que China? 

A China surgiu na minha vida há pouco tempo. Nunca fui um grande entusiasta da cultura oriental. Nunca foi meu grande sonho morar na Ásia. Meu contato com a China se resumia ao arroz chop-suey, os filmes de luta que desdenhavam as leis da física e o Spinning Bird Kick da Chun-Li. A primeira vez que tive mais contato com chineses de raiz, quando fiquei hospedado no meio da Chinatown de Sydney , eu tinha era uma certa preguiça desse povo todo, sempre andando em bando e falando sua língua esquisita. 

Mas o bom da vida é poder mudar de opinião. E quando meu pai, que foi a Beijing recentemente e elogiou pacas, me propôs passar uns tempos no país, resolvi domar os preconceitos e tomar a decisão com mais embasamento do que um mero "ouvi falar". E não foi difícil topar com blogs e fóruns cheios de brasileiros que se aventuraram no país mais populoso do mundo e tiveram experiências um tanto positivas. Gente que foi pra ficar 6 meses e está lá há dois, três anos. Enquanto amigos meus foram morar em países mais "tradicionais", como Estados Unidos e Inglaterra, e não quiseram esticar a estadia nem a porrete. A pergunta, na verdade, deveria ser outra: por que não China? 

Ainda que mais globalizada e ocidentalizada nestas últimas décadas do que em toda sua história milenar, a China continua diferente de tudo o que a gente vê por essas bandas. Mesmo que vendam Big Mac e Fanta Uva, também comem cigarras e ovos enterrados na terra. Mesmo que o inglês seja arranhado aqui e ali, principalmente nos circuitos turísticos, é o mandarim que todos falam e escrevem, com seus sons, tons e caracteres complicados. A China soa muito mais interessante e desafiadora do que mudar para Miami e conviver com os mesmos brasileiros, comer a mesma comida, sofrer o mesmo dia-a-dia. Se as roubadas são inevitáveis em qualquer experiência do tipo, que sejam roubadas novas. 

A princípio, vou para estudar. Curso de um semestre na BLCU, sigla para Beijing Language and Culture University. Serão 4 horas de aula de mandarim todas as manhãs, sobrando tempo à tarde para procurar trabalho e desbravar a cidade. Minha casa será a própria BLCU, num quarto próprio com banheiro e todas as vantagens de um campus de verdade - restaurante, piscina, quadra de tênis e badminton, mesas de ping-pong - que não tive na minha faculdade daqui, mais parecida com um colegião. O curso termina no fim de janeiro. Depois disso, sabe-se lá. 

Inicialmente eu pretendia publicar minhas anotações sobre a temporada chinesa no Biselho, blog que mantenho desde 2004 e onde deposito contos, crônicas, vídeos, relatos de viagens. Mas achei que a China merecia um espaço à parte. Por isso criei o Boca de Gafanhoto. O nome veio de uma frase da minha avó, quando soube que eu ia pra lá: "Se você voltar da China e me der beijo com boca de gafanhoto, eu te mato!". 

Nem preciso dizer qual será o primeiro espetinho que vou experimentar.


Publicado originalmente no Boca de Gafanhoto

28/08/2009

27/08/2009

Arrivederci



Roma, Itália
18 a 20 de fevereiro de 2007

Quando regressei a Roma depois de alguns dias perambulando por Venezia e Firenze, cumpri a promessa de não pisar novamente no Alessandro Palace e me instalei no Stargate Hostel, na mesma região feia mas bem localizada, perto da Termini. O albergue seguia o esquema que eu já experimentara no Peace & Love de Paris: chuveiro dentro do próprio quarto, sem porta nem nada - mas com cortinas impedindo a exibição das nudezes alheias - e privada no corredor, essas com portas. Outro aspecto marcante do Stargate era seu elevador à moda antiga, com grades de metal ligeiramente enferrujadas. Não quis nem conferir o estado das correntes.

Logo que cheguei, o Efeito Itália fez-se presente mais uma vez: vira e mexe conhecia alguém numa cidade e encontrava por acaso em outra. Foi assim com as duas brasileiras que conheci em Roma e vi de novo em Veneza, o casal australiano de Newcastle que reencontrei casualmente em Florença e esse baiano, com quem bebi no pub crawl de Berlim e topei outra vez nas ruas romanas.

A última noite da viagem - uma segunda-feira de Carnaval! - foi com um apanhado de várias regiões brasileiras: o baiano, os três cariocas que estavam com ele e com quem rodei em Pompéia, e as três gaúchas que conhecemos nas ruínas. Elas sugeriram um bar logo ao lado de onde estavam hospedadas. Ironicamente, se era tão fácil esbarrar a esmo com alguém, foi complicado reunir toda a patota pra sair à noite, sem celular.

Chegamos no tal pub e um rapaz veio saber o que queríamos ali. Ué, tomar uma cerveja? Ele foi lá dentro, consultou um superior e deixou que entrássemos. Senhores com muita cara de mafiosos penduravam seus ternos e nos olhavam de rabo de olho. Olhávamos o cardápio quando a garçonete veio e avisou que, na verdade, todas as bebidas custavam 10 euros. E a gente achando aquilo muito estranho, mas uma das gaúchas estava com muita vontade de beber e acabou pedindo a cerveja mais cara de sua vida - 27 reais por uma long neck. Assim que ela terminou, pegamos os casacos e demos no pé, antes que nos dessem um tiro ou furassem nosso olho, o que viesse primeiro.

Melhor pedida foi o Julius Caesar Pub, que tinha cerveja Guinness mais em conta e tocava de tudo, até uma ou outra música brasileira - uma razoável para cada outra lamentável, mas brasileira ainda assim. Depois saímos todos bêbados, em busca do Yellow Hostel, o albergue onde os cariocas estavam e que tinha um bar para continuarmos a noitada. Após seis quarteirões sem reconhecer um nome de rua sequer, nos demos conta de que andáramos aquilo tudo na direção errada. Tudo bem: eu já tinha feito coisa parecida antes, e sóbrio.

Voltei para o albergue às 4 da manhã, depois de algumas horas de vinho e cavaquinho, confiando no acaso para acordar antes do horário do check-out, que era às 10h. Abri os olhos, assustado, às 11h40. Ninguém no quarto: nem os iranianos, nem o casal do Peru, nem as mochilas e malas de ninguém - exceto as minhas, ainda bem. Desci correndo, pedindo pelamordedeus que não me cobrassem outra diária, e os caras: "Va bene, va bene!", naquele bom humor que você já conhece. Saí pelas ruas apressado em direção à estação, carregando as mochilas, despenteado e com uma já prevista dor de cabeça. Nada mais adequado para encerrar uma viagem do que uma boa ressaca.

Este post conclui a série tardia sobre meu mochilão na Europa em 2007. Para ler todos, clique aqui. A seguir, voltamos com nossa programação normal. Ou quase.

26/08/2009

Ashes are burning



Pompéia, Itália
19 de fevereiro de 2007

Depois de Tróia e Esparta, a próxima cidade antiga a virar blockbuster seria Pompéia, num thriller dramático de 130 milhões de dólares dirigido por Roman Polanski. Só que o Polanski saiu do projeto e infelizmente não se sabe se o filme vai ou não vingar. Por outro lado, o mundo fica livre de mais um papel insosso de Orlando Bloom.

A história de Pompéia é cinematográfica por natureza. Cidadezinha romana típica, de agitada vida cultural e popular destino de verão. Em 62 d.C., é antigida por um terremoto de 7.5 na escala Richter, que destrói grande parte de suas edificações e instaura o pandemônio no lugar. Nos dezessete anos seguintes é reconstruída pouco a pouco, até que em 79 d.C. o vulcão Vesúvio resolve acordar e espalha pedras e cinzas pra todo lado, soterrando todo mundo. Sua localização é esquecida por mil e quinhentos anos, até que acidentalmente descobrem suas ruínas e iniciam as escavações. Até hoje não terminaram: dos 66 hectares, 21 ainda permanecem intocados. Como se não bastasse, em 1943 os Aliados jogaram 150 bombas em Pompéia, achando que os alemães estavam usando o lugar para estocar munição. Ô lugar zoado.

Eu ouvia essas histórias desde criança e, para meu último dia de mochilão, escolhi fazer um bate-e-volta a partir de Roma para conhecer o famoso sítio arqueológico à beira do Vesúvio. É só pegar um trem pra Nápolis (227km) e outro rapidim (30km) pra cidade de Pompéia. E foi aí que fiz a primeira descoberta, quando cheguei na estação com três cariocas que havia conhecido no dia anterior: existem as ruínas de Pompéia antiga, mas há também uma cidade moderna, logo ao lado, com o mesmo nome. Em italiano, elas se distinguem pela quantidade de Is: "Pompei" é a atual e "Pompeii", a antiga.

Um monte de taxistas se ofereceram pra levar a gente até as ruínas, mas preferimos a pão-duragem e rumamos para o ponto de ônibus. Esperamos, esperamos, até que o ônibus finalmente apareceu... e não parou. Vencidos, caminhamos a distância da estação até a entrada de Pompeii, que nem era tanta assim.

O ingresso custou 10 euros e deu direito a um mapa e um livrinho caprichado (80 páginas) com detalhes sobre as várias construções encontradas lá dentro. Um italiano barrigudo ofereceu seus serviços de guia turísticos, dizendo em inglês macarrônico: "Ráier a gáide ru uíl títchiu Rôman rístori". Preferimos recusar. Também me neguei a comprar um guarda-chuva, embora o sol estivesse longe e a previsão do tempo não fosse nada esperançosa. Resultado: o único dia em que levei o meu Guia do Viajante para um passeio externo também foi o único dia em que choveu. O coitado ficou encharcado.

Ainda na entrada, conhecemos duas garotas cariocas que eram intercambistas em Nápoles, e mais adiante se juntaram a nós três gaúchas que também percorriam o continente europeu. Foi também a primeira vez que andei durante o dia junto com outros brasileiros, e é impressionante como a viagem muda nessas circunstâncias: ganha-se em conversas e piadinhas, mas você deixa de ser mestre do próprio destino, e passa a ir aonde a massa vai.


Entramos em Pompéia com um desejo em comum: queremos ver os corpos! E não demoramos a encontrá-los no chamado "Jardim dos Fugitivos", um amplo espaço cheio de pompeenses mortos. Aí foi a vez da segunda descoberta: não são pessoas cobertas de lava petrificada ou algo que o valha, mas moldes de gesso feitos durante as escavações das ruínas. A técnica foi introduzida pelo diretor das escavações na segunda metade do século XIX, Giuseppe Fiorelli, e funciona assim: os corpos soterrados por cinzas foram se decompondo lentamente e deixaram um vão ali no meio, na posição em que estavam; injeta-se gesso ali dentro, que endurece e pronto. É como uma marca de giz no asfalto, em volta do cadáver recém-assassinado, só que 3D.

Caminhar por Pompéia é um barato. São dezenas de construções, entre casas, estabelecimentos comerciais, teatros e o enorme anfiteatro, onde o Pink Floyd filmou seu "Live at Pompeii", provavelmente o show com pior média de público da história. Grande parte dos objetos, bem como muitos dos corpos de gesso, foram tirados de lá e levados para o Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, malditos napolitanos. Ainda assim, muitas estatuetas, pinturas e objetos continuam firme e fortes em seu lar original, bem conservados, e em muitas casas é possível entrar e se pegar imaginando como seria viver ali há dois mil anos.

Na volta para Nápoles, tivemos provas de que o mau humor não é exclusividade dos cidadãos de Roma. Primeiro, um cara implicou com nosso passe de trem e queria cobrar trinta e tantos euros de multa, até que a intercambista carioca, que falava um italiano mais razoável, conversou com ele e resolveu a encrenca. Em seguida, um bigodudo chato não queria aceitar meus euros pra reserva do trem porque a nota estava molhada, mas eu não tinha um secador portátil na mochila e ele acabou cedendo. Depois o Umberto Eco diz que o maior problema da Itália são os italianos, e o pessoal acha ruim.



O Anfiteatro de Pompéia.



Este pub encerrou suas atividades há 1930 anos.



Ruas romanas e mau tempo.



Um cadáver deitado.



Um cadáver agachado.



Um cadáver de bruços.



Um cadáver dormindo.

25/08/2009

Florentina, Florentina



Florença, Itália
16 a 18 de fevereiro de 2007


Não vou me alongar quanto à minha passagem por Florença. A capital da Toscana, berço do Renascimento, lar de obras-primas da pintura, escultura e arquitetura, é sem dúvida um destino visual e culturalmente imperdível. O caso é que simplesmente não vivi ali experiências dignas de virar história de mesa de bar. O principal culpado, provavelmente, é o hostel que escolhi através do Hostelbookers.com. Não era um albergue de verdade, mas um pseudo-hotel com quartos individuais e banheiro no corredor. Ou seja: não tinha a comodidade de poder tomar um banho na hora que der na telha, nem a vantagem dos quartos coletivos de propiciar conversas enriquecedoras com viajantes intrépidos do Azerbaijão.

Minha chegada a Firenze - o nome oficial da cidade em italiano, ou você achou que era "Florenza"? - deu-se às nove e meia da noite de uma sexta-feira. Fui confiar em meu senso de direção e no mapa estilizado do meu Guia do Viajante Independente, e penei pra encontrar o tal Soggiorno Pitti. Também, o cara consegue se perder na Savassi e acha que chegar numa cidade estrangeira totalmente nova vai fazer brotar um GPS na cabeça. A localização da hospedagem, no entanto, era bem boa. Caminhando, margeei o Rio Arno, cruzei a Ponte Vecchio, comi panino de mortadela na Piazza Duomo. Na Galleria dell'Accademia visitei o desinibido David de Michaelangelo, esculpido quando seu autor tinha 26 anos. O que dá na cabeça desse povo, pra ser gênio tão cedo? Na Galleria degli Uffizi enfrentei uma fila de duas horas para contemplar "O Nascimento da Vênus" de Botticelli e outras trocentas maravilhas renascentistas, isso quando os japoneses não invadiam as salas em bando e atrapalhavam a tranqüilidade. Pelo menos, o ingresso nesse dia era de graça. Na Basilica di Santa Croce, topei com os túmulos de Maquiavel, Michaelangelo e Galileu - e o Père-Lachaise de Paris se gabando de ter o Jim Morrison. Foram boas visitas, boas comidas, boas andanças. Mas sei lá: olhando em retrospecto, eu poderia ter deixado a "obrigação" de visitar Florença e aproveitado para me aventurar em cidadezinhas medievais fora do circuito tradicional, ou para procurar os poucos Paios ainda nativos da Itália. O bom é que eu fico com desculpa pra voltar.



O David de Michaelangelo. Mentira, é uma réplica do mesmo tamanho que fica na Piazza della Signoria. Mas muita gente tira foto como se fosse a original.



Michaelangelo, Leonardo e Donatello. Só faltou o Rafael e o Mestre Splinter.



Multa de 50 euros pra quem colocar cadeado na grade...



...mas aparentemente ninguém tá nem aí.



Peraí caceta.

24/08/2009

Serenissima



Veneza, Itália
15 e 16 de fevereiro de 2007

Tudo que eu tinha pra falar de Veneza eu já escrevi neste post de 2007. De como deixei pra última hora a tarefa de encontrar abrigo e acabei num camping na cidade vizinha de Marghera, onde tomava banho no pior chuveiro do mundo. De como o Carnaval veneziano passa longe das ruas sujas de Diamantina, do frevo suado de Olinda e das penas coloridas da Sapucaí, e se resume a transeuntes trajando fantasias caras à moda de 1600 - isso fora dos grandes salões, onde o pau quebra de verdade, mas só pra quem está disposto a desembolsar cento e tantos euros numa folia aristocrática.

Isso é mais ou menos tudo. Em Veneza não colecionei casos hilariantes, não conheci figuras pitorescas nem me embrenhei museus adentro sedento por cultura. A única atração paga que visitei foi o Campanário da Praça de São Marcos (6€), de cujo topo tem-se uma vista invejável da porção continental da cidade e de suas ilhotas espalhadas pelo Mar Adriático. Também não me dei o trabalho de encontrar o centro de informações turísticas e requisitar meu mapa grátis. Era muito mais divertido tentar seguir as placas duvidosas e as pessoas apressadas, confiando na sorte e conhecendo cantos escusos que um guia de papel não se importaria em ignorar.

Porque Veneza é isso: atração por si só, lugar pra andar a esmo sem outras preocupações a não ser achar sorveterias e desviar dos pombos. Muita água, mas também muita terra firme, o que era uma questão que me perseguia: será que todas as ruelas de Veneza são aquáticas, e a locomoção em duas pernas é só por pontes e meios-fios? Não: os canais são abundantes e vão dos filetes de água à imponência do Gran Canale, mas há diversas praças além da San Marco, e muito chão de verdade para os hidrofóbicos. Transporte, só mesmo os vaporetti - barquinhos motorizados que ligam as várias regiões da cidade - ou as gôndolas, se você for casal ou japonês.

Vagando pela Piazza San Marco, reencontrei duas brasileiras que conhecera no famigerado Alessandro Palace de Roma. Uma de Recife e outra de Belo Horizonte, ambas viajando juntas há semanas. No trem para Veneza, passaram sufoco: alguém afanou a bolsa da belo-horizontina; investigaram todos os vagões e tiveram a sorte de encontrar o passaporte, intacto, dentro de um vaso sanitário. Longe da amiga, a recifense me confidenciou que já estava de saco cheio de viajar com ela. O ritmo das duas não batia, cada uma tinha horários e objetivos e gostos e vontades diferentes, e eu pensando: tem hora que viajar sozinho é bom demais. Lembrava do grupo enorme de Brasília que conheci em Amsterdam, duas mulheres e três homens, e reparando nos problemas causados por falta de afinidades e excesso de convivência. Às vezes é melhor andar sozinho e não ter ninguém te aporrinhando quando você resolve entrar numa loja de instrumentos e comprar um kazoo barato de plástico, ou escrever postais na beira do mar tomando gelato de stracciatella (sempre ele). Se for em Veneza, então, melhor ainda.

23/08/2009

Sono pazzi questi romani



Roma, Itália

12 a 15 de fevereiro de 2007


Olha, o mundo todo devia ser como a União Européia: cheio de diferenças culturais, idiomáticas e gastronômicas entre os países, sim, mas com uma só moeda e essa facilidade incrível de transitar sem chateações alfandegárias e burocráticas encheções de saco. Quando desci em Roma, até perdoei o avião claustrofóbico da Ryanair e o meu ouvido que ficou entupido por dois dias: sair de um aeroporto internacional sem que sequer peçam seu passaporte vale tudo isso.

Me falaram que Roma era feia, que era violenta, mas caminhei bastante pela região da Stazione Termini - que realmente não é das mais vistosas -, inclusive de madrugada, e não tive problema algum. Já a história de que o trânsito romano é o mais próximo que já chegamos do apocalipse não é intriga. Por via das dúvidas, eu só atravessava a rua quando outros transeuntes se aventuravam também.

De resto, passear por Roma é uma beleza, e é melhor que você o faça a pé. O metrô é muito cheio e você acaba perdendo detalhes da paisagem, como um pé gigante de mármore dando sopa numa ruela qualquer ou ruínas que estão ali de bobeira há dois mil anos. Faça o roteiro completo: tome um gelato de stracciatella na escadaria da Piazza Spagna, jogue uma moeda na Fontana di Trevi (mesmo que depois um ladrãozinho maroto meta a mão lá dentro pra pegá-la), prove um gole do pior refrigerante do mundo. Percorra o Circus Maximus, mesmo que nenhum vestígio do circo tenha restado no que hoje parece o gramado do Parque Ecológico da Pampulha. Enfrente a fila do Coliseu e ande pelo Palatino imaginando quanta coisa já se passou naquelas ruínas - só não precisa tirar foto com os legionários fake loucos por uns trocados.

O grande problema de Roma - na visão de quem ficou por lá menos de uma semana, não custa repetir - são mesmo os romanos. Obelix tinha razão: esses romanos são loucos, e o que é pior, mal-educados pra cacete. O albergue onde fiquei, Alessandro Palace Hostel, tinha funcionários que faziam a americana ranzinza do Peace & Love de Paris parecer recepcionista de hotel 5 estrelas. Quando viram que eu era brasileiro, então, danaram a desfilar o repertório de palavrões que eles conheciam na língua de Dercy Gonçalves. Ainda bem que meu repertório é maior e eles não entenderam metade do que eu retruquei.

Mas a fauna de hóspedes do hostel era interessante. Tinha uma californiana com cara de asiática que estava lá há duas semanas, só acordando tarde e saindo com os amigos à noite, "just hanging out" (palavras dela). Tinha dois escoceses que viajavam com dois violões, provavelmente gastando mais com taxas extra do que com as próprias passagens. Fizemos um som no quarto - toquei "Hello" do Oasis e "Karma Police" do Radiohead, as primeiras canções britânicas mais ou menos recentes que me vieram à cabeça. Quando alguém perguntou, em tom de galhofa, se eles vestiam kilt, um deles não hesitou em tirar seu saiote xadrez da mala e exibi-lo com orgulho.

Depois os corteses funcionários do albergue me trocaram de quarto sem motivo aparente, e fui parar em outro com uma chinesa que mora em Tóquio e viajava sozinha pela Itália. Seu nome era quase impronunciável, mas ela se apresentava como "Ding Ding". Era engraçada: pegou meu guia de viagem e ficou horrorizada com a falta de fotos; disse que se um guia não tiver muita, muita foto, japonês não compra. E me mostrou o guia dela, que parecia álbum de figurinhas de tão ilustrado. Ding Ding também comprou um livro em italiano pra tentar aprender a língua. Detalhe: não era um dicionário ou um guia de frases, mas um livro normal, de ficção. Aposto que até hoje ela não sabe o que é porca miseria.

Nesse mesmo quarto, sofri com um dos maiores problemas alberguísticos: o famoso cara que ronca. Em vários dos lugares onde fiquei, sempre tinha alguém que roncava em maior ou menor intensidade, e eu mesmo devo ter dado minhas ressonadas quando bebia um pouco mais. Mas esse cara, um sujeito mais velho que chegou quando eu já estava quase dormindo, embrenhou-se numa barulheira nasal que não cessava nem por determinação de bula papal: cutuquei, soquei o estrado de sua cama por baixo, acendi a luz na cara dele, e ele só parou quando eu já estava sonhando que estava numa convenção da Harley-Davidson.

Quando voltei a Roma três dias depois, fiz questão de não voltar ao Alessandro's.



Cidade do Vaticano, Vaticano
14 de fevereiro de 2007

Como nação, o Vaticano é tão fuleiro que nem fiz um post separado só pra ele. Teoricamente, você pode ficar pisando dentro e fora da Piazza San Pietro e contar depois que fez quatrocentas e cinqüenta viagens internacionais em cinco minutos. Mas é quase a mesma coisa de você entrar num supermercado, derramar uma porção de latas de Pomarola e fundar uma ilha cercada de massa de tomate por todos os lados: alguém pode até entrar na sua e saudá-lo como o Novo Imperador da Licopérsia, mas país, país mesmo, não vai ser nunca.

Como atração, no entanto, o Vaticano é imperdível, mesmo que você - como eu - não seja católico apostólico romano e nem queira tomar bênção de Benedictus XVI. O Vaticano já vale a pena pelo seu incomensurável valor histórico e cultural. Começa com o Museu do Vaticano, cuja entrada não é pela Praça de São Pedro, mas por Roma mesmo. Dá pra passar uma semana inteira ali dentro, admirando as zilhares de estátuas, as salas decoradas por Rafael Sanzio, as obras de arte religiosa moderna que incluem até Dalí. A visitação culmina com a Capela Sistina, invariavelmente abarrotada de turistas. Enquanto eu tava ali com o pescoço doendo de tanto olhar pros afrescos do teto, um funcionário teve que pedir silêncio duas vezes, tamanha a balbúrdia.

Quem conhece a expressão "é como ir a Roma e não ver o Papa" deve imaginar que o Pontífice fica lá o dia inteiro, sentado num sofá e tirando foto com os fiéis. Mas se você realmente for se sentir uma pessoa mais iluminada se topar com Lord Ratzinger, procure saber antes que dia ele vai aparecer, porque ele só celebra missas ali em dias específicos.

Entrei na Basílica de São Pedro no meio de uma missa, mas com velhinhos mais simpáticos no comando. Me infiltrei na multidão pra chegar mais perto do altar, cumprimentei os que estavam mais perto desejando "pace di Cristo", e depois fiquei sentado esperando a massa ir embora para visitar a Basílica com calma. Quando finalmente a turba se dissipou e eu podia respirar tranqüilo, avistei ao longe a Pietà de Michaelangelo e me aproximei, mas fui interrompido por um funcionário:

- Todo mundo tem que sair.
- Não, peraí rapidinho, só vou ali ver a Pietà!
- Não não, todo mundo tem que sair - e me pôs pra fora.

Esses romanos são uns intransigentes.



A Praça de São Pedro, durante a missa.



A mesma praça, depois da missa.



Um pé gigante no meio da rua.




Uma bunda gigante no meio da praça.



Tá vendo o Circus Maximus? Não? Então é melhor pegar um DeLorean pra 50 antes de Cristo.



Guarda l'uccello!



Ave, Caesar, morituri te salutant.



O legítimo Pombo Times New Roman.

Quem

Lucas Paio já publicou contos em revistas e antologias, já dirigiu curtas-metragens e compôs canções, já ganhou um campeonato de aviões de papel, tocou teclado numa banda cover de Bon Jovi, morou na China e hoje vive em Berlim. É autor do romance de fantasia cômica MACADÂMIA, lançado em 2025.

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